24.2.11

A infância do meu filho não está a venda.



O mercado de cosméticos é bilionário. E de onde vem estes bilhões há muito mais. Isso não é suficiente para acalmar a fome de lucros das empresas. Eles querem mais, muito mais. Às custas de quem? De nossos filhos.

Nessa semana, dois fatos me deixaram bastante preocupada com o rumo que as coisas estão tomando. Primeiro a notícia que o Walmart está para lançar a linha Geogirl, com produtos de beleza de verdade, de uso diário, para  crianças de 8 a 12 anos. Depois, a propaganda ridícula da linha Avon Barbie na Nickelodeon.

Na internet você vai encontrar muitos textos sobre a linha Geogirl. Deslumbretes achando tuuuuuudo. E gente questionando se nossas tão violadas crianças precisam de mais essa. Por mim, já tá decidido: o Walmart não me pega mais. Tenho consciência de minha pequenez diante deste gigante, mas essa formiguinha tem muito orgulho de não dar mais um centavo pra essa rede de varejo que quer lucrar às custas da autoestima e da adultização de menininhas.

Outros gigantes que me irritaram muito foram Avon, Mattel e o canal Nickelodeon. O tema é o mesmo: a infância não sendo tratada com o devido respeito. 

Durante um programa da Nickelodeon, o Nicknews, entra um merchandising (Relô Conar, no Brasil é proibido fazer merchandising para criança!), onde os personagens anunciam que foi descoberto "o segredo de beleza da Barbie". Como assim? Segredo de beleza de boneca de plástico? Piada de mau gosto! Daí entram os produtos Barbie Avon. Tudo errado. O formato merchandising é proibido e a mensagem é indecente e impossível. Propaganda enganosa no grau mais sério, sendo inocentemente veiculada por outro irresponsável, o canal Nickelodeon.

Aliás esse já tinha pisado nos meus calos quando, candidamente, anunciava o seriado Drake e Josh com o seguinte texto: "Drake já teve mais de 74 namoradas e tem uma banda de rock". O público alvo: crianças! Que, na santa inocência devem achar demais ter no currículo 74 namoradas aos 16, 17 anos. Aliás, acredito que os publicitários da rede devem ter o cérebro congelado nessa idade mental, porque vai ser irresponsável assim nos Estados Unidos, o país que mandou pra cá essa "piiiiiiiiiiii" de canal. E eles não estão nem aí. No site deles, o Mundonick, não há nem linque para contato. Se tiver, está escondido. E tem um selinho "Nickelodeon Family and Parents" que não dá linque pra lugar nenhum. Parece que tá lá pra constar.

Enfim, estão querendo arrancar dinheiro, às custas da infância dos nossos filhos. Se você também discorda, bote a boca no trombone. Duas mães indignadas incomodam muito mais.

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Quer fazer barulho globalmente?


Quer mandar email?




Mundonick (Não consegui achar o canal para contato. Talvez você seja uma Xerloca Holmes mais obstinada do que eu!) A Stephanita achou estes contatos: nickprivacy@nick.com e este endereço de correspondência "Godoy Cruz 1550, Buenos Aires, C1414CYH, Argentina, à atenção de Solana Hernánde" 


PODE UM CANAL QUE OPERA NO BRASIL SER TÃO OBSCURO NOS CONTATOS? 


Quer partir pra briga?


Intituto Alana (ONG que combate o consumismo infantil)


Quer dados estatísticos?

http://www.cosmeticsdatabase.com/


Dica da Adriana de uma ONG que testa e divulga o nível de segurança dos cosméticos.  


13.2.11

Filhos fora da Matrix (Criando filhos felizes, parte 2)


Filhos fora da Matrix (Criando filhos felizes, parte 2)

Outro dia, uma amiga comentou angustiada que o filho era muito submisso. O garotinho de 5 para 6 anos, era doce demais a ponto de fazer concessões não tão favoráveis a si próprio em troca de manter as amizades.

