7.12.11

Professor bom é sorte?



Atravessamos momentos doloridos neste segundo semestre.

Entre eles, uma perda de um ente muito, muito amado.

Por conta da doença que o levou, precisei me afastar de casa por alguns meses, deixando para trás filhos e marido.

A equipe era unida. Ficaram todos bem. Bom saber que mãe faz menos falta do que supomos.

Mas na escola os efeitos da confusão familiar surgiram. Cada filho extravasando da sua maneira a dor.

A professora de um deles me encontrou num final de semana em que pude vir para casa:

"Eu soube o que está havendo na vida de vocês. Sinto muito. Me avise se puder ajudar com algo."

"Meu filho te contou?"

"Ele não disse nada. Mas percebi que havia algo diferente. Pequenos sinais. A mochila estava vindo incompleta, ele deixou de fazer algumas tarefas, ficou meio avoado na sala. Nada muito sério, não se preocupe. Mas achei melhor conversar com ele para ver se algo estava acontecendo e ele me contou. Foi assim que fiquei sabendo sobre a doença do avô e seu afastamento."

"Não sabia que ele tinha mudado na escola. Quando ligo para casa eles me dizem que está tudo bem."

"Mas ele está bem. Apenas lidando com a situação. Fique tranquila que entendi o que houve e está tudo certo. Estou dando uma atenção maior a ele neste período e parece que está funcionando. Pode viajar sossegada."

A sensibilidade da professora me tocou profundamente e me deu o apoio que eu precisava sentir naquele momento tão difícil de nossas vidas. Até hoje, meus olhos se enchem de lágrimas quando me lembro dessa conversa.

Neste ano, tratei aqui no blog de vários temas envolvendo a parceria família escola. Faço questão de fechar o ano com este episódio. Ele me mostrou que é possível olhar para uma criança, em meio a tantas outras, e não ver nele um relaxado, um desatento, uma mãe relapsa, um encaminhamento para o conselho tutelar.

É possível identificar nas atitudes negativas de um indivíduo ainda em formação, um pedido de ajuda. E essa ajuda não precisa ser sobre-humana. Ela vem com o olhar, a compreensão, a empatia, o estímulo, a transmissão da confiança que "está tudo bem" num momento em que tudo em volta daquele aluno não vai nada bem.

Obrigada, professora, por ter segurado na mão do meu filho durante esta difícil travessia. 

Estaremos todos de volta, firmes, fortes e refeitos em 2012!


P.S: Um outro filho viveu o momento com irritabilidade e falta de paciência com os colegas, chegando a agredi-los. A professora dele teve exatamente a mesma atitude dessa que relato. Investigou o que estava acontecendo, entendeu a situação e ficou mais atenta àquela criança, que logo superou o momento difícil. Não chegou nem a conversar comigo. Teve a sensibilidade de aguardar o meu retorno, marcar uma reunião e me contar como ele agiu e o que ela e a escola fizeram para ajudá-lo. 

Tenho sorte com os mestres? Não creio. Eles estudam em uma escola que investe na formação continuada de educadores. A equipe participa de grupos de estudo, no qual refletem e avaliam o trabalho em sala. É uma escola com coordenadores presentes. Os professores se sentem apoiados e, ao mesmo tempo, responsabilizados em desenvolver um bom trabalho. Esse trabalho contínuo valoriza o trabalho do professor e lhes dá instrumentos para lidar com diferentes situações inerentes do ofício. 

P.S.2: Se estiver escolhendo escola, pergunte como é feito o trabalho de formação de professor. Este tem que ser sistematizado. Profissão de professor não é intuitiva. Exige técnica e aprimoramento constante. Fuja das escolas que não tem um trabalho sério de estudo e acompanhamento do trabalho em sala de aula. É um crime uma criança depender da sorte para ter uma boa educação.