14.11.12

Existe alimento infantil?





Existe alimento infantil?


O único alimento infantil produzido pela natureza se chama leite materno. Depois do desmame, os pequenos passam a se alimentar com comida comum a todos os humanos. O que muda é o preparo. Legumes amassadinhos, papinhas de fruta, carne desfiada, mingau de cereal.

Em todos os tempos, em todas as culturas, sempre foi assim. Isto é, até chegar na nossa vez.

Os pais e mães de hoje convivem com uma realidade inédita na história humana. A “comida infantil” inventada pelo marketing da indústria alimentícia. Entra em cena um extenso cardápio de “alimentos” anunciados como práticos para a mamãe e mais aceitos pelos pequenos: sopa pronta, nuggets, bisnaguinhas, bolinhos, biscoitos, petit suisse, macarrão instantâneo, leite fermentado, lanches de microondas, sucos e néctares (em pó, concentrado e de caixinha), refrigerantes, preparados à base de leite, cereais matinais, achocolatados, salgadinhos, combos de fast food, embutidos etc. Isso sem falar nas balas, pirulitos e outras guloseimas.

Observe que nenhum desses produtos é invenção da natureza. Todos são criação da indústria alimentícia que calculou, sabidamente, que uma família consumiria mais se tivesse que comprar alimentos diferentes para os adultos e para as crianças. Isso se chama criar nichos de venda, segmentar o mercado consumidor.

A criatividade da publicidade torna tudo ainda mais confuso. Começamos a realmente acreditar que criança tem mesmo que comer comidas mais fofinhas, doces, coloridas, acompanhadas de brinquedos e personagens. E confiamos que essas comidas são seguras para darmos aos nosso filhos.

O problema é que esses alimentos costumam ser pobres nutricionalmente. Enchem barriga, mas não nutrem como deveriam um corpo em desenvolvimento. Pior ainda, atrapalham por serem ricos em aditivos, conservantes, sódio, açúcar, gordura e farinha refinada.

Resumindo, os alimentos que o marketing transformou em comida para criança podem fazer mal aos pequenos. Além de criarem péssimos hábitos alimentares que dificilmente serão abandonados na vida adulta. E hábitos ruins fazem um bem danado para o mercado de comida pronta.

Estudos hoje apontam que esse problema se torna ainda maior nas classes mais pobres. Com o aumento da renda, os pais estão sendo seduzidos pelo doce canto da indústria. E festejam poder colocar na mesa produtos que antes eram exclusividade das classes média e alta. O problema aqui é que não sobra dinheiro para os alimentos que complementam essa dieta pobre. Frutas, legumes, peixes, raízes, grãos e cereais integrais não entram no cardápio. Pesquisadores alertam para uma geração de brasileirinhos obesos e mal nutridos.

Não podemos condená-los. Neste nosso Brasil das diferenças, a publicidade conseguiu transformar comida industrializada em símbolo de status. Comprá-los é poder dar aos filhos tudo “de bom e do melhor”. É não deixar a garotada “passar vontade”. É realizar o sonho de uma vida “prática” e “moderna”.

Comida pronta faz de mim e dos meus filhos alguém de valor. Com diabetes, pressão alta, colesterol, intestino preso e acima do peso. Mas, enquanto estiver dando para comprar o biscoito recheado deles, está tudo bem.



Esse texto foi publicado originalmente no blog do Movimento Infância Livre de Consumismo

1.11.12

Planejamento Familiar




Planejamento Familiar

Nunca foi boa em planejar viagens. Deixava tudo pra última hora. Sabia que isso irritava amigos e familiares, além de ser uma atitude de risco. Mas achava que, com crianças, fazer planos era ainda mais arriscado.

E desse jeito viajandona ia levando a vida e os passeios. Na véspera resolvia, enfiava filhos, papagaio e violão no carro e partia. 

Até que este ano, resolveu tomar uma atitude premeditada. Decidiu com um mês de antecedência que iria para Florianópolis.

Trinta dias de antecedência era tanto tempo que precisou racionalizar internamente a atitude: o semestre estava quase acabando, os filhos iam faltar uns dias na escola mas eram bons alunos e mereciam um descanso, a passagem de avião comprada antes era mais barata, 2012 poderá ser o último ano de suas vidas... 

Estava imensamente feliz consigo própria. Para dar conta dos preparativos arrumou até uma agendinha, onde anotava "comprar biquini", "avisar escola", "comprar passagem de ônibus para o aeroporto", "depilar", "contratar cuidador para a gata". 

Até que a uma semana do embarque, vem a notícia: os dois filhos, pela primeira vez, haviam ficado de recuperação. O mais velho em três matérias. O outro em uma. As provas, como era de se prever, eram exatamente na semana da viagem. 

A mãe bufa e contém os ímpetos assassinos com uma taça de vinho. Mais calma, vai conversar com os filhos. 

"O que houve?" 

"Decidi sentar no fundão. Não deu muito certo, né...", foi a explicação do mais velho. 

"Eu achei que tinha zerado a prova, mãe, juro!", disse o menor, na linguagem de quem passa por todas as fases e arrasa no videogame. 

A mãe decide que este problema não lhe pertencia. Era deles. "Escutem. As passagens estão compradas. Eu e seu pai vamos de todo jeito. Resolvam com a escola e vocês irão com a gente. Se não resolverem, ficam para fazer a prova." 

"Como assim?!" esperneiam. "Tá maluca?! Você tem que ligar lá e falar com a coordenadora!" 

"Não ligo! Ligaria se fosse doença ou outro motivo grave. Mas sem vergonhice não é problema meu. É de vocês. Querem ir pra Floripa, resolvam." 

"Você vai fazer isso com a gente?!" 

"Eu! De jeito nenhum. Quem fez isso com vocês foram vocês mesmos. Assumam e se virem." 

Por dentro, ela cruzava os dedos e torcia. "Deixar os fidamãe com quem? Mudar a data também não dá. Comprei passagens do tipo 'impossível remarcar - a senhora quer que desenhe?' Será que ligo para a escola escondida?"

Para piorar, os meninos esperneavam diariamente, implorando para a mãe intervir. Mas ela decidiu manter-se firme. Além de confiar no sevirômetro deles, achava que havia ali uma preciosa lição a ser aprendida. 

Os dias foram passando, a viagem se aproximando e nada. Até que faltando 2 dias para o embarque o mais velho chega em casa pulando: "Conseguimos! A coordenação liberou para a gente fazer as provas noutro dia." E completa, cutucando o irmão: "Ufa, dessa vez achei que a gente tinha rodado! Você viu a cara da coordenadora quando a gente falou com ela? Nunca imaginei que ela fosse topar!" 

Enquanto os dois se afastam, a mãe senta para relaxar. Santa coordenação! A viagem da família estava salva. Podia seguir com os planos. Que daqui para frente voltariam a ser poucos. 

Esse negócio de planejar com antecedência é estressante demais. Como alguém consegue viver assim?