29.10.12

"O QUE VOCÊ FEZ COM MINHA MÃE?!"






"O QUE VOCÊ FEZ COM MINHA MÃE?!"

É uma dessas mães que fazem ativismo na rede. Sua última brigada foi contra o consumismo no Dia das Crianças.

Inspirada pelas ideias de suas fieis companheiras virtuais, planejou um dia mais significativo, que celebrasse a infância com brincadeiras ao ar livre, piquenique e atividades familiares. Qualquer coisa para tirar o foco da garotada da montanha de presentes.

O grande dia chegou e junto veio uma chuva torrencial. Lamentou o fato de São Pedro não ter apoiado a iniciativa tão louvável das mães.

Depois da 19ª rodada de mímica e jogos de tabuleiro, decidiram fazer um passeio. A garotada sugeriu boliche e lá foram eles ao único da cidade: o do shopping.

Esqueceu-se que em dia de chuva, ainda mais num feriado, um mico chamado King Kong invade os centros de compra e não poupa ninguém.

Depois de rodarem 125km para achar uma vaga e atravessarem todo o estacionamento debaixo de d'água, descobrem que a fila do boliche era de duas horas. "No mínimo", ressalta a simpática mocinha da recepção.

Imaginaram que o cinema estaria o mesmo furdúncio. Decidem dar meia volta e voltar pra casa.

No caminho o pai para pra abastecer. A mãe comenta que está com vontade de comer um chocolate. Os filhos se olham surpresos. A mãe querer um doce era algo inédito na vida deles. O formigão da família sempre foi o pai. Aproveitam o momento único e entram com ela na lojinha.

Amadora em questões açucaradas ela pede ajuda aos filhos para escolher o chocolate. O mais velho lhe mostra um tabletão. Ela aceita. O do meio sugere outro. Ela pega. O caçula apresenta mais um. Bota sem titubear na cesta.

Os meninos continuam pasmos. Fazem um último teste: "Podemos levar dois pacotes de bala? Está em promoção: dois por 5 reais."

Quando a mãe topa, o mais velho arranca os pacotes de bala da mão dela, encara-a firmemente e diz em tom desafiador: "ONDE ESTÁ MINHA MÃE?! O QUE VOCÊ FEZ COM ELA?"

Os outros dois cruzam o braço e fazem o mesmo: "É...DEVOLVA NOSSA MÃE!"

E o Dia da Crianças que não teve sol, nem piquenique, teve açúcar e muitas gargalhadas.




23.10.12

Aprendendo a trocar na escola.




Aprendendo a trocar na escola.

A primeira Feira de Trocas de Brinquedos da escola do meu filho começou estranha. Não pelas crianças, mas pelos adultos. Estavam meio tensos, inseguros, sem saber o que iria acontecer. "Será que vai ter briga, tumulto, confusão?".

Sentimentos compreensíveis. A troca é a transação mais presente na história humana, mas nossa geração desaprendeu essa prática. Tudo o que temos foi comprado.

Hoje, as Feiras de Troca estão voltando como uma forma mais consciente e, por que não, econômica, de dar um novo destino aos objetos que não queremos mais.

Como uma das mães que propôs a atividade para a escola, fui convidada a comparecer para orientar a garotada. De posse do microfone, veio o frio na barriga: "Orientar o quê? Se nem eu sei direito como faz?".

Na hora me lembrei das experiências compartilhadas pela internet com outras mães que participaram de feiras semelhantes e improvisei as dicas: "Olhem o que interessa, conversem com o dono do brinquedo e façam suas propostas." Foi só. 

A feira começou e o que aconteceu naquele espaço surpreendeu a todos. Foi um aprendizado do início ao fim. Para eles e para nós. 

O burburinho e a movimentação eram os de um mercado alegre e dinâmico. As crianças negociavam com autonomia e determinação. Iam de um lado a outro fazendo suas ofertas. Negócio fechado, saiam felizes, exibindo orgulhosas com seu novo brinquedo. Negócio recusado, corriam atrás de outra oportunidade. O clima amistoso foi a primeira coisa que chamou nossa a atenção. Nada de tumulto, de arrancar o brinquedo da mão do dono, de brigar. O respeito mútuo sempre presente na escola transpareceu nas relações. 

Claro que aconteceram conflitos. A menina que se magoou porque a melhor amiga não quis a oferta dela. O garoto que quis o brinquedo de volta depois de trocado e emburrou porque não conseguiu. O grupo de garotas que disputou com afinco uma boneca ainda na caixa. O pequeno que ficou aborrecido com as críticas dos amigos ao brinquedo simplesinho que ele escolheu. Em todos eles, os educadores intervieram só quando necessário, por entenderem que eram oportunidades preciosas e únicas de aprendizado. 

