30.5.14

A escola humanizada precisa existir.





A escola humanizada precisa existir.

Agora que a escola com tecnologia começa a existir, fica a pergunta:

Quando os prefeitos e governadores vão investir na escola humanizada?

Uma escola onde o respeito mútuo é a base das relações.

Onde os alunos se sintam acolhidos, valorizados e queridos. E os mais vulneráveis se sintam seguros.

Uma escola que defenda valores humanos, não apenas nos murais, mas no dia-a-dia, exemplificando na prática e na postura dos educadores, o que é ou não aceitável numa sociedade verdadeiramente humana e justa.

Quando teremos escolas com prédios felizes? Espaços alegres e aconchegantes, como devem ser os locais onde se promove o saber. Locais tão queridos que as comunidades se apropriam, sentem-se parte e zelam por eles. E não lugares sombrios, com aparência de delegacias cinzentas, cheias de grades e cadeados, de onde a única coisa que se quer é fugir.

Então, senhores governantes, quando virá a escola feita para promover o ser humano e não apenas o ser português, o ser matemática, o ser geografia?

A escola que sabe que conversar é parte do aprendizado e que uma sala de aula sempre quietinha é uma sala apática e submissa.

A escola aberta aos conflitos, pois eles fazem parte da vida e só se aprende a lidar com eles, vivendo-os na prática.

A escola que encara os problemas de frente e identifica-os como seus, sem procurar transmiti-los para fora dos muros ou para as famílias.

Que reconhece a sociedade onde está inserida e convive com ela, sem lavar as mãos diante dos desafios e sim, aceitando-os e atuando para transformá-los.

A escola que só faz regras justas e necessárias, sem proibições autoritárias cujo único objetivo é controlar e não educar.

Quando teremos uma escola que vê os alunos como educandos, e não como problemas?

Que ensina a resolução não violenta dos conflitos. E, assim, promove a cultura da paz.

Que ensina a conviver com a diferença. 

A escutar.

A debater.

A olhar para o outro.

A praticar a cidadania.

A escola que se importa e, por se importar, promove a verdadeira transformação na vida das pessoas e na nossa sociedade.

E aí, prefeitos e governadores…quando?



28.5.14

A escola interativa começa a existir



A escola interativa começa a existir.

Uma das mais ousadas experiências em educação pública está pra acontecer em São José dos Campos. A cidade, polo aeroespacial, agora também vai levar tecnologia para todas as escolas municipais. É o projeto Escola Interativa, que já começou dando um notebook para todos os professores e instalando projetores interativos e banda larga de 30 mega, nas 600 salas de aula do ensino fundamental. Agora, a partir do segundo semestre, o projeto se amplia com a doação de um tablet por aluno do 6º ao 9º ano e, a partir do ano que vem, do 1º ao 5º.

O que mais me chamou a atenção neste projeto é que, apesar de sua grandiosidade, ele foi concebido para ser apenas mais uma ferramenta para o professor, que ocupa lugar central no plano. O sistema lhe dá total autonomia de uso, permitindo que ele escolha como usar as ferramentas e quando. Também permite a gestão total dos tablets dos alunos. Por exemplo, ele pode bloqueá-los quando quer a galerinha focada em algo específico, liberar apenas alguns, liberar todos, montar grupos na sala com atividades diversificadas. Pode também monitorar o que os alunos estão trabalhando em suas telinhas, projetando-as na lousa inteligente e compartilhando diferentes modos de resolução e achados individuais.

Não há conteúdo ou software obrigatório e o professor tem autonomia para montar sua aula. Soube de uma professora de geografia que, a partir do vídeo “Stand by Me”, tocado por músicos de rua em diferentes partes do mundo, levou os alunos a um tour virtual por todas as cidades que aparecem no clipe, através do Google Earth, observando localização, topografia, modelos dos carros, estilo de casas, etnia, arquitetura, etc., ampliando os horizontes dos alunos para muito além do livro didático e das paredes da sala.

Seria ingênuo achar que o uso da tecnologia é a solução dos problemas do ensino público e privado. Não é e está longe de ser. Mas, é inegável que inserir de forma planejada uma ferramenta que hoje é presente em todo o planeta - menos nas escolas - aproximará mais as salas de aula da realidade dos alunos. Prender a atenção de uma turminha que nasceu megabitizada tem sido cada vez mais difícil. Culpam-se todos, os pais que não educam, o excesso de açúcar, o celular, mas o fato é que aumenta a cada dia a distância entre o que se aprende na escola com o que se vê no mundo e, ingênuo, é querer que a meninada fique 5 horas olhando para uma lousa verde, pelo simples “amor ao estudo”.

São José está dando um primeiro passo. Não será um passo fácil. A proposta exige o engajamento e a conscientização das famílias, não só para os cuidados com o equipamento, mas também para o monitoramento do uso dos tablets em casa. Para isso, a prefeitura montou um ônibus equipado com uma réplica da sala de aula multimeio, que visitará as comunidades apresentando o projeto aos pais. Há também bloqueio de pornografia e um app que permite aos pais gerenciar o equipamento.

