25.5.11

O menino que não gostava de peixe.


O menino que não gostava de peixe.

O amiguinho do filho detestava peixe. Por coincidência, o garoto só vinha visitá-los quando o cardápio era um dos deliciosos pescados comprados na feira.

"Isso é peixe? Eu não gosto de peixe."

Pouco afeita a servir a la carte, a anfitriã foi rápida: "Não é peixe, não. É frango, bem temperadinho."

O menino provou ressabiado e logo mandou ver um filézão de tilápia grelhado.

Na segunda visita, o prato era caçonete temperado com limão e grelhado no azeite de oliva. De novo, o visitante comeu sem reclamar o "franguinho" que lhe colocaram no prato. Até repetiu.

A mãe já se sentia a maior especialista mundial em frescura infantil, quando o menino voltou a visitá-los. O cardápio era filé de pescada.

"Tô sentindo cheiro de peixe. É peixe hoje?"

"Não, meu anjo. Eu fiz aquele franguinho que você gosta."

O menino esticou o prato e já estava na metade da pescadinha quando engasgou. "Tem alguma coisa espetando minha garganta."

"Ai, Jesus, toma água."

Mais engasgado ainda, o menino resmunga: "Não adiantou, ainda espeta."

"Arroz, come arroz que desce."

O menino mastiga, engasga novamente e sussurra: "Tá pior...tem alguma coisa...na minha garganta."

A mãe resolve abrir a boca do menino e olhar. Lá no fundo, consegue ver um belo espinho de uns dois centímetros enterrado na goela da criança. A mulher sua frio. Já se imagina correndo pro pronto-socorro. Pior, imagina como ia explicar o golpe idiota do frango com espinho para a mãe do garoto.

"Prestenção...eu vou enfiar a mão na sua boca e puxar o espinho. Você fica bem quietinho que não vai doer. E não me morde."

O menino concorda obediente, de olhos e boca arregalados. Mantém-se um pequeno lorde enquanto dois dedos em pinça penetram na sua boca para resgatar o espinho.

"Mais um pouco...calma, não se mexe...consegui! Caraca, olha o tamanho! Pronto, agora bebe água. E me dá seu prato que vou trocar seu frango."

"Na minha casa, frango não tem espinho. Por que na sua tem?"

Quando o filho ia esclarecer, a mãe o interrompe rápida. "Tinha. Não tem mais. Acabou. Frango com espinho eu nunca mais compro. Vou trazer sua sobremesa, tá. É sorvete de creme batido com papaia."

"Que é papaia?"

"Mamão"

"Eu detesto mamão."


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18.5.11

A ética que vem do berço.





A ética que vem do berço.

Quando eu e meus irmãos éramos pequenos, me lembro de ouvirmos com frequência histórias sobre atitudes honestas e dignas por parte dos adultos que eram referências na nossa vida.

Tinha a do meu avô, pobre, cheio de filhos, que retornou a pé ao mercado para devolver a moeda que veio a mais no troco, porque "jamais aceitou ficar com o que era do outro". 

Mecânico dos bons, nunca deu muito certo financeiramente. E até mesmo o seu "fracasso", nos foi transmitido como lição de vida: "sempre foi empregado e quando tentou montar oficina própria não deu certo porque era honesto demais e passaram a perna nele. Morreu pobre, mas com a consciência tranquila".

Me lembro do dia que fui fazer compras com minha avó numa tradicional loja da cidade. Depois de escolher a mercadoria, ela se dirigiu ao caixa para pagar. O valor era alto e ela pediu para fazer um crediário. Chamaram o dono, que deu uma esnobada, mas no final cedeu, dizendo que, como ela era "parente do Fulano", ia lhe quebrar o galho. Na mesma hora, ela devolveu as compras dizendo: "Muito obrigada, mas não quero mais fazer negócio com o senhor. Quem está lhe pedindo crédito sou eu e não o Fulano, meu parente. O Fulano nunca pagou uma conta para mim. Se eu tenho o nome limpo eu garanto que não é por causa dele. Até logo". Pegou na minha mão e saiu da loja de mãos vazias e cabeça erguida. 

Médium conhecida, minha avó era procurada por gente de todo tipo, atrás de um conforto espiritual.  Ouvíamos com frequência a parentada contar que não importava o dia ou a hora, ela sempre os atendia. E nunca, jamais, aceitou dinheiro, até quando um "homem muito rico colocou uma carteira na mão dela". "Não posso cobrar pelo trabalho que é dos espíritos", dizia minha avó.

Me lembro da minha mãe, a Rainha do Cheque Pré, afirmar com orgulho quando batia o desespero do final do mês: "Ai...estou no vermelho de novo. Mas nunca um cheque meu voltou e não vai ser agora que vai voltar. Se tem alguém conhecida por honrar seus compromissos esse alguém sou eu". E lá ia ela fazer seus malabarismos para manter o crédito e a honra.

Tinha também o causo da prima que aceitou um emprego para ganhar o dobro e quando percebeu que tinha rolo, pediu demissão na hora: "prefiro ficar desempregada do que ganhar bem sabendo que estou sendo conivente com trambicagem".

