18.5.15

Tijolo nos dentes





Tijolo nos dentes

O menino se aproxima: “Mãe, você sabia que o Mc Pedrinho, Mc Brinquedo e o Mc Pikachu estão sendo processados?”

A mãe franze a testa. Não tem a menor ideia de quem são Pedro, Brinquedo e Pikachu. Mas cumpre à risca seu papel de mãe interessada. “Jura?! E por quê?”

“Porque eles tem doze anos e trabalham. Dão show às três horas da madrugada, acredita? E cantam umas músicas muito nada a ver.”

“Como assim nada a ver?”

“Ah, mãe…coisa de sexo…posso cantar? Você não me dá bronca?”

“Pode.”

O menino respira fundo e canta meio titubeante, sem fazer contato visual, “Roça, roça o peru nela que ela gosta…”

“Que horror! E onde você escutou isso?”

“Mãe, todo mundo escuta. O Fulano, meu amigo, canta o tempo todo. Na frente da mãe dele e até da professora!”

A mãe arregala os olhos: “Da professora?!”

“É, ela deu a maior bronca. Mas é ele, né, mãe. Eu não faço nem morto, porque sei que você me quebra!”

A mãe franze a testa, de novo. Ia logo perguntar “Eu te quebro?”, mas preferiu se calar por um instante. Achou intrigante. Nunca deu nem uma “simples” palmada num filho e não acredita na educação que precisa de violência para acontecer. É totalmente a favor da Lei da Palmada, que proíbe que os pais batam nos filhos. Então, de onde o menino tirou que ela iria quebrá-lo?

Lembrou-se do dia que a faxineira chegou super indignada na empresa em que ambas trabalham. Ela tinha presenciado o filho de uma cliente ser extremamente mal educado com a mãe e não se conformava com a grosseria do menino. “Filho meu nunca fala assim comigo porque sabe que leva uma tijolada nos dentes.”

Aquela frase ficou gravada na memória. Sabia que a mulher falava no figurativo, mas ela lhe ensinou que havia um limite claramente traçado com tijolo o qual os filhos dela sabiam que não podiam ultrapassar. Invejou-a. No meio onde ela circula, de pais que refletem demais, a ponto de muitas vezes terem dúvidas de como agir, aquela frase lhe fez pensar na delícia de criar filhos sem pisar em ovos. Nunca quis que os filhos a temessem, mas pensando bem, um medinho, um “prestenção, moleque” até que não seria nada mal. 

O hábito, contudo, foi mais forte e ela optou pela técnica de orientar levando o filho a refletir:

“Filho, cantem essas músicas entre vocês, quando estiverem sozinhos. Na frente da professora é uma bruta falta de respeito. E na frente de meninas então, nem pensar. É muito ofensivo.”

“Ah, mãe, outro dia o Fulano cantou e elas deram risada.”

“Deram risada porque ainda não pensaram no que isso significa. Nenhum homem pode encostar o pinto numa mulher sem ela querer. É mentira que as mulheres gostam. Já imaginou, no ônibus, na rua, um cara chegando e encostando o pinto em mim ou nas suas amigas. É horrível! Só se a mulher quiser e deixar. Não canta essas músicas perto de mulher nenhuma, porque é supergrosseiro. E não tem graça.”

O menino bufa, “Eu não canto, já disse. Eu sei que você me quebra.”

A mãe, respirou fundo e ia retomar a pregação. Mas pensou melhor e disse:

“Exato. Te quebro. Dou-lhe uma tijolada nos dentes. Fica esperto”.

O menino saiu dando risada. Ao longe, a mãe ainda o ouviu cantarolar uma canção. Sem roça roça ou peru.