28.8.13

Mercado Negro




Mercado Negro


O menino, de dez anos, sai da escola excitado.

"Mãe, hoje vendi quatro cartelas de chiclete pros meus amigos! Comprei por um real na padoca e vendi por dois reais. Lucrei quatro reais, mãe!"

"Ué, mas não tem uma regra que não pode vender coisas na sua escola?"

"Mercado negro, mãe. Mercado negro!"

Sem saber como reagir, a mãe decide dar corda para entender melhor a situação.

"E ninguém dedurou você?"

"Só vendo pros bico fechados. Os X9 da sala estão fora do negócio! Sabe a Fulana e o Sicrano, aqueles que contam tudo pra professora?..."

"Sei..."

"...então, combinamos de ninguém deixar eles saberem."

"Caraca! To impressionada com essa história! Então, deu tudo certo?"

"Deu...só tive problema com a Beltrana."

A mãe logo pensa que filha de peixe, peixinho é. A mãe da menina, sua amiga, é uma grande ativista anticonsumismo infantil, batalhadora da alimentação saudável na cantina, defensora da ética e abominava a venda de doces na escola.

"Com a Beltrana! É mesmo? Aposto que ela tentou te convencer a parar com as vendas, né?"

"Não, mãe! Ela ameaçou me caguetar se eu não desse quatro chicletes de graça para ela."

"Jura?! Você está falando sério?! E o que você fez?"

"Dei o que ela pediu! Quatro chicletes de graça. E ela jurou que além de guardar segredo, vai me ajudar a vender entre as meninas."

A mãe não sabia se gargalhava ou chorava. Por hora, achou melhor aumentar o volume do rádio. À tarde ligaria pra amiga. Ou isso será que isso é coisa de X9?

Já não sabia mais nada.



26.8.13

O pote do palavrão.




O pote do palavrão. 


A situação na casa estava preocupante. A criançada falava palavrão o tempo todo. E não havia pito ou conversa que desse jeito naquela tropinha boca suja. 

Preocupada com o rumo das coisas, a mãe propôs um jogo. 

Toda vez que alguém falasse um palavrão, seu nome seria anotado num papelzinho e depositado num pote estrategicamente colocado sobre a estante, ao alcance de todos. 

Ao final de sete dias, os nomes seriam contados. E os participantes teriam que pagar um real para cada vez que seu nome fosse para o pote. Resumindo: haveria uma multa de um real por nome feio falado naquela semana.

As crianças adoraram a proposta, mas questionaram para quem iria o dinheiro. Houve um debate e ficou combinado que a grana seria gasta em um passeio em família, a ser escolhido por quem menos pontuou, ou seja, o mais boca limpa da casa. 

Foi uma semana engraçada. Em meio às atividades, de repente, alguém dizia: "Opa! Falou palavrão!" E corria anotar o nome do infrator no papelzinho. 

O infrator berrava de longe: "Não vale! Eu disse 'é soda'! Soda não é palavrão, cacete! Opa, eu não falei 'cacete'. Eu disse tapete!"

Ao término de uma semana, a família se reuniu para fazer a abertura do pote. Dividiram-se as funções. Um cantava os nomes em voz alta, outro anotava os pontos. 

Contagem encerrada, o responsável pela cobrança deu o resultado: cada criança deveria pagar entre dois e oito reais. Já papai e mamãe, juntos, deviam mais de 70 reais. 

Ao abrir a carteira, a mãe quis xingar, mas conteve-se. 

Aparentemente, o objetivo do jogo havia sido atingido. 



*Imagem do filme: "A Christmas Story".




3.8.13

O papa no inferno e uma mãe no paraíso.




O papa no inferno e uma mãe no paraíso.


Aos pais que pediram a censura da Divina Comédia,

Quando a professora dos nossos filhos solicitou a leitura da Divina Comédia, do Dante Alighieri, festejei. Não sei se pelo livro em si, um clássico, escrito por um dos maiores autores da humanidade, ou pelo fato de nossos filhos estudarem numa instituição pública e a professora não subestimá-los, indicando um livro que, definitivamente, é para os fortes. 

Como muita coisa na vida, minha excitação não contagiou meu filho. O fato do livro ter sido escrito há mais de 700 anos foi motivo para desmotivá-lo. Sem nem virar a capa, achou-o velho e chato. E congelou nisso.

Tentei de todas as formas encorajá-lo, mas tudo o que eu dizia parecia dar a ele ainda mais argumentos para rejeitar a leitura. 

Na semana passada, como um milagre, tudo mudou. Meu filho voltou para casa empolgadíssimo, contando que vocês se reuniram com a professora para exigir que ela mudasse o livro. Alegaram que a obra é inadequada, pois Dante ofende a Igreja. "Mãe, me falaram que o cara coloca o Papa no inferno!".

Podia aproveitar esse meu espacinho para argumentar que o livro foi escrito há mais de 700 anos e de lá pra cá muita água benta rolou; que é um dos maiores clássicos da humanidade; que cai no vestibular; que o Index Católico não funciona mais; que agradeço a preocupação, mas cada um que cuide da própria perdição; e etc. Podia desfiar o rosário, porém, com certeza, vocês ouviram muitos desses argumentos da própria professora, que manteve-se firme e não mudou o livro. Abençoada essa mulher! 

O objetivo deste texto é outro. Escrevo para agradecê-los. Vocês conseguiram o que nem eu, nem a professora conseguimos! Agora meu filho está superdeterminado a ler a obra prima do Dante! E faz questão que seja no texto original, para não perder nem um detalhe. 

Vocês são mesmo danados, hein! 

Do fundo do meu coração, obrigada!