Da nossa segunda mãe, a empregada que há 45 anos trabalha para nossa família, veio a lição contada com lágrimas nos olhos: "Quando eu tinha 16 anos e estava com minha filhinha bebê no colo, uma 'madama' me perguntou se eu dava a bebê pra ela. Eu mandei-a segurar a minha filha e abrir o cueirinho dela. Pedi para ela olhar se a nenê tinha rabo ou pelo, porque se tivesse era bicho e bicho a gente dá. 'Fio' a gente passa até fome, mas cria."

Os casos errados também eram contados, mas de uma forma que viravam aprendizado. O primo que deu golpe no pai e quase o matou de desgoto. O tio que faliu porque quis dar o passo maior que a perna. O parente que ficou rico às custas do suor alheio. 

Esses causos da minha infância me voltaram à memória, recentemente, ao ler um texto sobre a formação da personalidade ética. Numa sabedoria apenas intuitiva, os adultos da minha vida fizeram algo que mais tarde virou teoria: na formação das crianças é preciso haver uma correspondência entre cumprir normas e sentir-se bem. É preciso transmitir-lhes orgulho em agir de acordo com os princípios éticos e morais.

É essa satisfação interna que as motivará, mais tarde, a fazerem aquilo que julgam correto, independente de elogios de terceiros, bônus na folha de pagamento ou pontinhos positivos na caderneta do professor. Também não precisarão de inspetor, câmera ou marronzinho do DSV porque, quem se sente bem em fazer o que é certo, se autovigia. E se auto-respeita. 

Piaget, um dos teóricos citados no texto, complementa que faz parte dessa formação levar as crianças à reflexão sobre o que acontece quando não se cumpre as regras necessárias para a vida em sociedade (os causos errados que citei).

Claro que os pequenos ainda terão um longo caminho até se formarem seres éticos e morais. E que há muitos outros fatores além da família interferindo nessa formação: sociedade, escola, mídia, amigos, a própria personalidade. Como afirma Piaget, os valores morais se formam com a interação da pessoa com os diversos ambientes que ela atua. Mas o orgulho de ser correto, quando vem do berço, sem dúvida ajuda a criar um alicerce sólido para que essa construção seja firme.

Obs.: Após a leitura do texto, passei a me lembrar de transmitir mais aos meus filhos os ensinamentos dos meus antepassados. Cuidando para que também seja de maneira natural e temperada com exemplo, amor e história. Até ler Piaget, confesso que não lhes dava o devido valor. 

Imagem: Illustration Friday: Roots 





10.5.11

Traição


Traição

O marido entra sorrateiro. Pouco antes de chegar na cozinha dá de cara com a esposa. Ele a cumprimenta rapidamente, evitando olhá-la nos olhos.

Mulher: - Não acredito!

Marido: - Desculpe...

Mulher: - Por que você fez isso?

Marido: - Aconteceu, eu...

Mulher interrompe: - Mas não pode acontecer.

Marido: - Eu sei...você tem razão, mas às vezes a gente descuida...

Mulher: - Ah, não vem com essa. Com esse tipo de coisa não pode ter descuido. Alguém te viu?

Marido desvia novamente os olhos e fala baixinho: - A Sílvia.

Mulher exclama: - A Sílvia! Não! A cidade inteira e você me topa logo com ela?  Ela te viu?

Marido: - Viu, claro. Conversou comigo.

Mulher: - Disse o quê?

Marido: - Perguntou se você sabia que isso estava acontecendo.

Mulher: - Sabia que ela ia perguntar...E o que você disse?

Marido: - Disse que não...e que se você soubesse ia me matar.

Mulher: - Bom, pelo menos foi honesto. Tô quase te esganando. Ah...isso não podia ter acontecido...

Marido: - Eu sei, mas já foi...não vai acontecer de novo.

Mulher: - Promete?

Marido: - Juro. Vou colocar 2 sacolas de pano no carro e juro que nunca mais pego sacolinha de plástico no mercado.

Mulher: Vou falar pra elas que puxei sua orelha.

Marido: Diz que me fez adoçar meu café com açúcar mascavo por uma semana, só de castigo.

Mulher rindo: - Te odeio...

Marido: E eu devo te amar...porque vou te contar....vai, me ajuda a guardar as compras...


9.5.11

Marina Silva, fique esperta!


Marina Silva, fique esperta!
  
Semana passada me deparei com uma das estratégias mais sinistras de formação de opinião que já vi na rede. Divulgo, porque acho que a informação é a melhor vacina contra os golpes da internet.

Alguém publicou um site (http://orgulhoverde.com) que, aparentemente, defende o meio ambiente e a não aprovação do novo código florestal. Aparentemente.

Olhando nas entrelinhas, tudo indica que se trata de uma ação obscura e muito bem planejada de marketing viral, plantada para causar inimizades e angariar simpatizantes justamente para o lado contrário: o de quem defende a APROVAÇÃO do novo código.

