27.11.10

Procuro uma escola que dê jeito no meu filho.


Procuro uma escola que dê jeito no meu filho.

Um equívoco muito comum é a escolha da escola ser feita para "dar jeito" na criança. Canso de ouvir mães justificarem a matrícula em uma instituição linha dura porque o filho precisa de mais disciplina.

E junto com essa explicação, praticamente todas se queixam que vivem sendo chamadas pela escola por conta da rebeldia ou da indisciplina dessas crianças. Bilhetes, advertências, birras, malcriações, bronca em reuniões de pais, acabam virando parte do pacote.

Conclusão que se chega: o filho é mesmo impossível.

Leda me conta que, cansada de tanto ser chamada, avisou a escola: "Não me chamem mais. Ele é assim, vocês conhecem, resolvam." E assim o problema deixou de existir. Apenas para ela, é claro.

Rafael, o filho da Leda, é um menino extremamente ativo, desses com o bicho carpinteiro. Ao mesmo tempo, é um menino curioso, arrojado e explorador. Se mete no meio do mato, trepa em árvore, faz clubinho e passa o tempo todo na rua inventando coisas.

O erro de Leda foi escolher a escola focando nos defeitos do filho ao invés das qualidades. Podia ter escolhido uma escola que valorizasse o lado curioso dele. Uma escola que não o obrigasse a ficar o tempo todo sentado, que o deixasse pesquisar, explorar e contribuir com a dinâmica da classe com o que tem de melhor. Uma escola que o fizesse se sentir aceito e útil, do jeito que ele é.

Na escola linha dura que ele foi matriculado, acabou rotulado como o aprontador. E, como todos os rótulos, Rafael assumiu integralmente o papel. Entope vasos sanitários, briga, joga coisas no telhado. E dá-lhe sanções para ver se o menino se enquadra e fica quieto na carteira.

Já Tamires, a filha da Carla, não tem problemas comportamentais. Mas não é do tipo acadêmico. É distraída, prefere praticar esportes e participar de atividades lúdicas, do que ficar debruçada em cadernos. Para dar "jeito" nisso, a mãe optou por uma escola que dá bastante matéria e tarefa.

Hoje surta com a dificuldade que é fazer a menina estudar. A menina, esperta como é, aproveita a fama negativa para demonstrar toda sua má vontade em casa e na sala de aula. Numa outra escola, mais estimulante e comedida com relação à quantidade de tarefa e de matéria, a menina talvez fosse outra criança e quem sabe até, se sentisse mais estimulada a aprender.

Que fique claro. Não estou defendendo aqui a educação livre e inconsequente, a tal "solta de mais" que os pais tanto temem. Crianças precisam de limites. Mas limites que sirvam para conduzir e não para limitar. E isso, bons educadores sabem fazer porque estudam para ser educadores e não militares.

A valorização dos nossos filhos, começa em casa. Da próxima vez que os problemas comportamentais deles nos tirarem o sono, vamos sacudir a cabeça e tentar focar naquilo que eles tem de melhor. E dali para frente, buscar resgatar a criança maravilhosa que está se perdendo em meio a tantas críticas.

A escola precisa ser nossa parceira neste resgate.

22.11.10

Jabá sem fins lucrativos - Caixa de Brincar





Jabá sem fins lucrativos - Caixa de Brincar

Adriana poderia ser como todas nós, mães que tentam, mas deu a sorte de ter o Paulão como filhote.

Paulão nasceu sem imunidade nenhuma (lembra do Menino na Bolha de Plástico?) e precisou se submeter a um transplante de medula óssea ainda bebê. Durante o longo e extremamente árduo processo, Adriana vestiu a capa, largou casa, carreira, vida própria e tudo o mais que costumamos levar na bagagem e lutou como uma leoa pela vida do filho.

Sairam dessa todos vivos, saudáveis, mas a Dri em especial desenvolveu um senso extremamente apurado para os momentos curtidos entre pais e filhos. Esteja onde estiver, nunca a vi desperdiçar um.

Desse dom que ela acabou adquirindo, veio uma idéia simples e muito criativa. Produzir kits de atividades para pais e filhos fazerem juntos. Nascia a Caixa de Brincar, nome que o próprio Paulo escolheu para as caixas que a mãe monta e testa sempre com ele antes de colocá-las a venda.

