10.4.13

Professor ruim para o filho dos outros é refresco.



Professor ruim para o filho dos outros é refresco.

Irene era empregada doméstica até a patroa se mudar da cidade. Decidiu que não queria mais trabalhar em casa de família e arrumou emprego de vendedora numa loja de enxovais. Sentiu seu status subir, mas levou apenas um mês para perceber que ganhava muito mais com a antiga patroa que, bem antes da lei das domésticas, já lhe pagava FGTS, plano de saúde e horas extras.

Resolveu mudar de vida, fazer um curso, buscar uma nova profissão. O problema é que é analfabeta funcional. Lê o suficiente para "se virar" e escreve muito mal. Acabou optando por pedagogia à distância cursado no PC dos filhos que, volta e meia, precisam ajudá-la a se encontrar em meio à confusão de arquivos e extensões em doc e pdf. 

Marta trabalha num mercadinho de bairro. Supersimpática, está sempre sorrindo. É daquelas que conhece todo mundo e sempre que me vê pergunta: "como está os menino?" Na última vez que a encontrei, ela me confidenciou que está na luta. Prestou vestibular pra pedagogia numa faculdade particular e passou "fácil" nas palavras dela mesma. Conseguiu também um desconto de 50% na mensalidade: "Essa faculdade é boa. Eles faz de tudo pra ajudar nóis a estudar."

Neusa é mãe de 2 filhos. Vende Natura e Avon. Dona de casa, decidiu que agora que os "filhos estão grandes" tem que fazer "alguma coisa da vida". Sem saber direito que rumo tomar, também está cursando pedagogia no modo semi-presencial.

Vejo com uma grande preocupação este movimento da nossa sociedade. Professor está virando matéria rara. Depois de décadas de desvalorização, está difícil encontrar quem queira desempenhar tal função. Diante do caos, o Brasil literalmente "abriu as pernas" e hoje qualquer um que queira um emprego pouco remunerado, mas estável e que requer um mínimo de formação, pode assumir a imensa responsabilidade que é lecionar. Ironicamente, exigimos mais de quem ergue pontes, prescreve dietas e administra empresas do que de quem forma seres humanos.

Em todo país com um bom sistema educacional, a tão citada Finlâdia, por exemplo, os professores são a elite. São escolhidos a dedo entre os 10% ou 15% melhores alunos das universidades. Depois disso atravessam um processo de formação que será contínuo. Isto é, eles estudarão e terão acompanhamento de resultados durante toda a vida profissional. Para isso, ganham bem, tem benefícios e são muito cobrados. A lógica é simples: para educar melhor precisa-se dos melhores educadores.

O cargo atrai uma parcela da população que, aqui no Brasil, jamais cogitaria assumir uma sala de aula. 

Sei que vou ser acusada preconceito, mas peço aos leitores que antes de saírem anonimamente distribuindo valentes esculachos virtuais, respondam com sinceridade como se sentiriam ao saber que a educação de seus filhos está nas mãos de uma analfabeta funcional. Ou de uma dona de casa entediada. Ou da supersimpática garota dos pacotes que fala "nóis vai". Tanto não aceitamos que pagamos escola particular. E ai da coordenação se recebermos um bilhete com erro ou se a professora cometer um deslize de concordância na reunião de pais. 

Recentemente, uma dirigente de uma instituição de ensino de classe média alta me confidenciou: "Está cada vez mais difícil contratar professor. Em nossa escola aplicamos um teste básico e muitos cometem erros inaceitáveis. São incapazes de calcular, interpretar, escrever com coerência e desconhecem regras básicas da língua. Não conseguiriam sequer redigir um bilhete. Se uma pessoa assim assumir uma sala de aula, os pais mudam na hora os filhos de escola. Não temos como empregá-los." 

Quem acabará absorvendo essa mão de obra serão as escolinhas de bairro, as creches, as particulares baratas ou o Estado. Isto é, eles vão educar os filhos dos mais pobres.

É legítimo o direito de querer crescer na vida, buscar novas oportunidades, mas quando essa oportunidade é uma sala de aula com dezenas de crianças que sairão tão ou mais mal formadas que seu professor, estamos condenando muitos brasileiros a permanecerem eternamente no fundo do poço educacional. Estamos perpetuando a desigualdade, a ignorância e a falta de qualificação que lhes fechará muitas portas. 

