15.4.14

Bafômetro




Bafômetro


Mães se encontram para uma tarde de amizade e filhos.

“Menina, te contei que fui parada na blitz do bafômetro?”

“Não! E aí?”

“E aí que eu estava voltando de um jantar e tinha tomado umas cervejinhas.”

“Jura?! E você foi pega?”

“Vai escutando…eu disse pro guarda que tinha visto um documentário sobre o assunto e que não era obrigada a produzir prova contra mim mesma.”

“E ele?”

“Ele riu e disse que ia ter que me levar. Não sei pra onde, mas ia me levar. Daí ele me perguntou, bem na boa, se eu tinha bebido.”

“E você contou?”

“Ah, contei que tinha bebido uma ou duas cervejinhas e que não ia fazer o teste nem morta. Ele foi bem solidário, sabia? Disse pra eu relaxar e soprar que podia dar bem baixo e isso não era tão grave. Eu pedi um tempo para pensar. Encostei o carro e fiquei ali parada sem saber o que fazer. Rezei pra tudo que é santo. Até que passou um tempo e ele voltou dizendo que não dava mais pra esperar. Ou eu soprava ou ele me levava."

“O que você fez?"

“Resolvi soprar. Lembrei do Pilates e soltei todo o ar que tinha no pulmão. Depois puxei um ar purinho, sem tragar, soprei e deu zero!”

“Zero?! E o guarda acreditou?”

“Ele festejou comigo e saiu contando pra todo o pelotão. Daí um policial lá do outro lado berrou que com a minha massa corporal só podia dar zero. Pode?! Não basta bêbada, também me chamam de gorda!”

A outra quase chora de rir. 

“Você veio de carro?”

“Não. Viemos a pé. Por quê?"

“Então, vamos tomar uma cerveja e você aproveita e me ensina essa técnica de puxar um purinho sem tragar. Vai que me param um dia.”



11.4.14

TDAM - Transtorno de Déficit de Atenção de Mãe


TDAM - Transtorno de Déficit de Atenção de Mãe

O menino sempre foi muito esperto e inteligente. Mas não tinha uma relação tranquila com a escola. Apesar de mais velho da turma, foi um dos últimos a ser alfabetizado. Era distraído, irrequieto, ao mesmo tempo participativo, do tipo que sempre se destaca na classe, mas quando chegavam as notas, estava sempre na média, ou abaixo dela.

Em casa, só parava quieto pra jogar videogame. A tarefa era um transtorno. Levava horas para fazer um exercício facilmente solucionável em 15 minutos. E sempre a pulso. 

Os pais e a escola conversaram algumas vezes. A conversa sempre muito boa. O menino é mesmo desatento, nada fora do normal, mas é preciso sempre “buscá-lo”. Traçaram combinados de ações conjuntas. E tudo caminhou relativamente bem, respeitando-se o ritmo e o jeito do menino, até que veio o famigerado quarto ano.

A escola construtivista não aplicava provas até o terceiro ano. Esse processo de avaliação iniciava-se apenas no quarto. Foi quando as notas começaram a despencar. E o clima em casa pesou mais ainda na hora da tarefa. 

A mãe insistia para que ele estudasse mais. Ele esperneava, jogava livros longe, fazia birra, chorava, gritava. A mãe tentava se manter tranquila, mas de vez em quando explodia. O pai intervinha. Deixa comigo, eu estudo com ele. Mas no final, vinha mais um bilhete avisando que o menino estava de recuperação.

O padrão se repetia. Escândalos em casa, má vontade, provas mal resolvidas, conversas com a professora, indicação para ele ler mais e outra recuperação.

Até que um dia, a mãe sentou-se com as provas na mão e começou a analisá-las. Algo lhe chamou a atenção. Em todas elas, respostas “viajandonas”. Criativas, mas nada a ver com o que estava sendo pedido.

Percebeu que ele interpretava textos sem lê-los, respondia sem prestar atenção na pergunta, pulava introduções e cabeçalhos.

Teve um clique. O menino sabe a matéria. Ele não sabe é fazer prova!

A partir daí, mudou sua postura nas tarefas. Deixou de querer que ele aprendesse a matéria, isso era com a professora. Começou a ensiná-lo como se faz prova: leia o texto antes de responder. Preste atenção na pergunta. Só responda depois de entender o que está sendo pedido. Releia o que escreveu. Não, não é para escrever sua opinião. É para responder o que está no texto...sim, eu sei que você sabe a resposta. Mas é para dar a resposta do texto e não a sua. 

No começo foi um sofrimento! O menino se enfureceu ainda mais. Berrava que não precisava ler os textos porque a professora explicava em sala. Ficava bravo a cada resposta apagada que precisava ser refeita. Mais ainda quando a mãe se recusava a ajudá-lo e o fazia procurar no livro, dessa forma, obrigando-o a ler.

A mãe entendeu que a fúria aumentou porque finalmente eles tinham acertado a abordagem. O menino estava confortável na estratégia que o tinha levado até ali. Não queria mudá-la. Lutava para ninguém mexer no seu queijo.

Mantiveram-se firmes e aos poucos, bem aos poucos, ele foi entendendo e se acalmando. “Essa resposta eu posso falar o que eu acho, né mãe? Está perguntando a minha opinião. Ai, que saco, tem que justificar também?!"

E foi depois de muita resposta apagada, muito texto relido, que o menino chega excitado da escola. “Tirei a nota mais alta da classe em português!!!! Eu sou o cara!!!”

A mãe quase não acredita. Mais do que feliz pela nota, ficou feliz pelo efeito na auto-estima do menino. Ele estava radiante. Foi só então que percebeu como ele se ressentia dos maus resultados anteriores.

Abraçou-o e comemoraram o resultado de tanto esforço. Enquanto o menino corria para mostrar a prova ao pai, a mãe pensou que bastou prestar atenção de verdade nele para entender melhor o problema. Seu filho não era desatento. Desatentos tinham sido os adultos responsáveis pela educação dele. 

Sabia que a luta não estava ganha. Mas pelo menos agora sabiam que rumo tomar.