Na hora, me lembrei de uma frase que havia escutado de uma educadora : "É preciso ser submisso para aprender a não se submeter". Uma frase forte, papo cabeça e que não aliviou em nada os anseios da mãe naquele momento.

Reencontrei a criança cerca de um ano e meio depois. Ele me contou que havia brigado com o amigo. O motivo, nas palavras dele: "Ele fica me chamando de mané. Eu não sou mais mané." Fiquei muito impressionada. Na minha frente havia outra criança, mais segura, independente, consciente de seu valor.

Quando li os comentários no texto anterior, senti a angústia crescente dos pais com a relação "criança x consumo x felicidade" e não pude deixar de associar os ensinamentos. Somos adultos e temos 30, 40 anos de jornada nesta sociedade consumista. Não podemos esperar que nossas crianças nos alcancem. Não agora. Seria forçar um comportamento que leva anos pra se desenvolver. Eles precisam viver seus erros e acertos com o consumo, suas alegrias e decepções para se definirem como consumidores. E como seres-humanos (apesar do que vemos na telinha, uma coisa não tem nada a ver com a outra).

Então, o que fazer? É impossível evitar que uma criança seja atingida por mensagens consumistas. O bombardeio é intenso e está em todos os lugares. Na TV, no pé do amigo, no carro do vizinho, na cabeça do skatista que passou na rua, no autidor que tampa o céu. As mensagens são cuidadosamente sedutoras e é natural que eles também queiram consumir.

Nosso dever, não está em proibir ou criticar. Está em equilibrar a balança e garantir espaço para que eles desenvolvam também o lado não consumível da vida. E isso se faz com paciência, tranquilidade e algumas concessões (ou não haverá equilíbrio). Se o garotinho é louco pelo superherói do minuto, vamos deixá-lo ter a fantasia do herói, por exemplo, mas não precisamos comprar todos os itens da coleção, como os detentores da marca esperam que façamos.

Vamos cozinhar comida saudável, muito saudável, mas se num outro local eles quiserem experimentar aquela massa de batata congelada sorridente e cheia de aditivos, permita. Meu filho, por exemplo, provou e detestou. Nunca mais pediu. E se pedir, na sua casa não compre. Sem discursos inflamados. Apenas diga que você não acha muito saudável e que prefere fazer batata caseira.

Se eles querem sorvete, delícia, compre uma ou duas bolas. No máximo. Pule os horrendos buffets de sorvete, onde se coloca uma tonelada de sorvete, três de cobertura e custam uma fortuna. Uma ou duas bolas são suficiente para matar a larica de qualquer criança e eu garanto que depois de chupar eles não pedirão mais. Se eles insistirem na tranqueirada, você pode dizer com calma: "olha, é açúcar demais....se você quiser cobertura, coloque uma bola de sorvete a menos. Ou leve duas bolas, sem a cobertura." E deixe que eles resolvam e experimentem.

Se o menino quer a chuteira do ídolo, explique que quando o jogador é bom, ele faz gols até descalço. E compre uma chuteira que não custe uma renda familiar. Contudo, se o pedido insistir, sugira que ele peça uma de marca no Natal (e compre a marca que você escolher, com um preço que acha razoável pagar).

Com o celular é a mesma coisa: equilíbrio. "Não, porque você ainda não precisa. Quando precisar, terá um." E ignore a choradeira. Mas se a tia der um aparelho usado pra eles, deixe. Ache legal, compartilhe do entusiasmo do seu pequeno. E observe que os créditos terão que ser colocados da mesada deles (tem crédito de 6 reais). Não dou nem um mês pro aparelho acabar esquecido num canto. Neste caso,  não diga nada. Não dê uma de superior afirmando que já sabia que aquilo ia acontecer. Você sabia, mas eles, não. E o fato deles esquecerem o aparelho confirma que eles descobriram, através da experiência, o mesmo que você.

E compense toda essa vida desconsumida, com outras coisas. Afeto, refeições em família (a comidinha fica ainda mais gostosa), carinho, aceitação, estímulo e muita gratidão pelas coisas que não se compra (esse é assunto pra outro texto).

