5.9.13

Meu filho, seu aluno. Seu filho, meu aluno.




Meu filho, seu aluno. Seu filho, meu aluno.

Minha irmã, educadora que atua na formação de professores, me conta que sua filhota, de 5 anos, lhe pediu que arrumasse emprego na escola onde ela estuda. Ela repete a justificativa da menina:

"Assim, você vai ser minha professora. E eu vou ser sua aluna querida. Vou ser sua ajudante, vou pegar coisas pra você no armário, vou tirar xerox, apagar a lousa, sentar no seu colinho na hora da roda, passear no recreio de mãos dadas com você...nós vamos poder ficar juntinhas o tempo todo!"

O lado educadora da minha mana explica: "Identifiquei nessa fala dela algo muito significativo...ela começa a perceber que há um espaço onde ela deixa de ser filha e passa a ser aluna. Olha que legal!"

"Legal? Eu achei que ela estava era com saudade de você", comentei.

Minha irmã sorri: "Numa análise superficial parece isso mesmo. Mas na verdade ela está é relutante em perder o status de filha. Filhos ocupam uma posição privilegiada em nossas vidas. São o centro de nossas atenções e por mais que aprontem, jamais deixarão de ser nossos filhos. Já na escola, eles ocupam um lugar igual a todos os demais. O bom e velho 'mais um na multidão'. Lá eles precisam se esforçar para manter as relações."

Eu brinco: "Que interessante! Vai ver é por isso que em casa eles se comportam de um jeito e na escola de outro, completamente diferente!"

"Sim! Porque são socializações diferentes. Em casa eles podem bater, fazer birra, invadir espaços que não são deles, aprontar o que for. A relação pais e filho está garantida. Chamamos essa socialização de primária. Já na escola, a coisa muda de figura. Eles começam a entender que o comportamento deles interfere na relação com o outro. E que as relações não são perenes, como no lar. É a socialização secundária. Uma não substitui a outra. Pelo contrário, elas se complementam e são fundamentais para o desenvolvimento do futuro adulto."

"Nossa! Mas tem muita mãe relutante em deixar seus filhos virarem alunos, não?", digo.

Ela dá risada. "Até eu! Soltar nossos bichinhos é difícil. Vê-los magoados porque o melhor amigo não os quer mais, porque não serão as noivas da quadrilha ou porque não foram os primeiros a serem escolhidos para o time. São coisas que jamais deixaríamos acontecer na nossa jurisdição!"

Eu complemento: "Temos ganas de ir à escola e dizer uma verdades...'Como assim? Meu bebê é só mais um nessa instituição?! Você está querendo me dizer que essa criatura especial, ultradotada e eleita pelos Deuses para ser minha, é igual aos demais?!'"

Interrompemos para dar risada.

Minha irmã brinca: "Acho que as escolas deveriam promover a socialização secundária das mães, que tal? Matricule seu filho e participe do curso que a ensinará a deixar seu filho virar aluno, sem lágrimas ou sofrimento."

"Pois é...ia facilitar muito a vida da escola. E a nossa também. Já pensou? 'Opa esse problema é do seu aluno. Resolvam aí porque eu sou só mãe e se já está difícil dar conta do meu filho, que dirá do seu aluno'", concluo.

"'Meu filho, seu aluno. Seu filho, meu aluno.' É bom isso, hein? Vou usar esse mantra com meu grupo de professores."

"Tudo bem, eu cobro baratinho".

"E eu pego sem pedir. Sou sua irmã e nossa socialização é primária. Fica esperta."




*Cena da escola do filme "Procurando Nemo", da Disney-Pixar.