26.10.14

Sair do armário é libertador.





Sair do armário é libertador.


Assumir que você vai votar num candidato do PT não é fácil. A pressão contrária é imensa.

As pessoas na sala de jantar presumem que por você estar ali, comendo o que eles comem, vestindo o que eles vestem, bebendo do mesmo vinho, você também tem que pensar igualzinho. 

Qualquer questionamento gera desconforto e, muitos simpatizantes da estrela vermelha, pelo bem do encontro, preferem escutar a conversa em estado “Ohmmmmmm”, sem se manifestar. 

Confesso que essa tem sido eu em muitos pleitos e rodas sociais. Mas dessa vez, escancarei. Saí do armário, mostrei quem sou, liguei o foda-se. 

“Vou votar na Dilma!”

E o que aconteceu a seguir foi incrível.

Alguns amigos se afastaram. Tudo bem, não eram amigos.

Outros se aproximaram. Ueba, a fila andou e com gente bem mais interessante.

Alguns discordaram com todo respeito. Continuamos amigos e nossa amizade ganhou transparência e um carinho sincero.

Alguns me ofenderam. Esses devolvi pro Mark Zuckerberg sem direito a retorno. Ele saberá melhor do que eu o que fazer com eles.

Alguns surtaram, deram piti, se decepcionaram. A esses fortemente recomendo um psicólogo.

Uns poucos tentaram me reabilitar. E eu disse no, no, no.

E hoje, no dia derradeiro em que decidiremos o futuro da nossa amada e idolatrada nação, quero dizer que valeu muito a pena.

A vida fora do armário não é fácil, nem livre de questionamentos, mas é mais leve, corajosa, divertida e sempre aparecerá alguém pra te dar a mão e dizer “Tamujunto!”.

Agradeço aos meus amigos gays, às Gadus, Laertes e Willys dessa linda vida. Sempre que um de vocês assume, empoderam não apenas os homossexuais. O armário é imenso e tem gente de todo tipo. 

Agradeço também azamigas ativistas, que me ensinam todos os dias que é preciso descer do muro e tomar partido. Literalmente.

Hoje vou votar na Dilma e, ganhe quem ganhar, saio dessa campanha me sentindo vitoriosa. Escolhi meu lado, o defendi e vivi uma experiência incrível de cidadania e de conhecimento. Não apenas próprio, mas também do Brasil, da sociedade que vai muito além dos muros do meu condomínio e das pessoas que estão ao meu redor. 

O lado de fora do armário é bem maior que meu umbigo. E é desse lado que quero viver e criar meus filhos. 

Que todos nós tenhamos um domingo de paz!


Imagem tirada daqui

7.10.14

O diploma de datilografia





O diploma de datilografia.

Abriu uma pasta com documentos antigos e se deparou com um diploma meio amarelado, de papel encorpado e pequenas trincas nas bordas. No cabeçalho, em letras pomposas, estava escrito “Diploma de Datilografia”.

Pegou uma xícara de chá, sentou-se e deixou que viessem as recordações.

Estava na sexta série quando a mãe a matriculou no curso de datilografia da Dona Cidinha. Lembrou-se da sala cheia de máquinas Remington, das pilhas de papel jornal que eram aos poucos preenchidas com linhas infinitas de A [espaço] Ç [espaço] S [espaço] L [espaço] D [espaço], dos dedinhos magros que voltavam para casa doloridos e sujos de tinta.

Na família era regra que os filhos fizessem o curso de datilografia quando chegassem ao ginásio. Exigência dos pais para que eles se preparassem para o futuro. 

Ironia. 

O futuro virou presente, o mundo deu mais voltas que as bobinas de fitas preta e vermelha das máquinas de escrever e o curso tão importante para sua preparação tinha virado algo exótico, sem serventia alguma na era digital.

A tentativa ingênua e fracassada dos pais em controlar o amanhã a fez recordar-se deles com carinho. E a pensar em si mesma, como mãe. Tanto esforço, tempo e dinheiro investidos na “formação” dos filhos. E o tec tec das máquinas de escrever lhe gritando: “para quê?”

O futuro é imprevisível. Alucinantemente imprevisível. Deliciosamente imprevisível. Assim mesmo, vivia cada dia da maternidade tentando prevê-lo e controlá-lo. Matriculando os filhos em cursos disso e daquilo, escolhendo escolas assim e assado, querendo a formação mais completa, mais forte, mais competitiva, mais empreendedora…decisões baseadas no que era importante no presente. E não no futuro!

P[ ] A [ ] R [ ] A [ ] Q [ ] U [ ] Ê [ ] ? 
 P[ ] A [ ] R [ ] A [ ] Q [ ] U [ ] Ê [ ] ? 
P[ ] A [ ] R [ ] A [ ] Q [ ] U [ ] Ê [ ] ? 
 P[ ] A [ ] R [ ] A [ ] Q [ ] U [ ] Ê [ ] ? 
P[ ] A [ ] R [ ] A [ ] Q [ ] U [ ] Ê [ ] ? 

Fotografou o diploma e botou de papel de parede no celular como um lembrete de que, já que estamos remando rumo ao desconhecido, talvez seja melhor colocar menos coisa na bagagem. Assim, quem sabe, não chegaremos lá tão cansados.

Agradeceu aos pais a lição e à Dona Cidinha, que se a visse hoje digitando este texto com três dedos teria um surto.