29.3.16

O criado-mudo.




A mãe mexe no celular quando o filho, rapazola, se aproxima:

“Mãe, o que é isso?”

Ela responde sem olhar:

“Isso o quê?”

O moleque bufa:

“Isso! O que é isso que achei na gaveta do seu criado-mudo?!”

A mãe levanta os olhos e vê o garoto lhe apontando um objeto. Ela responde calmamente, sem mudar de expressão:

“Um vibrador. Você sabe o que é isso.”

O menino arregala os olhos:

“E o que isso está fazendo na sua cabeceira?"

A mãe ergue uma sobrancelha e, incorporando a diva de cinema mudo, devolve calmamente:

“Você quer mesmo que eu te explique?”

O adolescente franze o rosto com asco:

“Ai...que nojo! Você é minha mãe! Eu não estou pronto para saber dessas coisas.”

A mãe estica a cabeça e faz cara de quem não está entendendo:

“Bom, se você não está pronto, por que mexeu no meu criado-mudo? Não sabe que em criado-mudo de mãe não se mexe? Criado-mudo é zona proibida. Você procurou e achou. Agora seja mocinho e lide com esse fato da vida.” 

O menino exclama indignado:

"Da minha vida, né?! Porque tenho certeza que as mães dos meus amigos não têm um negócio desses na cabeceira."

A mãe sorri:

"Não sei. O que elas guardam no criado-mudo não é da minha conta e nem da sua."

“Eu...eu...não quero ter essa conversa com você! É muito nojento!”

A mãe conclui, antes de voltar para o que estava fazendo: 

“Você pode não querer falar, mas agora não tem como não saber: sua mãe tem um vibrador.”

O menino ergue a voz enquanto se afasta:

"Mãe, você é RI-DÍ-CU-LA!”

A mãe devolve no mesmo tom:

“VI-BRA-DOR! Serve para GO-ZAR. Agora, coloca direitinho de volta no lugar, tá bom, bebê? Não quero ter que ficar procurando."

"ARGH!"


Foto de Lachmanifesto

23.3.16

A escola na sala de jantar.



Ontem, só ontem, enquanto assistia ao filme Hannah Arendt, um pensamento me invadiu fino e fundo, como uma agulha de tricô e me virou o estômago e a mente: eu sei pouco, muito pouco ou quase nada sobre o nazismo.

Um dos maiores crimes da atualidade contra a humanidade, com 6 milhões de pessoas sistematicamente assassinadas, e o que sei sobre o processo que levou uma sociedade dita civilizada a cometer tamanha atrocidade? Nada.

O pensamento é talvez o mais rápido download que existe. Na mesma hora me conectei com a escravidão. Milhões de seres humanos arrancados de suas vidas e transportados como gado para servir de mercadoria. E o que sei realmente sobre esse fato, suas causas e consequências no mundo em que vivo? Praticamente só o que aprendi nas novelas das seis da Globo.

Foi difícil continuar prestando atenção no filme. Vendo Hannah dar aula, refletindo de maneira tão aprofundada com os alunos sobre a natureza humana, me ocorreu que estudei numa escola estadual durante a ditadura militar. Só 30 anos pós Segunda Guerra - ontem, em termos de história - e nunca um professor conversou conosco sobre esse conflito. Todos os esforços educacionais eram concentrados em nos fazer decorar capitais, datas e nomes de pessoas importantes. Eram aulas estéreis, emburrecedoras, a serviço dos generais.

A escravidão me foi ensinada como algo banal, coisa da vida, que aconteceu no passado e acabou graças a uma princesa branca, cheia de bondade. 

O holocausto indígena nas Américas, nunca ouvi falar. 

Nem de Getúlio Vargas, JK, Che Guevara, Mussolini. Pouco aprendi sobre a revolução francesa e menos ainda da revolução chinesa. Sei lá porque tem duas Coréias e mal entendo como podia ter um muro bem no meio de Berlim.

Sem minimizar de forma alguma o horror das torturas, hoje considero que um dos principais crimes da ditadura foi nos tornar rasos. Somos uma geração de humanos que sabe nada sobre a nossa própria natureza. Refletimos muito pouco sobre o que somos capazes, tanto para o bem como para o mal. Somos arrogantemente vazios e desprovidos de empatia.