E quanto aprendizado! Uma professora se aproximou de mim com lágrimas nos olhos. Tinha testemunhado uma aluna que tem muita dificuldade em dizer não, recusar uma oferta ruim para o seu par de patins. Achou aquilo uma conquista ímpar na vida daquela criança. Outra viu a garota que quer agradar a todos, ter que escolher um entre os vários pretendentes ao seu brinquedo. Teve o menino apegado, que voltou para casa com seu velho brinquedo, por não conseguir se desfazer dele. E o desapegado, que não quis nada em troca e preferiu doar seu balde de Lego. 

E as crianças que não trouxeram brinquedo? Até elas nos deram lições. Foi combinado que ao final da troca, caso sobrassem brinquedos, elas poderiam escolher um. Mesmo assim, participaram alegremente das negociações, ajudando seus amigos. Ao final, sobraram vários brinquedos e praticamente todas puderam ficar com um. Ninguém reclamou que quem não trouxe não devia participar. Pelo contrário, muitos festejaram que o colega também conseguiu um brinquedo. 

Saí da escola refeita. Como pode um evento tão rápido e despretensioso concentrar tanto aprendizado?!

Estava ansiosa para retornar depois do almoço para o evento com as turmas da tarde. Mas meu filho mais velho machucou o dedo no futebol e passamos a tarde no pronto-socorro. Me dei conta que vida de mãe também é uma eterna troca. Nesse dia, abri mão da desejada Feira da tarde em troca de um necessário gesso. 

Quem foi mesmo que disse que as trocas não fazem mais parte da nossa vida?


P.S: Cometi o pecado mortal de não citar a supermãe e parceira na idealização do mundo, Silvia Schiros. Felizmente, o papel virtual permite edições. Silvia, valeu ter sua companhia em mais essa aventura!


Morte aos chatos.




Morte aos chatos.

Os ecologistas que me desculpem, mas se tem uma espécie que precisa ser extinta, é a dos chatos.

O eterno chato. Aquele que, num banquete romano, dizia que achava absurdo atirarem pessoas para os leões e todos pensavam: "Ai meus Deuses, lá vem o chato."

Naquele tempo, quem quisesse encontrar um chato, era só ir ao setor de cumbucas de barro do mercado. O chato nunca usava as de chumbo, pois desconfiava que faziam mal à saúde. Se tem uma coisa que chato sabe fazer é desconfiar.

Queria ver o povo revirar os olhos? Era só o chato começar a falar que o negócio de importação de mão de obra negra para trabalho escravo tinha que acabar. E não adiantava argumentar que a economia precisava do setor, que ia causar desemprego nos estaleiros e nas fábricas de chicotes, que ia faltar gente pra tocar os engenhos e abanar as sinhás acaloradas. O chato respondia que ia surgir uma nova ordem mundial e essa era a dica pra você sair de fininho porque o papo ia ficar insuportavelmente chato. Ô gente que viajava na banha! (Naquele tempo, não tinha maionese.)

A principal característica do chato é que ele não desiste. Bobeou, lá vem ele cutucando: "Por que mulher não vota? Por que gay não casa? Por que nossas terras são nossas e a dos índios não são deles? Quem é mais bicho: o animal ou o homem que o maltrata? Por que empregada doméstica pode até lavar nossa privada mas não usa o mesmo banheiro que o patrão? Por que anúncio de bebida alcoólica tem regra mas de cerveja não? Por que eu não consigo ter meu nenê de parto normal? Por que não dá pra pedalar sem correr risco de vida? Por que um político rouba milhões e não acontece nada, mas um moleque com um baseado pode ir pra cadeia? Por que a propaganda é direcionada ao meu filho se sou eu que compro? Por que a escola só ensina decoreba?". É uma chatice sem fim.

Quando o chato é da família - não se iludam, toda família tem um - temos que desenvolver técnicas avançadas para escapar deles nas festas. Levantamos para pegar uma cerveja mesmo com o copo cheio, convidamos para cantar parabéns, engasgamos com um caroço de azeitona e fugimos dali na maca da ambulância.