Se queremos realmente garantir às Irenes, às Martas e a todas as crianças uma sociedade mais justa, onde possam seguir suas verdadeiras vocações e não agarrarem-se apenas ao que lhes é possível, o primeiro passo é assegurar-lhes uma educação básica de qualidade. E isso só acontece com professor bem qualificado e valorizado em sala. Qualquer coisa além disso é tapar buraco. E tapar buraco com a educação do filho dos outros, realmente é refresco.



Não consegui localizar o autor do grafite que simboliza tão bem o apartheid educacional que vivemos. 





25 comentários:

Carla disse...

Sim, sim, sim. E a nova lei que obrigará os pais a matricular na escola os filhos com 4 anos ainda garante o incentivo para a formação de professores em licenciatura. O que será que vem por aí? #MEDO!

Francine B. disse...

Venho dizendo isso a muito tempo. Sinceramente sou super contra essas faculdades à distância. Uma pós, um mestrado ou qualquer outra especialização é uma coisa outra coisa é querer comparar uma faculdade presencial de cinco anos com essas faculdades a distância que mal tem vestibulares, os encontros são super escassos e vc ainda se forma em menos da metade do tempo. Posso estar generalizando, mas acho que não funciona mesmo.

Claudia Halley disse...

Achei seu texto meio preconceituoso ao descrever as mulheres dando a entender que elas não seriam boas professoras....

Josiane Caetano disse...

Sou professora e, infelizmente, vcs está certa: ninguém dá a mínima pra quem vai educar os filhos dos que não podem pagar escola particular. E mesmo quando o professor é qualificado, não é de muita utilidade, pois ele precisa obedecer e seguir políticas educacionais que vêem os alunos como descartáveis e apenas como um mal necessário que precisa ser atendido pelo poder público. É deprimente mesmo e a tendência é que o quadro do magistério ainda seja menor no futuro. Vai ver, esta seja a verdadeira intenção: gerar adultos votantes ignorantes.

karol disse...

Infelizmente é tudo verdade!

Dani Rabelo disse...

Nossa, é dolorido, né???
Do meu filho, não, mas do filho do vizinho, tudo bem...
Não é tudo bem. Para ser professor há que ter dom (como grande parte das profissões hoje em dia), tem que ter paciência, tem que ser boa gente, mas, acima de tudo, tem que saber ler e escrever, saber pensar, responder, questionar.

Infelizmente, vc está certa. E eu te admiro pela coragem de expor seu raciocínio (nosso) assim.

Marcela disse...

Você está coberta de razão. Concordo integralmente com seu texto.

Flavia disse...

Só um detalhe: Ingressar num curso de Pedagogia é direito de quem se interesse. A questão é conseguir a graduação. E depois, conseguir uma colocação no mercado. Nada impede que durante a graduação, mesmo que demore mais tempo, as deficiências sejam superadas. Isso vai depender da qualidade da instituição que oferece o curso e da dedicação de quem está cursando. Afinal, analfabetos nascemos todos. Outro ponto: Quem é consciente não matriculará a criança em uma escola que não tenha competência para selecionar os professores, não é mesmo?

ana isabel disse...

OI Tais

Em primeiro lugar quero dizer que sempre admirei os seus textos, sou sua seguidora há algum tempo.

Mas neste texto acho que voce foi um pouco longe e me pareceu preconceituoso, especialmente com as pessoas pobres e os funcionário (professores) públicos. Conheço muitas pessoas de origem humilde que cursaram a faculdade e se tornaram excelentes profissionais. A filha da minha faxineira está cursando pedagogia (numa faculdade particular presencial) e chegou a ser disputada por dois grandes colegios particulares. A primeira professora (educação infantil) do meu filho era negra, não sabia escrever direito mas brincava com ele e cuidava dele muito bem.
Quanto aos professores de escola pública, tem que fazer concurso, e no último concurso aqui do Estado 70% dos candidatos foram reprovados, quer dizer, o Estado também não aceita qualquer um. Conheço professoras do municipio (Porto Alegre) que ganham mais e tem melhores condições de trabalho que se estivessem trabalhando em colégios particulares.

Sim eu sei que há problemas na formação dos professores, como disse 70% foram reprovados, mas esses problemas não se referem apenas à origem social dos professores.

Ana Isabel

Tais Vinha disse...

Tais Vinha disse...
Ana isabel, peço a gentileza de reler meu texto. Em nenhum momento critico a origem social dos professores.

Critico que pedagogia seja a única opção pra quem não consegue se inserir em nenhuma outra ocupação de nível superior. Isso é preocupante pois mal formados esses adultos perpetuam na sala de aula sua mesma realidade e formam alunos que continuarão à margem do sistema. Se queremos interromper este ciclo e garantir a TODOS os brasileiros uma educação de qualidade, temos que ter melhores professores em sala.

