21.3.11

Mamãe controladora - da série "Histórias Deliciosas de Mãe"


Mamãe controladora - da série "Histórias Deliciosas de Mãe" 

Era daquelas mães precavidas, que sempre tem antitérmico e agulha na bolsa. Tinha uma  necessidade patológica (como ela mesmo descreve) de ter as coisas sob controle. Acordava com tudo programado, das atividades dos filhos ao cardápio do almoço, lanche e jantar. Detestava quando algo saia fora do esperado.

O filho queria muito um cachorro e perguntou se não podia ficar com a pudou da tia. A tia já havia concordado. Por não ter criança na casa, a cachorrinha era muito solitária. E a bichinha adorava o menino.

A mãe negou. Preferia um cachorro grande. Optou por um rótivailer. Pesquisou criadores e foi atrás do mais gabaritado e caro. A cadela veio de longe e chegou chipada, com todas as certificações possíveis e um pedigree cuja linhagem faria inveja à familia real britânica.

A paixão foi imediata e o menino não falou mais da pudou. O tempo foi passando e a bolinha gorducha crescendo. Mas crescendo pouco. Muito pouco.

Não levou muito tempo para a mãe, sempre atenta, perceber que algo estava errado. A cadela era estranha. Tinha pernas curtas e uma cara diferente dos demais da sua raça. Levou ao veterinário que logo deu o diagnóstico:

- Sua rótivailer é anã. Não vai crescer além disso.

A mãe sai do veterinário direto para o analista. Entra na sala aos prontos e conta a tragédia que tinha acontecido na sua vida. Escuta um barulho esquisito. Era o analista, que não se conteve e caiu na gargalhada. Logo ela, que tinha tomado todas as precauções e pagado caríssimo para que tudo saísse como ela queria.

E agora, o que fazer? Estavam todos apaixonados pela bichinha. O canil daria outra, mas exigiam a defeituosa de volta. Iriam sacrificá-la.

- Sacrificar a Tuca, nem pensar!

O jogou a tolha na lona e deixou pra lá. Hoje conta a história sorrindo. Ponto pra Dona Vida.


1.3.11

Princesinhas briacas


Princesinhas briacas

A Cereser, um dos maiores fabricantes de bebida alcoólica do país, está lançando um produto para crianças que tem cara de champanhe, bolhinhas de champanhe, rolha de champanhe, estoura como champanhe, mas não é champanhe.

É um suquinho frisante, desenvolvido para as crianças fingirem que estão tomando...adivinha o quê?!

Do ponto de vista mercadológico, um dos principais objetivos de se lançar produtos adultos em versão infantil (ou adolescente) é formar e fidelizar novos consumidores. Mais do que lucro imediato, a indústria busca investir nos mercados futuros.

Por quê? "Old habits die hard", como diria o Mick Jagger. Velhos hábitos são difíceis de serem mudados. A indústria aposta que, uma vez desenvolvido o hábito de consumo daquele produto, principalmente na infância, dificilmente o consumidor deixará de consumi-lo na vida adulta. As lembranças da infância tem forte ligação emocional e afetiva e o produto passa e fazer parte delas.

É por isso que os bancos dão as calças dos gerentes em troca de abrir contas para universitários que só tem uns tostões furados, um passe de ônibus e um baseado no bolso. Estão de olho no dia em que o rapazola virará um dentista, um executivo, um advogado, com algum dinheiro e muitas contas para pagar: seguro, plano de saúde, capitalização para os filhos, cartões de crédito, etc.

É por isso que a Johnson e Johson está lançando o Listerine Agente Cool Blue (veja imagem de um vídeo que eles publicaram no Youtube)


E foi por esse mesmo motivo que a R.J. Reynolds desenvolveu o carismático Joe Camel. Um caso mórbido de sucesso, que acabou banido depois de, comprovadamente, ter atraído milhões de adolescentes para o tabagismo.



Canais infantis, com horários específicos para bebês, não tem nada de gut gut.  Estão formando público. A indústria alimentícia é outra que sempre que tem uma novidade eca!, posiciona logo para o consumidor mais jovem, pois os adultos são menos abertos a coisas eca! (lanches congelados de microondas, por exemplo).

Isto posto, é claro que a Cereser, uma empresa de bebidas alcoólicas, não está querendo apenas expandir mercado para o ramo de sucos. Se fosse assim, lançaria uma linha de sucos, com cara de suco, tampa de suco e rótulo de suco. (Ou, se quisessem ter um diferencial, com qualquer outro formato e cara que não fosse de um dos produtos da linha adulta que eles mesmos fabricam). 

Querem também formar o hábito de celebrar com espumantes os momentos especiais da vida. Nada contra se os consumidores fossem de maior, como é exigido por lei para os demais produtos deles. Nada contra se no rótulo não constasse o doce canto sereia dos personagens da empresa do Valdisnei.

Aliás é pra Disney que guardo minha maior bronca. A Disney é hoje um dos 3 maiores conglomerados de entretenimento do planeta. Uma empresa que deve todo o seu patrimônio à infância. Alguém acredita que eles precisam dos centavos que vão ganhar licenciando personagens pra Cereser vender pseudo-birita pra criança?

Tanto Disney como Cereser sabem que estão pondo nas nossas prateleiras um produto duvidoso. Esse mesmo produto, também com o aval dos personagens Disney, já causou furor na Escócia em 2007, tendo as autoridades de saúde recomendado que fosse retirado das prateleiras. (Clique aqui para ler matéria)

Mas já que a coisa anda descarada e o negócio é mesmo faturar a qualquer custo, tenho algumas idéias para os executivos da lojinha do Valdisnei aumentarem ainda mais o faturamento e as bonificações no salário: charutos de chocolate do João Bafo de Onça, pílulas de açúcar da Margarida, camisinhas de bexiga do Ursinho Puff e, sucesso garantido, vibrador apontador de lápis da Minie.


Para engolir mais essa, só com champanhe de verdade. E da boa.


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Quer desabafar?

www.cereser.com.br - IRONIA DA VIDA: SÓ DE MAIOR PODE ENTRAR NO SITE DO FABRICANTE DO SUQUINHO DAS PRINCESAS.

Site da Disney - O "fale conosco" não funciona (como no site da Nickelodeon, sintomático!). Há uma página com alguns fones, mas não é do SAC. http://www.disney.com.br/publicidade/