14.9.11

Como nossos pais.


Como nossos pais.

"Se apanhar na rua, apanha em casa."

"Bateu, levou."

"Se xingar a mãe, leva na cara."

"Não tem mais jeito, to ensinando meu filho a bater."

"Não se meta em confusão."

"Não seja dedo-duro."

"Empresta pra ele, seu egoísta."

"Diga-me com quem andas que te direi quem és."

"Desaforo não se leva pra casa."

"Antes um covarde vivo que um corajoso morto."

"Bata no amigo que te ofende. Mas não reaja ao bandido."

"Não se meta."

"Deixa pra lá."

"Fica quieto."

"Obedeça!"


Robert Selman, da Universidade de Harvard, foi o palestrante que abriu o II Congresso de Pesquisas em Psicologia e Educação Moral, que aconteceu na Unicamp, em julho.

Sua palestra abordou os conflitos nas escolas (tema do congresso), sob o ponto de vista de quem está envolvido e também da perspectiva das testemunhas (platéia). Para ele, o comportamento nestas situações é aprendido. Na família, na comunidade, na escola, na mídia que retrata e amplifica tudo isso. Cita, por exemplo, que há culturas muito submissas, como a chinesa, onde desde muito pequenas as crianças são ensinadas a se calarem diante daquilo que consideram errado. E a não se envolverem.

A cultura latina também é submissa - palavra usada para descrever a ausência de reação. Por exemplo, um jovem que se cala diante de um mal feito do grupo, mesmo sabendo que aquilo é errado, está tendo um comportamento submisso. Mesmo que ele venha a se arrepender mais tarde, naquele momento, ser aceito pelo grupo, é mais importante que ser aceito por si próprio.

A submissão é ruim, pois ela permite que as coisas extrapolem os limites. Permite, não é a causa.

Na escola, permite o bullying, a exclusão, as agressões, os abusos (por parte de alunos e educadores), as brincadeiras maldosas, a falta de respeito. No emprego permite todo tipo de abuso e exploração. No casamento é um desastre completo. No meio ambiente é a destruição. Na política é o Brasil.

Nos estudos que ele conduz nos EUA, Selman aponta que escolas onde os alunos tem mais espaço para opinar, onde os educadores estabelecem com os alunos uma relação de confiança e respeito mútuo e onde há menos autoritarismo, a submissão é menor. Essas escolas tendem a ter relações menos conflituosas. Não que os conflitos parem de acontecer, o que muda é a forma com que se lida com eles. E a forma que se age quando se testemunha a injustiça.

Selman conclui com a cereja do bolo. Se o comportamento nos conflitos é aprendido, dificilmente as coisas mudarão em uma sociedade se as crianças e jovens não forem expostos a uma outra forma de resolução de conflito. É óbvio que não se pode esperar isso das famílias, pois a família só perpetua o aprendizado que é transmitido pelas gerações. O local ideal para que eles conheçam que há outra maneira de agir é na escola. Onde educadores treinados podem intervir de forma não passional, para mostrar a eles que existem soluções não violentas para o conflito. É também o local para se trabalhar a submissão ou a passividade das testemunhas.

A idéia é que, uma vez expostos a uma nova forma de agir, eles possam, quando adultos, multiplicar em suas famílias e comunidades uma nova atitude diante dos conflitos.

Portanto, precisamos mudar o velho discurso que os pais precisam educar os filhos. Isso eles já o fazem. Da forma como aprenderam. Se essa forma não é mais eficiente para o mundo que vivemos, a escola pode ser nossa parceira na transformação das coisas.

Selman deu mais um motivo pelo qual precisamos nos unir.





13.9.11

Mamãe Muçarela





"Prezados,

Todos os dias recebo emails de vocês contando como foi o dia do meu filho. Deixa eu esclarecer: pago R$1500,00 por mês para uma criança de 5 anos estudar aí. A R$1500,00 por mês, eu entendo que meu filho está bem, sendo estimulado, aprendendo, sociabilizando, exercitando e tudo o mais que se espera de uma escola que cobra R$1500,00. Portanto, me poupem. Não me mandem mais emails. A única coisa que quero saber é se, um dia, ele vai sair daí sabendo ler, escrever, fazer conta, de bumbum limpo e feliz.

...

Ontem recebi um email com a receita da aula de culinária desta semana. Qual não foi minha surpresa quando li "muçarela" nos ingredientes. Isso mesmo! Mussarela com "ç". Fala sério! Como pode uma escola que cobra R$1500,00, para alunos com 5 anos, cometer um erro desses?! Vocês deveriam se envergonhar. A este preço, o mínimo que se espera é que os professores ganhem o suficiente para, de vez em quando, comer uma pizza e aprender como se escreve mussarela.

...

Semana passada escrevi um email reclamando sobre a grafia da palavra muçarela. Pois bem, para minha total supresa, domingo a noite, o Fantástico mostrou como se escreve muçarela! Assumo que eu estava errada. Muçarela, para embaraço meu e de todos os pizzaiolos de São Paulo, é com Ç. Portanto, peço desculpas pela bronca que dei no meu email anterior. Contudo, acredito que a R$1500,00 por mês, meu filho também deveria estar aprendendo a grafia correta no italiano, com ZZ.

...

Estou em dúvida sobre algumas das coisas que tem acontecido nesta escola. Pelos emails que vocês me mandam - praticamente todos os dias - estou pagando R$1500,00 por mês para meu filho de 5 anos aprender a separar o lixo e fechar a torneira quando escova o dente? Me desculpem, mas isso ele aprende comigo e com meu marido em casa, de graça. Acho que tá tendo muita frescura nesta escola. Cadê o português, a matemática, a ciências e a geografia?

...

Comunico que no ano que vem, meu filho não permanecerá nesta escola. Vai para uma escola de padre. Dessas bem grandes, com tantos alunos, que os professores não conseguem saber direito o que cada um deles faz. Menos ainda tem tempo de ficar mandando email para os pais contando sobre a formiguinha que eles olharam com uma lupa ou sobre os progressos da aula de educação física. Escolhemos uma escola com o sistema de ensino "OPA". Vocês deveriam pesquisá-lo, é muito eficiente: professoras com calça de tergal e cara séria, entram na sala de aula e dizem: "Opa!" e a molecada para tudo na hora e arregala os olhos. O melhor é que a mensalidade é R$800,00. Mais do que isso, eu me recuso a pagar para um garotinho que ainda fará 6 anos. Agradeço o ano que passamos juntos e me despeço acreditando que, agora, vocês vão responder a um dos meus emails.

Abraço,

Célia, mãe do Lorenzo.