O Brasil é sistematicamente avaliado como um dos países com a pior educação do mundo. Ou olhamos de frente para o problema e assumimos o que está errado, por mais duro que isso seja, ou as Irenes e a Martas continuarão tendo que estudar a única coisa que o sistema lhe permite. Talvez elas tivessem vocação para seguir outra carreira. Serem médicas, advogadas, arquitetas.

Já pensou que serem impedidas disso porque tiveram uma péssima formação pode ser muito mais cruel do que exigir professores qualificados em sala?

Tenho certeza que alguns desses casos serão felizes. Mas para cada caso feliz, temos uma leva de pessoas sem a menor condição de lecionar dando aula. Professor bom jamais poderia ser sorte. É direito de todos os alunos.

E só para concluir ontem li uma matéria que estão aprovando uma lei que estabelecerá nota de corte no ENEM pra pedagogia. Aparentemente, o governo também está preocupado com a qualificação dos educadores.

Segue o linque: http://www.camposebravo.com.br/noticias.asp?cod=5470&acesso=S

ana isabel disse...

Oi Tais

Só queria fazer uma correção, foram 90% os professores que não conseguiram passar na prova do Estado. Realmente é um dado estarrecedor.

Quanto a escolha da carreira eu vejo que os jovens cotistas (via ENEM, PROUNI, etc) entram em quase todos os cursos. Pedagogia passa a ser uma opção para quem tinha o sonho de ser professora antigamente e agora acha que pode realizar esse sonho.

A minha ex-chefe é de origem humilde (filha de operário) porém fez concurso, se formou em Contabilidade (isso a 15 anos atras) e hoje já não é minha chefe porque foi promovida.

Tais Vinha disse...

Ana, de novo, não é a origem humilde que estou questionando. Bjs!

Priscila Blazko disse...

Ótimo texto, Tais.
Aliás, vou postá-lo em minha página do facebook.

No entanto, mesmo você tendo absoluta razão, me desanima pensar que estamos dando murro em ponta de faca, sabe. A falência educacional é prevista - e premeditada! - num sistema capitalista como o nosso...

Um abraço da Priscila

Agra Priscilla disse...

realista, bem isso!!! fiquei chocada em ver uma pessoa que mal sabia escrever fazendo supletivo e indo para a faculdade à distancia de pedagogia e já ministrando aulas!!!! como pode isso, como as prefeituras ou estados permitem isso?? meu filho estuda em uma escola pública e eu fico atenta ... mas tem coisas que passam despercebidos, mascarados pela falta de professores.. aí escuto de uma outra mãe "é melhor ter aula com professor ruim do que não ter aula" ..até quando a sociedade vai ser conformada com tudo!!! A batalha é árdua mas eu não desistirei!!

Carolina disse...

Sensacional!

Como cursei Pedagogia posso falar por experiência: além de ser uma faculdade espera-marido virou preciso de emprego já.

São analfabetas funcionais, que entram em faculdades fracas e não conseguiram ser boas professoras não.

Se a faculdade fosse boa e desse alicerce tudo bem mas faculdades péssimas.

É uma triste realidade.

Anônimo disse...

Taís, eu fiz um comentário no seu blog, mas ele não apareceu...o que será que fiz de errado?!

Adorei o texto e fico muito angustiada com o destino da educação.

O problema está na formação dessas pessoas, não na classe social.

O curso deve ser mais rigoroso, isso sem contar que esse país precisa investir em cultura!

Sylvia disse...

Perfeito seu texto e nem um pouco exagerado ou preconceituoso como li em alguns comentários. Infelizmente a profissão de professor, tão importante em qualquer sociedade está sendo totalmente banalizada. Nada contra a pessoa querer crescer na vida, ter uma profissão e tal, mas temos que pensar muito bem antes de escolher SER professor. Porque é uma profissão na qual você irá lidar diretamente com seres humanos, irá ajudar a formar seus valores, lhe transmitir conhecimentos... e isso não é para qualquer um. Realmente os bons profissionais são disputados por escolas particulares e os que não conseguem vagas nessas tem que procurar outras redes...
E falo isso de carteirinha, pois sou professora de Educação Infantil e tenho muito orgulho de ser. E procuro estudar sempre para me aperfeiçoar cada vez mais, mas sinceramente me bate um desânimo gigante quando vejo colegas de profissão que escrevem "nós vai" dando aulas e recendo o mesmo salário de quem se matou de estudar... coisas que precisam ser revistas com urgência em nosso país.