A ditadura acabou, mas nossa escola até hoje não conseguiu se livrar desse modelo. Reconheço que há um movimento ainda incipiente de reflexão sobre causa e consequência das ações humanas e de desconstrução de heróis duvidosos, principalmente nas disciplinas da área de humanas. Mas, em geral, a maioria das escolas permanece congelada nos tempos da ditadura, onde toda e qualquer discussão de natureza “polêmica” é evitada. Como se o debate, num local de aprendizagem, fosse ruim! Classifica-se agora como "esquerdista" qualquer reflexão que se evita na sala de jantar e a escola acaba se tornando uma extensão das famílias e não um ambiente distinto de aprendizado. 

Assim continuamos a formar gente que não sabe o que dizer diante de um tema como a violência contra a mulher. Que se escandaliza quando escuta que o trabalhador doméstico deve ter direitos. Que é descendente de imigrante e é contra a imigração, como se seu antepassado tivesse aportado aqui de férias e resolvido ficar por conta do sol tropical. 

Qualquer guru chinfrim de autoajuda sabe que só conseguimos nos transformar quando olhamos para nossos próprios atos, refletimos e aprendemos com eles. Se um dos papéis da escola é transmitir às próximas gerações o conhecimento humano adquirido até aqui, como impedir a reflexão sobre os erros e acertos do nosso passado coletivo? 

Quando um determinado tema dói, irrita, choca, é sinal que o assunto ainda precisa ser debatido. E esse debate tem que ser feito na sala de aula. Os generais se foram. E a escola vai sair quando da ditadura?

20.3.16

“Professora, e seu eu te chamasse de vadia?”



A sala do sétimo ano estava dispersa e, no meio da confusão, um garoto chama um grupo de alunas de vadias. Elas ficam muito indignadas e procuram a autoridade presente: a professora.

A professora não dá bola. Negócio de criança, coisa da idade.

A indignação aumenta. As meninas ficam ainda mais exaltadas e alguns garotos resolvem sair em defesa delas: “Ô profa, o moleque chamou elas aqui de vadias! Você não vai falar nada?!”

A professora olha com cara de quem está cansada daquilo tudo e diz: “Depois vocês resolvem isso...lá fora no intervalo.”

É quando um dos meninos a interrompe dizendo: “Profa, depois?! E se fosse eu que te chamasse de vadia? Você ia querer resolver agora ou depois?”

O episódio ilustra bem como a construção da ética e do respeito nas relações ainda é uma realidade distante nas nossas salas de aula. E como a indignação do adulto é tratada com muito mais atenção do que a infantil ou juvenil.

Na visão de muitos educadores, um conflito só é digno de ser trabalhado quando envolve o educando e a autoridade. Conflitos entre os pares, isto é, entre crianças da mesma idade, é visto como coisa da idade. Mesmo quando trata-se de algo que, se não trabalhado, o educando pode levar para a vida, como nesse caso, o desrespeito às mulheres. 

Trabalhar o problema não é culpar o menino ou castigá-lo, com as costumeiras broncas e advertências que não servem pra nada. Um conflito bem elaborado é quando ele é visto como uma oportunidade valiosa de aprendizado, para todos os envolvidos. Tem coisa mais rica que flagrar um momento de desrespeito, quando o autor ainda tem idade para refletir sobre seu ato e se transformar? Tem algo mais precioso do que valorizar a indignação das vítimas e empoderá-las, para que procurem sim uma retratação? Tem momento mais imperdível do que apoiar os que saíram em defesa dos agredidos e valorizar essa postura tão rara de se ver no mundo adulto? Tem reação mais importante do que deixar claro para todos que estão na sala de aula que determinadas atitudes não são aceitáveis em hipótese alguma na vida em sociedade?

Mas a professora preferiu ignorar. E as meninas seguem vadias. E os garotos seguem vazios.

Termino narrando um episódio testemunhado na Espanha, onde, por lei obriga-se as escolas a trabalharem a moralidade e as questões de gênero. Houve um conflito durante a aula de matemática, curiosamente, a mesma disciplina da professora citada nesse texto. O professor interrompe a aula e discute com a sala o ocorrido. A visitante brasileira que observava o episódio dirige-se mais tarde ao educador e pergunta o motivo dele ter parado a aula só para resolver uma briga de criança. E o professor responde: “Sempre que temos um conflito, interrompemos a aula e conversamos. Porque aprender a se relacionar é mais importante do que aprender matemática.”