Agora duro mesmo é quando o chato surge na forma de filho.  Há relatos de exemplares de 1,20m dessa espécie que dizem que não querem um par de tênis novo porque o que eles tem ainda está ótimo. Há os que obrigam o pai a usar o cinto de segurança.  Os que choram diante do leitãozinho assado. E outros que cheiram o hálito da mãe, tornando-se legítimos representante da patrulha antifumo instalados dentro da nossa própria residência. Aliás, êta patrulha chata!

Já houve casos de chatos de espinha na cara que repreendem os pais em pleno almoço de domingo quando estes clamam por políticas mais rígidas para coibir a migração nordestina. Direito de ir e vir...tem coisa mais pentelha?

Na sala de aula, então, ninguém merece! Pior que um chato na família é um chato atrapalhando a aula com tanta perguntação: "Para que serve a trigonometria na prática?" E tente responder que serve para ele passar de ano, que a chata-mór, a mãe, aparece no dia seguinte pra reclamar do professor.

Temos que tomar muito cuidado com os chatos. Eles parecem poucos. Mas se multiplicam feito coelhos e perturbam de tal maneira que, se não ficarmos atentos, acabam conseguindo mudar as coisas. E as coisas não precisam mudar. Elas são do jeito que são. Nossos pais nos criaram desse jeito e olha só, deu certo! Somos ótimos!

Por isso, digo: "Morte aos chatos". E antes que algum chato apareça aqui cheio de nhenhenhém, explico que é morte no figurativo. Não quero que os chatos sejam atirados aos leões, mesmo porque até isso eles conseguiram mudar.

Esse mundo está ficando mesmo muito chato!


Ninguém melhor do que Rosa Parks para ilustrar este texto. Quem sabe da história vai entender. Quem ficou curioso, clique aqui.

18.10.12

Escolas que pensam.





Escolas que pensam. 

Me emociono todas as vezes que vejo educadores pensando fora do quadradinho do livro escolar e se abrindo para a vida.

Essa semana, fui tocada pela reflexão dos educadores da EMEI Guia Lopes.

EMEIS são escolas de educação infantil. Se pensarmos na hierarquia vigente, os profissionais que nela atuam são o chão da pirâmide, os menos reconhecidos e valorizados. Muitas vezes, até por si próprios. Infelizmente, permanece fortemente enraizada em nosso País a noção de que a criança pequena precisa de "tia" e não de educador.

Tias são queridas e carinhosas. Mas seu lugar é em casa e não numa escola. Hoje sabe-se que existem habilidades a serem desenvolvidas na primeira infância, fundamentais para a vida adulta, que exigem conhecimento, formação e autonomia. Requer Professores. Com P maiúsculo, orgulhosos de sua profissão, cientes da sua importância e da imensa responsabilidade que é formar um pequeno ser humano.

Por esse motivo, me impactou a carta que a EMEI Guia Lopes publicou na internet. Trata-se de um manifesto dos educadores daquela instituição contra a Novela Carrossel, do SBT.

Aos invés de atuarem como tias e acharem lindinhas as imitações que as crianças fazem dos personagens ou, ainda pior, cruzarem o braço e se omitirem com as eternas desculpas "é muito ruim, mas os pais deixam…as crianças adoram…fica chato dizer não", os profissionais daquela escola resolveram conhecer melhor o assunto, refletir sobre ele, formar uma opinião e agir. Agir como educadores comprometidos com a profissão que escolheram, fazendo valer sua autoridade no assunto e sua autonomia como conhecedores do desenvolvimento humano.

Torço para que a atitude se espalhe e que mais e mais escolas ganhem coragem para se manifestar sempre que identificarem na sociedade algo que prejudique ou favoreça a formação de seus alunos para a vida coletiva. Com firmeza, serenidade, boa argumentação e sem medo ou preguiça de nadar contra a maré.

Nenhuma escola conseguirá ensinar seus alunos a pensar e agir com autonomia se, antes de tudo, seus professores não fizerem o mesmo.

Segue o manifesto que inspirou esse texto. Ele foi originalmente publicado neste linque, com o título: Um Carrossel de Preconceito e Discriminação.