Lu Azevedo disse...

Flavia, ensino de qualidade deveria ser pra todos, nao? Nao só pra aqueles que têm condição (e nao só consciência) de escolher as melhores escolas.

Pati_SB_Carvalho disse...

Atrasado o comentário? Mas gostei tanto que decidi, mesmo assim, postar.

Seu texto está lindo, claro, objetivo e realista. Não há preconceito nele.
Há o retrato do país.

O problema não é quem entra na faculdade ou o que ela cursa. O problema é a péssima qualidade de ensino que há em todos os níveis, diplomando profissionais, infelizmente, desqualificados.

Doméstica ou playboy. Não importa. Eu mesma conheço pessoas de classes altas incapazes de redigir um texto com o mínimo de coerência. Ricos e graduados!

Este é o problema! Está tudo muito errado. São essas pessoas que educarão nossos filhos.

O ensino de base é péssimo e não há mais critério para admissão no ensino superior!

Bastam alguns minutos em redes sociais e em blogs para vermos a dificuldade em se escrever corretamente. Erros absurdos são cometidos por pessoas graduadas!

E, mais uma vez, isso não é uma questão de classe. Minha mãe, por exemplo, quando nasci, só possuía o primário. Foi à luta, se QUALIFICOU e, por fim, se graduou. Bem como minha tia. Ambas conseguiram seus diplomas superiores depois dos 50 anos.

Mas houve a busca por qualificação. Não a busca por diploma.

Só não concordo quando diz que as pessoas buscam a pedagogia. Vejo muito isso com direito e enfermagem também...

Mas o problema é o mesmo...ainda assim!

Beijos e desculpa pelo tamanho do comentário!

Patricia

Anônimo disse...

Falta pouco vai ter um fila pra cada profissão, assina o papel e leva o diploma e ainda uma 'bolsa ajuda da Dilma'...
O importante é o Brasil lá fora levar o nome de que aqui todo mundo 'istuda'!

camila disse...

Adorei esse texto. Realidade triste.
Senti na pele essa problematica com meu filho na escolinha infantil que ele frequentava, onde uma das "tias" falava muito errado no momento em que as crianças estão desenvolvendo a linguagem, e a outra, do ano seguinte, não tinha nenhum "tato" ou educação emocional para lidar com as crianças. Inclusive meu menino foi descriminado e constrangido por ela e pelos colegas, estimulados pela tal"professora", que acabava de se formar em pedagogia.
Infelizmente o pensamento de muitos ainda é esse mesmo, não sei o que fazer farei pedagogia mesmo. Sem generalizar, conheço excelentes profissionais e escolas totalmente comprometidas com a educação.
Parabéns pelo texto

Cleide disse...

adorei! Essa é a realidade e ponto final! Infelizmente posso falar com conhecimento de causa. sou professora e mãe. Não quero para professora dos meus filhos a maioria dos meus colegas de profissão!

Bruna disse...

Eu sinto muito medo dos professores formados atualmente. Mas por enquanto, ainda não vemos direito esse problema porque ainda temos bons professores lecionando. Infelizmente, esse grande problema só será notado quando os atuais professores se aposentarem, nas próximas décadas, ou seja, quando pouca coisa poderá ser feita efetivamente.

Caliê disse...

Tais o pior é que essas pessoas mal formadas estão em escolas que cobram caro tbm, pelo menos no interior tenho visto isso e acho uma questão de ter ou não profissionais qualificados. Infelizmente, como vc bem colocou quem quer "melhorar" acaba indo fazer pedagogia, isso aliado a péssimos cursos superiores e baixa remuneração, resulta em nossa triste realidade. Para ser professor tem que ter bagagem, gostar e ler muito, saber escrever bem e ter disposição para ensinar.

Anônimo disse...

Olha, estava lendo seu blog da frente pra tras, ou seja, desde aquela maravilhosa postagem sobre o lanche natural e a galera ^true^ da escola publica ate este aqui, que eh um infeliz reflexo da sua mente preconceituosa. Espero que a Marta, depois de 4 anos estudando, consiga superar os erros de portugues que comete ainda hoje, e que a Irene e a outra senhora possam ganhar mais intimidade com o computador, que eh uma ferramenta importante para o ensino a distancia e que possam tambem se realizar nos cursos que escolheram.
Desculpe os erros na mensagem, o pc esta com o teclado maluco.

Ganhou uma leitora e perdeu no mesmo dia. uma pena.

Cordialmente, Laura.