21.11.13

O lanche no lixo




O lanche no lixo

O menino começou a devolver a merenda sem comê-la. A mãe estranhou. Normalmente ele era morto de fome, mas o lanche, preparado com tanto carinho, estava voltando intacto.

As desculpas habituais "eu tava sem fome", "quis jogar bola no recreio" não colaram. Uma observação atenta e ela percebeu que o adolescente estava com vergonha de levar lanche de casa. Abrir a mochila e enfrentar o olhar da galera diante de um sanduba no pão integral ou de uma fruta, para ele era a morte. Queria comer os salgados da cantina, como os demais colegas. 

A mãe, do tipo natureba econômica, argumentou que o lanche que ela fazia era muito mais saudável que o da cantina e, além disso, ela e o marido suavam para pagar a escola particular. Lanche da cantinha era um luxo para os dias em que o despertador falhava e não dava tempo de preparar nada.

Um empaca daqui, o outro dali e, passados seis meses de lanches devolvidos, a mãe desiste. 

"Olha, não vou mais fazer lanche pra você. Os ingredientes estão aqui. Se quiser merenda, prepare você mesmo. Mas não gasto mais tempo e dinheiro pra acabar tudo no lixo." 

O menino deu de ombros e, para agonia da mãe, cursou o restante do ano sem levar merenda. 

No ano seguinte, o garoto entrou para o ensino médio. Saiu da escola particular e foi para a pública. 

Depois de alguns meses, ele chega com a novidade. 

"Mãe, começaram a dar lanche seco de graça na escola." 

"Que legal! E o que é lanche seco?" 

"Bolinho pronto, bolacha recheada, suco de caixinha. Mãe...é ruim demais! Não consigo comer. Será que você me faz um daqueles seus lanches naturais?" 

A mãe abraçou o menino e só faltou soltar rojão. 

No dia seguinte, acordou cedo e preparou um sanduíche com todo carinho. Pão integral, patê de frango desfiado com coalhada seca, azeite, cenoura ralada, uma folha de alface, pimenta do reino e voilá! 

Entregou o lanche ao menino e torceu para reação dos amigos da nova escola não ser negativa. Temia que, se fosse zoado, a vergonha voltasse a dominá-lo. Agora com o agravante dele ter acesso gratuito ao universo de porcarias industrializadas e recheadas que a família sempre evitou. 

Aguardou ansiosa a volta do filho e a primeira coisa que perguntou foi se ele tinha gostado do lanche.

"Tava uma delícia. Mas você não vai acreditar…uma amiga me pediu uma mordida, depois outra e roubaram meu lanche! Saíram andando com ele na cara dura! Falaram pra amanhã eu levar seu lanche pra galera toda." 

A mãe deu risada. Graças à garotada mundo real da escola pública, o lanche caseiro estava de volta à cena. 
E em grande estilo. 



Foto retirada do My Recipe Magic. 

11.11.13

A namorada da filha do Sílvio.




A namorada da filha do Sílvio.

O garoto se aproxima da mãe com cara de aflito.

"Mãe, segunda-feira vai ter balada teen no Puxadinho. O Thiago me convidou. Eu posso?"

Pela expressão do garoto, a mãe percebe que ele queria muito ir e temia mais ainda que os pais não permitissem.

"Balada teeen numa segunda-feira?"

"Estamos nas férias, lembra? Deixa mãe, todos os meus amigos vão. E eu nem vou ter que pagar os 25 reais da entrada porque o bar é da namorada da tia do Thiago. Ela coloca nosso nome na lista."

O menino continua explicando. Não ia ter álcool, maior de 18 anos não entra etc, etc, etc. Mas a mãe, a partir daí, só vê os lábios dele se movendo e não presta atenção em mais nada. Estava focada na descoberta da namorada, com A no final, da filha do Sílvio, amigo da família e avô do Thiago.

Antes que transparecesse o que ia na mente, trata de encerrar o assunto com a resposta padrão para todas as situações saia justa da maternidade compartilhada: "Vou falar com seu pai."

Demora pouco para se dar conta do que havia acontecido. E acha graça de de si mesma. Se considerava toda aberta para a pluralidade da vida e do amor. Tinha ajudado a apedrejar Feliciano. Mas quem era verdadeiramente desligado dessas questões era o filho e não ela. Aos 14 anos, o garoto demonstrou absoluta naturalidade diante das opções da tia do amigo. A única preocupação dele era se ia ou não à balada. Naquela hora, sente vontade de ser igual ao menino.

Mais tarde, ela conversa com o marido.

"Vai ter uma balada teen, segunda-feira, no Puxadinho e nosso filho quer ir. Foi o Thiago quem convidou. O bar é da namorada da tia dele e ela coloca os nomes dos dois na lista. Acho que podíamos deixar. O esquema parece tranquilo, não servem ácoo..."

O marido a interrompe.

"O quê? A filha do Sílvio é sapata?!"

A mãe dá um sorriso e desiste de ir adiante com o assunto. Sabia por experiência própria que, a partir dali, não seria mais ouvida. Se afasta devagarinho para avisar o filho que ele iria à balada.

Enquanto caminha pela sala, escuta o marido murmurando do sofá:

"A filha do Sílvio?! Não acredito!"


6.11.13

"Filho, se vira."





"Filho, se vira." 



O menino sai da escola bravo e muito agitado. 

"Mãe, me tira dessa escola! Me tira dessa escola, já!" 

"Nossa! O que aconteceu?!" 

"Eu não aguento mais uns meninos da minha classe. O Fulano e o Beltrano ficam me zoando! Mãe, me põe noutra escola, hoje!" 

O mãe fechou os olhos por alguns segundos. Sempre havia sido muito solidária com as queixas do menino, conhecia seus problemas de relacionamento, mas dessa vez não sabia como reagir. Respirou fundo, seguiu sua intuição e a fala veio como se estivesse tomada por outro ser. 

"Filho, senta aqui e preste muita atenção no que vou dizer. Eu e seu pai já fizemos tudo o que podíamos pra te ajudar com os amigos da escola. Já conversamos com professora, com coordenadora, te trocamos de escola o ano passado, tornamos a falar com professoras e coordenadoras dessa nova escola, juntamos a turma pra um cinema, convidamos amigos pra brincar em casa. Você está lembrado disso tudo?" 

O menino cruza os braços emburrado. 

"Tô." 

"Então, nossa parte, eu e seu pai cumprimos. Agora, filho, está na hora de você cumprir a sua. Se vira, porque você não vai mudar de escola. Se esforce para se enturmar. Você é um menino querido e esperto. Tenho certeza que logo vai estar cheio de amigos. Agora é com você." 

O menino olhou com estranheza para a mãe. Depois abaixou a cabeça e seguiu pensativo o resto do caminho até a casa. 

A mãe respeitou o silêncio. A bola estava com ele, isso tinha ficado claro e, naquele momento, qualquer outra palavra viraria sermão. 

No peito um fiozinho de angústia quis se formar, mas a leoa, aquela que rosna para que a cria se afaste e aprenda a caçar, rugiu alto e o fiozinho se desfez.