Nesse cenário todo, o que mais fará diferença é a sua postura de vida. De novo, antes de investir tanto na felicidade do seu filho, reflita em como está a sua. E viva com muita tranquilidade, de acordo com os princípios que te preenchem e te mantém feliz. Seja Botox ou Buda. Seu filho terá vergonha de andar no carro velho, se perceber que você também se sente diminuído por isso. Mas se você não ligar, quando a queixa vier, use de bom humor: "O carro do papai é como a nave do Hans Solo, do Star Wars. É véinho mas sempre chega lá." Disse isso uma vez, eles caíram na gargalhada e nunca mais reclamaram do golzinho 97 que temos na garagem.

Equilíbrio, bom humor e não dar tanta bola pra choradeira de criança. Como dizia minha avó: "é lágrima de crocodilo". Se você está firme nas suas convicções, eles logo aceitam. Criança sabe como ninguém até onde dá pra insistir. Se temos convicção que felicidade está em "ser"e não em "ter", sejamos. Sem angústia pelos "nãos" que teremos que distribuir pelo caminho.

Sempre, sempre cientes de que, por mais que façamos, exemplifiquemos e controlemos, na hora certa, eles vão seguir o próprio rumo. De Havaiana ou de Ferrari, a jornada, a partir dali, será deles.

2.2.11

Criando filhos felizes.



Criando filhos felizes.

Todos nós queremos "apenas" que nossos filhos sejam felizes. Meta ambiciosa essa. Se desejássemos "apenas" que eles fossem astronautas da Nasa, presidentes da república ou o novo Lama que libertará o Tibet, teríamos uma chance maior do nosso desejo se realizar.

Mas somos ocidentais ambiciosos e a tal felicidade é nossa meta. Para isso preparamos nossos filhos desde muito pequeninos para conquistá-la. Como? Com uma intensa fomação material e intelectual.

Melhores escolas, estímulo à leitura, boa alimentação, exercícios físicos, brinquedos - muitos brinquedos, informática, música, inglês, Danoninho e tudo o mais que a sociedade nos oferece e anuncia como a chave para um ser humano pleno e feliz.

Não precisamos olhar além de nossos próprios muros para ver que há algo de bem errado com esta fórmula. Somos adultos com conforto material, saúde, carreira, família, carro do ano, pílulas para sorrir, trepar e dormir, aipédis, aipódes, aifones e, ai meu Deus, quem é feliz?

Estudos científicos sobre a felicidade apontam uma direção bem oposta a isso tudo. Estatísticas entre os seres humanos que se afirmam felizes indicam alguns padrões de influências positivas no estado de contentamento: gratidão, afeto familiar, espiritualização (o Google tem centenas de páginas sobre a ciência da felicidade).

Existem fatores que pioram: excesso de opções, por exemplo - você fica sempre se questionando se deveria ter feito outra escolha e se impede de curtir o que escolheu. (Pobres criancinhas de hoje! Quando só tínhamos Tubaína uma vez por mês, eramos felizes e não sabíamos.)

E há fatores que interferem pouco: conquistas materiais. A não ser que você seja um dos donos das Casas Bahia, o novo equipamento eletrônico lhe trará uma felicidade temporária. Em pouco tempo você estará desejando um novo bem para adquirir. Isso acontece inclusive com ganhadores da loteria que, cerca de um ano depois, voltam a ter o mesmo índice de contentamento com a vida que tinham antes de ficar milionários. 

Já para os orientais, felicidade não é meta. Não é conquista. Não é segredo. Felicidade é um estado de espírito que se cultiva todos os dias, assim como se come, se dorme, se respira. Por lá não se fica feliz. Se é feliz.

Portanto se realmente queremos criar filhos mais contentes com a vida, iniciemos revisando nossos próprios conceitos de felicidade. 

Diminuir nossas expectativas e esforços pode ser um começo.