A estratégia mostra a que ponto alguns seres humanos chegam para conseguir formar sua opinião.  Daqui para frente, fique ainda mais cauteloso com o que você encontra na rede.

O site defende idéias radicais, meio temidas por quem não gosta muito de ecologista, como passar fome para poupar o planeta, não tomar banho para economizar água, desapropriações em massa no campo e a internacionalização da Amazonia. Até aqui, tudo bem. A internet é espaço de todos. Tem gente defendendo assuntos bem mais polêmicos.

Mas vejam as evidências que o tal site seja falso:

Não tem autor. O que já é para se desconfiar. Ambientalistas sérios defendem com orgulho seus pontos de vista.

Não tem contato. Um site de ativismo sem contato... já viram isso?!

Eles enviam spams (foi assim que o descobri). Tanto divulgando o site, como metendo o pau nele (sei...). Quando você dá uma busca no nome de quem mandou, não existe tal pessoa. E o email é obscuro. Já viu ambientalista sério mandando spam? E gente indignada manda email para amigos e conhecidos. Nunca spam.

O site está hospedado nos Estados Unidos. Parece que os autores não só não querem ser encontrados, como não querem se enquadrar na nossa legislação. O que é estranho para um site brasileiro, discutindo coisas do Brasil.

Os comentários dos leitores são respondidos de forma ofensiva e até com palavras de baixo calão, por alguém que usa nomes falsos e que, quando clicados, lincam para sites de phishing (fraude eletrônica). 

Resumo: tem tudo para ser um site que tenta denegrir o movimento ambiental sério. Esta semana, o alvo é a Marina Silva. Eles a "apóiam" por ter conseguido adiar a votação do novo código. O texto transparece a ira do autor, de forma velada. O toque de maldade transparece ao final do texto, como se a Marina também apoiasse virar anorético para poupar o planeta e outras bobagens.

Macacos me mordam se não é um viral. Um site feito de caso pensado para angariar inimigos para quem é contra a aprovação do novo código. Uma estratégia que visa instilar a desconfiança para com os propósitos dos ecologistas sérios, que nunca agem de forma tão obscura.

Vejam que o site linca para os principais ativistas sérios do país. Tem gente e instituições muito boas ali, aparentemente "compartilhando" dos pontos de vista irresponsáveis e ofensivos deles. Outra estratégia para confundir e denegrir. Não é só a Marina que precisa se cuidar.

Ao fim da visita, o internauta mais descuidado acaba achando que ecologista é um bando de "verde, maconheiro, irresponsável e sem noção" como muitos afirmam nos comentários.

E assim, acaba apoiando quem defende a aprovação do novo código. Que, se fosse bom, não precisaria deste tipo de ação para convencer ninguém.

A que triste ponto as estratégias de comunicação chegaram. 

1.5.11

Sua vida está todinha no Feicebus.



Sua vida está todinha no Feicebus.


Se você optou por morar num condomínio, converse com sua empregada sobre o busão que a traz para o serviço.

O ônibus é o centro de troca de informação sobre a vida dos patrões. A sua, a minha, a nossa vida tá todinha aberta e escancarada no Feicebus

O sistema de informação é bem organizado e simples. Elas abrem a boca e começam a contar, pra todos ouvirem, inclusive motorista e cobrador, tudo o que acontece dentro das casas que trabalham. Que patrão não paga direito, a filha de quem que tá transando com quem, as neuras das patroas, o ridículo da vida privada, os pequenos delitos, as cenas que observam enquanto varrem e tiram pó.

Como nas redes sociais da internet, babado que vira buzz é o sórdido. Portanto, não espere ser poupada. Tem empregada que conta até que “aquela vaca transa menstruada...e eu que tenho que lavar os lençóis”.

Tem o lado bom. Elas aprendem muito sobre direitos trabalhistas, discutem salários, trocam receitas, se informam sobre novas oportunidades de emprego e se tornam excelentes fontes de informação sobre algum acontecimento no seu bairro. Ouviu falar de um assalto? Pergunte para sua empregada. Dizem que a vizinha separou? De novo, consulte a sua assessora para assuntos da vida alheia. Já usei, recomendo e descobri um serviço adicional: quando nem ela sabe de algo, solicite que pergunte no busão. No dia seguinte, minha amiga, senta que lá vem história.

A rede das domésticas também se apresenta em outras versões, como o Parkut, a rede que se forma nos parquinhos e praças onde as babás levam as crianças. Tem também a tuitagem rápida dos encontros nos mercados, feiras livres, bufês e casas de festa.

O Feicebus e o Parkut me fizeram lembrar de uma notinha que li certa vez sobre os “tigres”. Escravos que faziam o pior de todos os serviços: na ausência de esgoto, eram eles que recolhiam os dejetos humanos nas residências. Atravessavam a cidade levando enormes jarros de merda, na cabeça. O texto explicava que eles eram considerados “traiçoeiros”. Bobeou, deixavam cair um pouco da sujeira num transeunte almofadinha desavisado.

Hoje, a caca se esparrama entre um e outro solavanco do busão. E quem não quiser dar munição, que lave os próprios lençóis.