23.3.12

Ajude seu filho a escapar da Redoma.






"Escape" first appeared in Adbusters #34 (Mar/Apr 2001) by Marc Dejong - Melbourne, Australia. - www.adbusters.org


Ajude seu filho a escapar da Redoma.

Imagine que você vive em um país controlado por um Ditador.
Onde quer que vá, para onde quer que olhe, Ele está sempre presente. Nos muros, nos autidores, na TV, nas padarias, nos carros, nas camisetas, nos bonés, nas partidas esportivas, nos copos descartáveis e agora até nos uniformes escolares. Não há como escapar de Suas mensagens.

Você vai levando sua vida em meio a esse bombardeio sem pensar muito no assunto.

Seus filhos também. Mas para eles, o Ditador preparou mensagens mais fáceis de serem entendidas. Tem bichinho, musiquinha, astros e estrelas, joguinhos, personagens famosos etc.
Você testemunha seus filhos crescerem achando que o Ditador é muito legal. E quer apenas a alegria e felicidade deles. Acreditam que se fizerem o que Ele sugere, serão lindos, amados, descolados, jamais sentirão tédio e serão dignos de respeito e admiração. Verdadeiros vencedores.

Você é macaco velho. Entende que não é bem assim. Ditadores não estão no poder para fazer a felicidade do povo e sim por interesse próprio. Você sabe que não dá pra acreditar em tudo que Ele diz. Por isso, em casa, você conversa com as crianças para que fiquem mais espertas com o que assistem por aí. Tenta lhes passar valores diferentes daqueles que o Ditador anuncia.

Mas, inúmeras vezes, vê seus filhos adorando o Grande Ditador e implorando para que você também faça o que Ele pede. Tem horas que você diz não. Noutras, cede.

A verdade é que você também se sente inseguro sobre como agir diante disso tudo. E muitas vezes cansado e impotente.
E o Ditador vai usando essas dúvidas em favor Dele. A última foi anunciar por aí que se as coisas andam preocupantes com a criançada, a culpa é toda sua. Só que ele nunca diz isso claramente. Além de arrogante, o Sujeito é esperto. O recado é dado nas entrelinhas, para você se convencer sem nem perceber.

O Senhor Supremo o subestimou. Você percebe a manobra e sente raiva, muita raiva. Resolve fazer alguma coisa e descobre que tem mais pessoas indignadas. Gente amadora como você, com muito menos recursos que o Ditador, mas determinadas a dizer que há limites para tudo.

Principalmente para Eles.

 ----

Conheça a página que pais e mães montaram no Feicebuque para exigir que se abra um espaço na redoma do consumo que sufoca cada vez mais nossos filhos. Clique aqui e curta o Infância Livre de Consumismo.

Participe deste movimento. O bem que defendemos é infinitamente mais valioso que o Deles.

12.3.12

Publicitários censuram pais e mães em campanha contra a proibição da publicidade infantil.




Publicitários censuram pais e mães em campanha contra a proibição da publicidade infantil.


A ABAP, Associação Brasileira de Agências de Publicidade, organizou um movimento para divulgar a idéia de que somos todos responsáveis pelo consumismo infantil (procure "somos todos responsáveis" no Feicebuqui).

A idéia central é engajar a sociedade para o conceito de que não se pode proibir a publicidade infantil, porque vivemos numa sociedade democrática e cabe aos pais o controle e a educação das crianças.

O movimento convida todos para o debate "corajoso" e afirma: "São bem-vindos todos os que desejam contribuir com sugestões, com ideias e com argumentos contra ou a favor das posições aqui claramente defendidas...Um debate maduro se faz sobretudo com respeito ao que é diferente e com disposição para argumentar em paz."

Pois bem. Aceitei o convite e fui lá dar meus pitacos. Demorou pouco, muito pouco, para eu descobrir que havia perdido meu tempo. O tal movimento, que se se propõe a defender a democracia, censura opiniões contrárias às deles: até o momento, eu, Taís Vinha e a Ana Cláudia Bessa, outra mãe blogueira muito preocupada com o tema, já fomos banidas da página deles no Feicebuque. Não podemos mais participar e todos os nossos comentários foram apagados.

O moderador chamou minha participação e a de outras mães de "patética". Afirmou que, ser contra a proposta deles e entrar naquela página, é coisa de "doente mental." 

Não discutem uma idéia, não contra-argumentam, apenas copiam e colam regras de participação ou tentam denegrir a pessoa dos participantes e não os argumentos propostos.

Vejam as respostas que estamos obtendo pela nossa participação no tal "debate":

Marcelo Morsbach Dias Tais Vinha, você já percebeu que o tempo que você usa para atacar quem pensa diferente de você nessa sua invasão patética aos espaços de discussão dos que não concordam com você é tempo que você poderia estar usando para divulgar suas idéias a quem de fato possa ter interesse por elas? Aproveite melhor o seu tempo!

