6.2.12

Escolas com Alzheimer




 Escola 1: 

Quando a professora se aproxima para ver a tarefa, a menina explica em voz baixa e envergonhada que o pai bêbado havia batido na mãe, tiveram que chamar a polícia e, na confusão, não conseguiu fazer a lição. A professora dá de ombros, vira as costas e enquanto retorna para a lousa, diz em voz alta para toda a classe ouvir que aquilo não era desculpa e que a tarefa era para ser feita independente de tudo.

A menina se enfurece, os olhos se enchem de lágrimas, sai da sala empurrando cadeiras, batendo a porta e chamando a professora de vaca. Por conta disso toma uma advertência.

Escola 2: 

O menino, que nunca foi aluno nota 10, tem uma piora no rendimento. Angustiada, a mãe procura a coordenadora da escola. Ela conta que o marido está bebendo muito e o filho presenciou o pai alcoolizado agredir a mãe. Após o desabafo, a coordenadora tranquiliza a mãe, informando que iria discutir o caso com os educadores e que juntos traçariam um plano de apoio para que o garoto conseguisse atravessar o vendaval familiar sem tanto prejuízo ao seu desempenho escolar. Se comprometeu também a conversar semanalmente com o menino, para acompanhar suas evoluções e, antes de encerrar a reunião, orientou a mãe sobre como ajudá-lo nos estudos domésticos.

De acordo com relatos da própria mãe,  a partir desse dia, a melhora do menino foi a olhos vistos. Não virou o melhor da sala, mas recuperou a média em todas as disciplinas. E "voltou a sair da escola sorrindo, coisa que há tempos não fazia". Ela ainda se emociona quando pensa em como a situação do casal afetou o filho, mas diz que a postura da escola a ajudou a perceber que ela não podia mais permitir que o filho se prejudicasse tanto.

Duas escolas com problemas semelhantes. Duas abordagens completamente distintas. Os dramas humanos são os mesmos. O que muda é o preparo, o respeito e o comprometimento dos educadores envolvidos. Muda também a consciência de que o desempenho deles e dos alunos está totalmente atrelado à vida que insiste em pulsar do lado de fora dos muros.

Não vou sequer comentar a atitude da primeira professora. Os fatos falam por si e definem bem quem deveria ter sido advertido. 

Prefiro valorizar o segundo caso. Nele, o que mais me chamou a atenção foi a percepção da coordenadora em agir sem tomar para si o problema que era da família. A questão foi conduzida pela escola de forma clara: "faremos tudo o que for possível para ajudar seu menino no desempenho escolar". Ela não deu conselhos, não julgou, não tentou consertar o mundo, nem agendou reunião no AA para o pai. Simplesmente fez o que foi possível para atuar junto ao garoto de forma a minimizar os danos naquilo que era da sua competência. E com isso, foram todos muito bem sucedidos. O resgate educacional foi feito. A auto-estima do aluno melhorou como um todo. Ele se sentiu compreendido e acolhido por toda a equipe sem ter seu drama exposto. 

Matricular seu filho numa escola fechada pra vida é como colocá-lo numa clínica para pacientes com alzheimer. Ninguém vê ninguém e o outro não existe. Felizes dos alunos que nesta situação ainda conseguem chutar cadeiras.








3.2.12

Filhos, festas e aparelhinhos eletrônicos.



Você está numa festa ou jantar. Ao seu lado, um adulto saca do bolso um celular e começa a interagir com a tela. Você tenta puxar conversa, mas ele responde por monossílabos, sem tirar os olhos do pequeno monitor. Isso quando lhe dá alguma resposta. Logo, você e todos ao redor desistem de fazer contato. E a festa segue sem ele.

Adultos normalmente não fazem isso em encontros sociais. É extremamente mal educado além de um despropósito em uma reunião entre familiares e amigos. Quem não quer interagir, que fique em casa.

Pois alguém me ajude a entender o motivo deste comportamento ser cada vez mais tolerado entre as crianças e adolescentes. Nos eventos deste final de ano, me surpreendi com a quantidade de crianças em atitude quase autística diante de um pequeno aparelho eletrônico. 

Meninos e meninas que não conversam com primos, mal respondem às perguntas dos avôs e não se esforçam em fazer amigos. Cheguei a testemunhar adolescentes entediados em locais com mar, gente da mesma idade e piscina, porque lá não tinha internet ou gueiminho. E o pior é que faziam todos ao redor se sentirem os mais chatos do planeta. Difícil competir com o Steve Jobs ou com o Mark Zuckerberg.

Eu sei que começar o ano com um puxão de orelha não pega nada bem, mas pai e mãe, que filhos são esses que estamos criando? A sociabilização é um aprendizado. E como todos os aprendizados tem suas etapas ao longo das diversas fases da vida. Nossos filhos, com nossa total conivência (e, convenhamos, muitas vezes para nosso sossego), estão deixando de viver fases essenciais deste aprendizado. 

Os aparelhinhos são inevitáveis? Que sejam, mas cabe a nós orientá-los para o uso social deles. Em festas nem pensar. (Em recreio de escola idem, onde já se viu criança parada e sozinha no intervalo?)

Tourear crianças em restaurante ou eventos não é fácil. Mas se o convite é para levá-las, que sejam aceitas como são: irriquietas, brincalhonas, barulhentas, crianças, ora!  Antes isso do que decorações de mesa com brilho azul no rosto.

O que mais sinto é pela perda. As crianças que vi conectadas me pareceram muito legais. Talvez se eu tivesse um outro aparelhinho conseguiria que elas me adicionassem como amiga. Na base da conversa, fracassei.

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