CARTA ABERTA EM REPÚDIO À NOVELA CARROSSEL


A Escola Municipal de Educação Infantil “ Guia Lopes” comprometida com ações que valorizem as diferenças e tonifiquem a autoestima de todas as crianças com idade de 3 a 5 anos através do combate a qualquer ação que dissemine o racismo, o preconceito e a discriminação na infância torna público o repúdio à novela Carrossel, veiculada diariamente pelo SBT ( Sistema Brasileiro de Televisão). Trata-se de uma novela dedicada ao público infantil que se passa em uma pretensa escola , com supostas profissionais da educação em que alunos personificam os mais variados estereótipos e vivenciam situações inaceitáveis nas quais a criança negra é frequentemente humilhada, a beleza e a superioridade da criança branca são enaltecidas, as crianças com sobrepeso são ridicularizadas e o espírito competitivo é levado ao extremo. A cada episódio, uma das crianças é exposta às ações do grupo que planeja situações vexatórias seguindo um enredo que reforça tudo o que nós combatemos e acreditamos deva ser combatido. Cirilo, um menino negro, pobre, e de boa índole é apaixonado por Maria Joaquina, menina branca, rica e cheia de soberba. Para ilustrarmos a perversidade existente nas relações entre as crianças da pretensa “Escola Mundial”, citamos o episódio em que um grupo de garotos resolve convencer Cirilo que, para conquistar Maria Joaquina, seria necessário comprar um tônico para ficar bonito. Cirilo, sendo uma criança com baixa autoestima, pega as moedas de seu cofrinho e compra a milagrosa loção feita por seus “colegas”.
São evidentes os efeitos nefastos da insensibilidade, do desconhecimento do universo infantil e do desrespeito à dignidade a que todos temos direito. Várias de nossas crianças têm verbalizado o seu descontentamento em serem negras e o desejo de mudar sua cor de pele, enquanto outras formam grupos impenetráveis de “Marias Joaquinas”, negando-se a usar o uniforme e estabelecendo competições de roupas e acessórios. Atentas a estas manifestações, estamos trabalhando para mobilizar a atenção da comunidade de pais e docentes para que sejamos, todos, criteriosos e críticos em relação à programação infantil a que ficam expostas nossas crianças.


Gestão Escolar e Equipe Docente da EMEI GUIA LOPES.


Pode interessar também ler o texto da mãe Debora Regina Magalhães Diniz "Porque não deixo meus filhos assistirem Carrossel", publicado no blog do Infância Livre de Consumismo.

Imagem compartilhada daqui: http://veerle.duoh.com/belgiangraphicdesign/detail/thoughts



16.10.12

O plin, plin na nossa mesa.





O plin, plin na nossa mesa.

É inocente acharmos que a educação alimentar de nossos filhos é responsabilidade apenas dos pais ou das merendeiras das escolas. Há tempos, ela vem sendo dividida com os meios de comunicação que, através de comerciais muito persuasivos, ensina-os desde a mais tenra idade a consumir produtos que trazem mais benefícios à saúde do mercado do que à saúde humana.

Assim, assistimos impotentes nossos filhos crescerem sob o bombardeio de mensagens que pregam que refrigerante é felicidade, fast food é para se amar muito, tomar suco em pó é uma atitude que salva o planeta.

Por mais que controlemos, por mais que optemos por uma dieta saudável, por mais que falemos “não” e desliguemos a TV, é impossível evitar que estas mensagens atinjam os pequenos e acabem fazendo parte da sua formação. Elas estão por todos os lugares e são repetidas à exaustão, como mantras da vida moderna.

O problema é grave. Crianças são seres vulneráveis. Suas mentes, ainda em formação, não distinguem fantasia de realidade. Elas acreditam nos adultos. Acreditam no discurso publicitário. Essa vulnerabilidade não é invenção de pais superprotetores, cientistas radicais ou educadores idealistas. É estabelecida nos Artigos 226 e 227 da nossa Constituição. Que também estabelece que protegê-las é dever da família, sociedade e do Estado. Isto é, o comprometimento com o bem estar e a formação das futuras gerações de brasileiros não é só dos pais e sim de toda a nação.

A alimentação é um dos principais elementos para este bem-estar. Hoje temos conhecimento suficiente para afirmar que grande parte das doenças pode ser evitada com uma dieta mais saudável. Doenças que afetam o desenvolvimento cognitivo, que afastam o trabalhador do serviço, que invalidam pessoas em idade produtiva e que, inevitavelmente, acabam cobrando sua fatura do setor público. Portanto, a alimentação deveria ser tratada como estratégica para a soberania nacional e defendida com a mesma intensidade com que o mercado defende seus interesses.

Os meios de comunicação, na sua maioria concessões públicas, jamais poderiam ser usados para deseducar todo um povo. O problema se torna ainda mais grave quando, além das crianças, vemos os pais também serem atingidos por mensagens enganosas, como a da maionese industrializada que se diz tão boa como o azeite de oliva, do catchup que afirma ser como comer tomate in natura, do tempero pronto cheio de sódio e glutamato que deixa o feijão ou o arroz “iguaizinhos ao da vovó″ ou do achocolatado que oferece “nutrição completa” para os filhotes chatinhos para comer.