Marcelo Morsbach Dias Giovana Saad, não se trata de democracia, só que alguém que busca um espaço de discussão de pessoas nitidamente contrárias às suas idéias não me parece estar buscando democracia e sim querendo semear discórdia e bate-boca. Eu acharia igualmente ridículo e patético se fôssemos discutir nohttps://www.facebook.com/groups/consumismoepublicidadeinfantil/, você não?

Marcelo Morsbach Dias Para mim, por exemplo, um ativista do PT que resolve pregar suas idéias em uma convenção do PSDB não é um democrata, é um doente mental, e para você Giovana Saad?

Somos Todos Responsáveis escreveu: "Oscar Mesquita Neto, as decisões do moderador não estão em discussão com o senhor. Se a campanha não lhe parece uma contribuição ao debate sobre a publicidade infantil, sugerimos que abra espaço para os que acreditam."

Somos Todos Responsáveis escreveu: "A senhora Tais Vinha, que se oculta atrás de um avatar, diferente de dezenas de outras pessoas que aqui participam abertamente, está convidada a conhecer nossa política de conduta (http://www.somostodosresponsaveis.com.br/2012/03/08/somos-todos-responsaveis-colabore-com-responsabilidade/) e a se apresentar, visto que seu perfil nada informa sobre si não sabemos se estamos diante de pessoa real ou "fake". Segundo orientação do código de conduta, a moderação deletará todos os comentários considerados impróprios, ofensivos, ou aqueles originados de perfis suspeitos, sobre o qual nada se pode saber, bem como não permitirá a prática de trolagem, que visa tumultuar a conversa com críticas vazias e sucessivas. Democracia não se confunde com baderna."


Senhores da ABAP e pessoas que, voluntariamente, cederam depoimentos à campanha: Isso lá é democracia? Isso é ser contra a censura? Isso é fomentar o debate? 

Entendo que a ABAP queira defender seus interesses e acho que a humanidade só evolui quando alguém discorda de alguém. Mas que falta de tato! Que desrespeito a nós pais que estamos engajados há anos nessa discussão. No mínimo, deveriam nos ouvir. 

Será que não percebem que, se a autoregulamentação estivesse sendo feita de forma satisfatória, não estaríamos debatendo a proibição? Somos pais e mães com milhões de coisas a fazer. Iríamos ficar perdendo tempo nos preocupando com algo que vai muito bem, obrigado?

Concordo que o tema exige coragem e a coragem deve vir de ambos os lados. Coragem de ouvir, de assumir o que está errado, de trocar, de negociar, de chegar a um consenso. 

Se somos todos responsáveis, sejamos, senhores. Inclusive em cumprir o que foi prometido no saite bonitinho que vocês criaram para a campanha. Ou esse será mais um caso de propaganda enganosa.

Espero que o Conar esteja vendo. 

==========

Leia mais:


Conheça a um grupo de pais preocupados com o consumismo na infância:


ONG que defende um olhar mais atento da sociedade para o problema do consumismo infantil:




9.3.12

Mulheres que me fizeram. Sônia.



Mulheres que me fizeram. 

Sônia

Quando todas eram normalistas, tia Sônia era bailarina.

Vestia roupas chamativas, usava muita maquiagem e sabia de cor a coreografia das dançarinas da abertura do Fantástico.

Casou-se com um primo, contrariando a parentada que dizia que primo com primo não podia casar.

Era um casal descolado. Ela linda, decotada, chamativa. Ele cabeludo, cinto de couro gasto, chinelo preso só no dedão. Namoravam em público, coisa esquisita na época. Íamos todo ano para a praia e enquanto meus pais ficavam na areia distribuindo sanduíches de mortadela e bananas, eles ficavam abraçadinhos, se curtindo dentro d'água.

Os parentes tinham lá sua razão. A filhinha deles nasceu com um problema nas pernas que podia ser corrigido, mas a menina teria que ficar engessada dos pezinhos ao quadril por muitos meses. A única abertura era um buraco para sair o xixi e o cocô.

O marido trabalhava fora e para cuidar melhor da nenê, tia Sônia veio morar conosco. Minha mãe também tinha dado à luz recentemente e nossa casa virou uma farra de fraldas e gente.

Os seios de tia Sônia faziam jus à fartura. Era, como ela mesma se chamava, uma "vaca leiteira". Além da filha, amamentava também a minha irmã, complementando o  leite que faltava nos peitos de minha mãe.

Briguenta, comprava nossas brigas de rua. Nos ajudou a botar muito moleque para correr. Até que um dia nos viu provocando um deles e nunca mais se meteu nas nossas confusões. "Se defender, sim. Arrumar encrenca, não."

O dia que foi ao pediatra tirar o gesso da nossa prima, voltou chorosa.  As pernas não estavam boas ainda. Para uma bailarina, era difícil lidar com uma bebezinha que crescia sem poder se movimentar. Choramos todas juntas.

Depois que ela já havia se mudado de casa, passei mal na escola. Tentaram em vão localizar meus pais e acabaram ligando para a tia Sônia. Ela não tinha carro e estava com algum problema muscular. Assim mesmo, foi na mesma hora me buscar, mancando pelo caminho.