Mas o pulo do gato será capacitar o professor. Novas ferramentas exigem novas práticas. Por exemplo, um professor acostumado em encher o quadro com textos para os alunos copiarem, se continuar fazendo o mesmo, vai continuar tendo alunos irriquietos, distraídos e provavelmente indisciplinados. E não há tecnologia do mundo que resolva. Mesmo porque, o sistema salva as aulas e compartilha com os tablets, portanto se a cópia já não fazia sentido na época da caneta e do caderno, imagina agora.

Acredito que leve um tempo para que o professor se familiarize com o equipamento, mas acho que as respostas por parte deles serão rápidas. O saber do professor é imenso e esse saber está sendo não apenas respeitado, mas valorizado. Ter disponível em sala ferramentas que permitam que ele enriqueça sua prática com os recursos do mundo digital, lhe abrirá um universo de novas oportunidades. E, o mais curioso, é que os estudantes terão um conhecimento a mais que os mestres. Eles já vem de casa capacitados para usar o equipamento e saberão, sem dúvida alguma, operá-lo com mais facilidade que os adultos. Portanto, o professor que for aberto para a colaboração dos alunos, terá mais um fator de aproximação a seu favor, colocando todos como mestres e aprendizes, numa linha horizontal de troca de saberes.

Há dois pontos que incomodam. As escolas estaduais não fazem parte do programa, criando na cidade os “com” e “sem tecnologia”. Pergunto também o que será desses meninos e meninas ao terminar o fundamental neste novo universo e ingressar no ensino médio "quadro negro e giz" das escolas públicas e de muitas particulares. Será um “de volta pro passado” caótico e cruel.

Mas tirando a eterna falta de sincronia entre governos estaduais e municipais, estou empolgada e quero acompanhar de perto o que vai acontecer. Se vai dar certo? Não sabemos, mas como disse nosso vizinho, Presidente Mujica, como evoluir sem experimentar? São José dos Campos está liderando uma experiência inovadora em educação, principalmente, por acreditar na autonomia e na capacidade dos educadores e dos alunos. Também por usar dinheiro público para a construção de  saber.

Só isso já é algo lindo.


Grafite de Jakub Halun



12.5.14

Músico de rua.




Músico de rua.


É do tipo de mãe que procura apoiar o filho em todas as suas iniciativas. 

Aos cinco ou seis anos, o menino inventou de tocar um instrumento na rua, como os músicos que via nas idas ao centro da cidade. E levaria seu chapéu de mágico para colher as moedas que por acaso alguém lhe desse. 

A mãe comprou a ideia na hora. Achava positivo ele viver essa experiência. Foram até a praça central e escolheram um cantinho movimentado para o garoto tocar. Puseram o chapéu para os trocados e combinaram da mãe ficar meio afastada, num ponto onde ele pudesse vê-la. 

O menino começou a tocar sua concertina e logo chamou a atenção dos transeuntes. Uns achavam fofo aquele menino tão pequeno e tão concentrado em tocar seu instrumento. Outros sorrindo lhe davam moedas ou guloseimas. Alguns paravam pra ouvir. 

Ficaram ali uma meia hora. O menino encarnado no papel de músico e a mãe orgulhosa espiando de longe.

Até que um guarda se aproximou e perguntou se ela era a mãe do menino. Custou para ela entender a pergunta. Moravam há alguns meses nesse novo país e ela ainda não dominava a língua.

Quando finalmente entendeu e respondeu que sim, o policial pediu que ela o acompanhasse até a delegacia. Explorar menor é um crime que eles levavam muito à sério, ainda mais se feito por estrangeiros. Esse povo imigra pra cá e acha que pode fazer o que quer.

Ela sorriu e tentou explicar que era casada com um local e que o menino estava apenas brincando. Um jogo simbólico…Symbolic game, undestand? No exploration!

Mas diante do chapéu com algumas moedas, não houve argumento que o convencesse. Levou mãe e filho pra delegacia, onde ninguém conseguia entendê-la. Teve que ligar para o marido e pedir socorro. Óbvio que o esposo quase teve uma síncope. Onde já se viu levar o filho pra tocar na praça…isso lá é brincadeira? Viver uma experiência?! Eu que estou vivendo a experiência de sair do trabalho no meio do dia pra tirar minha mulher da cadeia!

Saiu de lá fichada. Com todos lhe apontando os dedos e lhe dando pitos. Para o delegado, outra dessa e seria deportada. Para o marido, a esposa era mais louca do que jamais supôs. Para o guarda, mais uma prova de que o país deveria fechar as fronteiras.

Só o menino saiu sorridente. Tinha vivido sua mais completa aventura. Músico de rua e fora da lei, todos no mesmo dia. Sua mãe era o máximo!