Há os que defendam que não cabe ao Estado intervir neste processo, pois os consumidores têm o direito de escolha. Contudo, para haver escolha, tem que haver informação. Informação clara e transparente. Não é o que temos hoje. As informações, quando chegam, são distorcidas e duvidosas. Confunde-se propositalmente os benefícios do suco em caixinha com os da fruta. Biscoito com fonte de vitaminas e sais minerais. Macarrão instantâneo com comida caseira.

Os pais são os guardiões da infância. Os filtros. Quando eles são deseducados, a infância fica ainda mais desprotegida.

Como pais temos que lidar com temas que não fizeram parte das preocupações das gerações que nos antecederam: obesidade, doenças metabólicas, sedentarismo infantil e puberdade precoce são apenas alguns deles. Estamos confusos, frustrados e ávidos por construir novas referências que nos sirvam de guias por estes novos tempos.

Ao cobrarmos do Governo uma atuação mais efetiva em defesa dos pequenos, regulamentando com rigidez a publicidade infantil, não queremos tutela. Queremos que o Estado cumpra seu papel em defesa do cidadão diante dos interesses de grandes conglomerados, reequilibrando as relações. E que a proteção da infância seja integral, como estipulam as leis do nosso País.

Este texto foi publicado originalmente na Redenutri e republicado em comemoração ao Dia Mundial da Alimentação no blog do Movimento Infância Livre de Consumismo.

A ilustração foi retirada do site: http://drawception.com/viewgame/8CzRThssP7/my-little-pony-the-horror-version/

9.10.12

Perguntem às crianças.




Perguntem às crianças.

As crianças elaboram hipóteses geniais para entender o universo que as cerca. Fico imaginando como seria o mundo se não as condicionássemos desde a mais tenra idade a pensar só dentro da caixa.

Conversando sobre isso com uma educadora, soube que existe uma técnica para incentivar a curiosidade e o espírito investigativo que consiste em reverter a pergunta. Assim, quando uma criança nos questiona algo, ao invés de respondermos de pronto, dizemos: "o que você acha?".

Depois de ouvirmos a hipótese infantil, que deve ser levada a sério e jamais julgada certa ou errada, o assunto pode se encerrar naturalmente ou, se a dúvida persistir, sugerimos: "como podemos descobrir?".

A partir daí parte-se para as pesquisas, as experiências, as trocas de estratégias a lá Dr. House no Mundo de Bickman. Quando a resposta chega, ela foi construída de dentro para fora e não imposta pelo adulto.

A ideia é não formar donos de opinião e sim curiosos. Pessoas sem medo de imaginar, errar, trilhar caminhos diferentes. E que são capazes de pensar por si próprias.

Eu ainda não consigo chegar nesse nível de abstração diante de uma pergunta. Volta e meia me pego dando "aulas". Mas quando fico quieta e observo, aprendo tanto, que sofro só de pensar que um dia posso não mais conviver com crianças.


TPM

"Mano, já aconteceu com você da sua mãe ficar brava do nada? Tipo…você tá ali, parado e ela vem com uma cara de monstro e te destrói?"

"Claro, um monte de vezes"

"Então, isso é TPM."

"TPM? Que é isso?"

"Temporada Para Matar. Toda mulher tem."

Fábio, 10 anos e Enzo, 9 anos.


AQUECIMENTO GLOBAL

"Eu acho que o aquecimento global é um fenômeno natural. Ninguém acredita quando eu digo, mas é. Minha mãe diz que a febre é a defesa do corpo quando tem alguma doença. E que a gente não deve abaixar a febre para não atrapalhar a nossa defesa. Então, aquecimento global é a defesa da Terra. A Terra percebeu que alguma coisa não vai bem e esquentou. Uma hora ela vai se curar e a temperatura volta a abaixar."

Lucas, 13 anos


"π"

"Mãe, hoje eu aprendi o valor de Pi."

"É mesmo?! E qual é?"

"É um número infinito, mas arredonda pra 3,14."

"E para que serve o Pi?"

"Ah, serve para muitas coisas…(pensa um pouco)…porque o pi é infinito, e infinito é muito, muito mesmo. Então quando você quer xingar alguém, xingar muito, você diz "Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii". É para isso que serve."

Carlos, 12 anos

Pensativo da autora: E eu consegui finalmente entender para que serve o π.