Me lembro de ter passado aquele dia na casa dela. Fui cuidada com sopa e carinho. Para a garota mais velha de uma casa com muitos irmãos, aquele dia ficou gravado na minha memória como meu dia de filha única. Me senti amada e importante.

Não eram só os seios de tia Sônia que eram generosos.







8.3.12

Mulheres que me fizeram. Teresa.




Mulheres que me fizeram.

Teresa

Depois de enterrar a filha, Teresa senta-se no degrau da varanda com um copo de cerveja e um cigarro. As únicas coisas que consegue ingerir.

Quem passa pela rua, dá o boa noite de sempre, sem se dar conta de que aquela era tudo menos uma noite boa.

A vizinha se aproxima. Teresa lhe oferece um banquinho. A moça começa a chorar. Era amiga da filha e estava esperando Teresa sair para poder lhe dar um abraço. Teresa a consola. Oferece um copo de cerveja. A conversa toma o rumo das recordações. Algumas engraçadas, como o dia em que a filha, barbeira, trombou com o portão da casa ao lado.

A vizinha suspira e me conta que também enterrou seu nenê. Era um menino e até hoje ela não sabe direito porque ele morreu. "Nasceu vivo. Me disseram que foi infecção. Tinha feridas no corpinho todo."

Teresa acende outro cigarro. A noite é quente. Vai ser difícil dormir com tantas lembranças. Lembrança da vida dura que levou até poder sentar-se no degrau daquela varanda. Dos outros dois filhos que foram levados pela fome, ainda pequenos. Do marido alcoólatra que colocou para fora "pelo bem das crianças". Dos carrinhos de cimento que carregou para bater a laje. Dos anos de serviço em casa de família e dos muitos filhos negros e brancos que criou.

Lembrou-se do tempo que era uma "negrinha atrevida" que batucava em latas e vivia aprontando pelo bairro. Da escola de samba que ajudou a formar os "Acadêmicos dos Campos Elíseos". Dos homens que amou, mas que nunca colocou para dentro de casa, porque estavam só de olho "na minha cesta básica e na minha cerveja".

Foi puxando memórias que distraiam a mente. Assim não se lembrava da filha no blazer da funerária, "de um azul lindo como eu nunca vi".

A vizinha se despede. O marido dela está chegando e é muito "sistemático". Não gosta que ela fique na rua.

Teresa grunhe qualquer coisa, calça o chinelo gasto e se levanta. Vai "se chumbar" para dormir, com o remédio para o estômago que os filhos disseram que era calmante.

Enquanto se afasta para dentro da casa, a escuto cantarolar "...meu peito até parece sabe o quê? Tauba de tiro ao álvaro não tem mais onde furar..."


6.3.12

Todos unidos pela educação.


O casamento não ia bem e ela pediu o divórcio. Depois de uma longa e desgastante negociação, ele aceitou se mudar. Mas só sairia quando ficasse pronto o imóvel que eles estavam construindo em outra cidade.

Resignada, ela decidiu aguardar. Nesse meio tempo, foi chamada para a reunião de pais da escola da filha mais velha. Segundo ano do fundamental, professora nova, regras novas.

"Mãe, agora são aulas de 45 minutos com intervalo de 5 minutos para ir ao banheiro. Pedimos a ajuda de vocês para conscientizá-los a usar o banheiro só no intervalo. Eles terão aulas de ciências, português, matemática, geografia, artes, blá, blá, blá, ética e empreendedorismo. As provas provas são bimestrais e a tarefa diária. Se eles adoecerem, passem aqui para pegar a tarefinha. Temos que ensiná-los a ter disciplina. Ah, a partir de agora cada um tem seu lugar e o recreio diminuiu para 20 minutos.

Exasperada a mãe ergue a mão e argumenta: "Mas eles só tem 7 anos! Por que as aulas tem que ser tão fragmentadas? Por que uma grade tão rígida? Por que não pode fazer xixi quando tem vontade? Por que só 20 minutos de parque? Por que eles precisam ficar sem se movimentar a maior parte do tempo? Prova bimestral no segundo ano? Tarefa quando eles estão doentes? Professora, o ano mudou, mas as crianças continuam pequenas. E PELO AMOR DE DEUS...AULA DE ÉTICA E EMPREENDEDORISMO AOS 7 ANOS?!!!"

A professora solta o argumento número um para momentos de saia justa escolar: "É política da escola."

Inicia-se uma discussão. Parte dos pais apoia a mãe rebelde. Outros apoiam a escola.

Acuada, a professora coloca a cereja no bolo que havia se transformado a reunião: "Precisamos cultivar desde cedo a sementinha do vestibular."

A mãe sai da sala enfurecida. Ao chegar em casa, joga a bolsa no canto e fala pro marido: "Chega, não dá mais. Se essa é a melhor escola da cidade, tô fora. Eu vou pra qualquer lugar do mundo, mas nessa escola nossas filhas não ficam mais. Eu topo qualquer coisa pra elas poderem estudar num lugar melhor. Até ficar com você. Assim que a casa ficar pronta, mudamos juntos.

Todos unidos pela educação.