9.2.15

Piolhinha






Piolhinha


A classe dos pequenos padecia com uma infestação de piolhos. 

Todos os esforços que estavam sendo feitos para resolver o problema pareciam ser em vão. A escola mandava bilhete, os pais tratavam, os piolhentos eram afastados alguns dias e devolvidos sem sequer uma lêndea, mas logo os bichinhos voltavam a atacar sem piedade o couro cabeludo da meninadinha.

A mãe não aguentava mais. Sua filha parecia que tinha néctar para atrair piolho. Era mandar pra escola que voltava coçando a cabeça. 

Resolve tomar uma atitude. Ela era muito boa nisso.

Encontra a professora na porta da sala e, num momento privado, dispara:

- Escuta, não é possível isso que está acontecendo! Com certeza tem um foco, alguma criança que a mãe não está tratando. Quem é?

A professora olha para um lado, olha pro outro e solta num cochicho: 

- A Fulaninha. Você sabe, a mãe dela é supernatural. Tipo super mesmo…não gosta de produtos químicos e se recusa a passar qualquer coisa na cabeça da menina. Dá pena de ver o tanto que ela se coça.

- Pô, mas nem um vinagre com pente fino?! Quer algo mais natureba que isso?

- Nada. Já tentamos de tudo. Ela se recusa, diz que o corpo da menina vai se equilibrar e expulsar o piolho sozinho. O pior é que a pobrezinha tem um cabelo enorme! Impossível não encostar nas outras crianças. A gente até prende, faz um coque, mas não adianta.  Estamos evitando suspendê-la, mas não sabemos mais o que fazer.

Depois de prometer que a conversa ficará entre elas, a mãe se despede e sai matutando um plano. Ela também era muito boa em ter ideias.

Na mesma tarde, liga pra mãe paz e amor e convida a pequena Gal Costa para ir brincar em casa depois da escola. 

Tudo arranjado, ela pega as meninas na saída e, no caminho, dá uma paradinha na farmácia.

Chegando em casa, as meninas brincam um pouco e depois de um lanchinho, a mãe sugere:

- Vocês não querem brincar na banheira? Tenho giz de cera de azulejo e esse canudo de fazer megabolhas de sabão!

As meninas topam e enquanto brincam, a mãe vai espumando o cabelo das duas, delicadamente, com shampoo de piolho. Depois “desembaraça” com pente fino, fazendo esculturas engraçadas e penteados de princesa.

Repete a brincadeira na semana seguinte e na outra, só por precaução.

A infestação de piolhos foi milagrosamente controlada e, para todos os efeitos, o corpo da menina se equilibrou e expulsou sozinho o inimigo. 

Só que não.

3.2.15

"Ensina-me a proibir"


"Ensina-me a proibir"

Nas escolas e universidades da idade média, tocadas pela Igreja, um conselho de padres e bispos se reúne e decreta: “está proibido o uso dos livros nas salas de aula. Com os livros, nossos alunos se distraem, não prestam atenção, tem acesso a conteúdo inapropriado, compartilham um conhecimento que muitas vezes desconhecemos. Com os livros, perdemos controle.”

Mudem a cena para 2015, coloquem os tablets e celulares no lugar dos livros e não é difícil concluir que estamos vivendo a mesma situação. 

Enquanto algumas escolas estão incorporando as tecnologias portáteis no seu dia-a-dia, outras estão proibindo seu uso dentro dos muros. Não pode nem no intervalo e nem na saída. O motivo é praticamente o mesmo dos educadores medievais: medo da perda do controle.

Aí vem a reflexão: tablets e celulares estão aí e ninguém mais duvida que vieram pra ficar. A internet também está aí e em breve será tão onipresente que as próximas gerações não conseguirão mais imaginar como era a vida desconectada. 

A proibição desse equipamento em sala de aula é o último gemido de uma instituição que há tempos agoniza. Ainda mais quando esse proibição vem de escolas que se autonomeiam “humanizadas”, que educam “para a vida”.

Para a vida? 

Pois saibam que a vida real tem sido cruel com quem faz mal uso destes equipamentos. É alto o índice de jovens demitidos no primeiro emprego por uso inadequado do celular. Pré-adolescentes estão compartilhando fotos nuas e virando motivo de chacota que durarão anos. Há casos e casos de vingança através de sabotagens feitas com senhas compartilhadas e vídeos privados jogados na rede. O cyberbullying hoje é uma praga que aterroriza muita gente, só para citar alguns. 

E o que a escola faz para educar seus alunos a sobreviver com gentileza, alegria e competência na vida digital? Proíbe.

Fecha os olhos. Faz que não é com ela. Estudos mostram que os adultos são os últimos a saber o que acontece na rede adolescente. Nossos filhos preferem não nos contar, a perder o equipamento. Quem fica sabendo de perseguições, exposições, sacanagens e afins, são seus pares. Gente da mesma idade. 

Neste cenário, quer ambiente melhor para que as crianças e adolescentes reflitam sobre o uso consciente destes equipamentos do que a sala de aula? Alguns países do mundo, como a Espanha, tem desenvolvido programas educativos só para atender a esta nova demanda da civilização moderna. Organizam grupos de reflexão entre os jovens, assistem vídeos, treinam “cybermentores” (adolescentes mais experientes que participam dos grupos virtuais e estão atentos ao mau uso, sendo também capacitados para intervir ou pedir ajuda).

Isto é olhar de frente para o problema. É permitir que os jovens vivam o conflito e aprendam com ele.  Desenvolvam habilidades que lhes serão úteis para o resto da vida.

Que a situação pede controle no uso, é indiscutível. Mas esse controle precisa ser pensado caso a caso. E não por decreto ditatorial banindo o uso. 

A experiência de escolas que liberaram geral, mostra que cada professor acaba desenvolvendo sua própria relação com os equipamentos e os alunos. Alguns incorporam na rotina da sala. Outros proíbem. Alguns liberam em alguns momentos e pedem que guardem na mochila em outros. Alguns dão umas bruta aulas. Outros se perdem. Não há receita para o bolo. E tem vezes que o resultado é mesmo frustrante. O importante é termos consciência que vivemos no período de transição e que estamos todos juntos, no barco, aprendendo com se usa este novo remo. 

Ensinar a remar dá trabalho. Exige pessoas presentes, que prestem atenção nos alunos, que os chamem para uma conversa em caso de abuso. Que se posicionem com firmeza na hora de dizer não. Que estabeleçam metas e limites. Que celebrem conquistas. Que enxerguem os estudantes como seres humanos em formação e atuem verdadeiramente para formá-los. 

A escola precisa ser parceira dos pais na conquista desse novo universo que se abriu com as tecnologias. Proibir é nos deixar sozinhos diante do imenso desafio que é educar nossas crianças num mundo cibernético que mal compreendemos. 

É perder a noção. E, talvez, muito em breve, a função.