As Caixas são bem artesanais, montadas a mão, com o maior carinho. E não vem com nenhum brinquedo pronto. Só com coisas de fazer: bijuterias, panetone, massinha caseira, salãozinho de beleza, ferramentas (de verdade!), pipas, hortas etc. A Dri vai inventado e testando. Já produziu até uma Caixa de Fazer Livros em Casa e outra de Texturas (com deliciosos carimbos feitos de aniz).

Para conhecer mais sobre a história da Dri e do Paulo, o endereço do blog do Paulão é http://paulovinha.blogspot.com.

O endereço do site da Caixa de Brincar é www.caixadebrincar.com.br A Adriana também monta caixas personalizadas e lembranças não açucaradas para festas infantis.

13.11.10

"O filho da minha amiga lê melhor que o meu."


"O filho da minha amiga lê melhor que o meu."

A armadilha das comparações no processo de alfabetização.



BARALIO (baralho), PRAPO (trapo), QUIEJU (queijo), LEFATE (elefante).

Juju tem 7 anos e meio. Estas foram suas anotações em uma ficha de jogo de tabuleiro preenchida com uma letrona maiúscula, meio torta e imprecisa. Juju é meu terceiro filho e o último deles a passar pelo processo de alfabetização.

Eu poderia cair no equívoco comum de compará-lo a outras crianças. Felizmente, a maternidade múltipla me concedeu o bônus extra de compreender que cada filho tem seu processo único de aprender a ler e a escrever. Essas comparações servem apenas para nos encher de orgulho. Ou de angústia. E não ajudam em nada a criança.

Tem criança interessada desde muito cedo em aprender letras e números. E bem pequenas começam a aproximação com a alfabetização. Outras não estão nem aí para esse código estranho e demoram muito mais pra serem engajadas no processo de aprendizagem. Tem criança que prefere correr e pular do que sentar e escrever. Outras são tão criativas que, quando se vê, fizeram um lindo desenho e nenhuma letra sequer. Cada uma tem seu ritmo, seu dom, sua habilidade e personalidade.

Cabe ao educador identificar o processo de cada uma e conduzi-las respeitando o ritmo individual. E acalmar eventuais pais que aparecem chorando com uma cebola escrita com s.

Aí, fica a pergunta: se não dá pra comparar, como avaliar? A melhor avaliação é manter um registro da evolução da própria criança. Algumas escolas fazem portifólios onde vão arquivando alguns trabalhos ao longo do ano. Se a escola do seu filho não faz esse registro, os pais podem fazê-lo guardando alguns trabalhos em ordem cronológica. Ao avaliarmos estas pastas, conseguimos dimensionar o ponto de partida daquele pequeno indivíduo no início do ano e até onde ele avançou ao término do período. Assim a comparação é feita com ele mesmo. É um sistema muito eficiente, inclusive, para avaliarmos a escola. Ao longo do tempo, a criança tem, obrigatoriamente, que apresentar progressos. Se os trabalhos de março pouco se diferenciarem dos de agosto, por exemplo, acenda o sinal de alerta e procure saber o que está havendo. Vale ressaltar: não se trata de nota e, neste caso, comparar a evolução das notas não ajudará em nada. Ignore-as e foque no conteúdo.

Tenho uma amiga que notou que o filho, de 8 anos, matriculado em escola particular de uma grande rede, passou um ano sem evoluir em quase nada. E no boletim só vinha notão. Ao término do ano, ela o mudou de escola e houve uma retomada significativa no desenvolvimento do menino. Sinal que o problema não era dele e sim da instituição.

Voltando ao Juju, matriculado em uma escola construtivista, ele concluiu o infantil sem saber ler ou escrever (mas pleno de outras habilidades importantíssimas). Algumas crianças da classe dele já liam com fluência. Nunca me preocupei pois tinha clara noção de que é apenas ao final do terceiro ano do fundamental que se encerra o ciclo inicial da alfabetização. O Juju tinha tempo e eu e meu marido decidimos respeitá-lo. No primeiro ano, seus trabalhos iniciais mostram rabiscos e bolinhas ao invés de letras, o que é normal, mas o comportamento da pessoinha indicava um total desinteresse em sair disso. Tivemos sorte dele ter uma professora experiente, calma e segura, que já tinha sido a mestra de outro filho meu (e cujo processo de alfabetização foi completamente diferente do irmão). Conversamos e ela nos orientou sobre alguns procedimentos para ajudá-lo em casa, na hora da tarefa (que nessa escola...Aleluia Senhor!...dura 10 minutos pra ser realizada).

Aos poucos, e tortura free, a ficha foi caindo e Juju está terminando o ano escrevendo em maiúscula como descrevi no primeiro parágrafo. Também já lê, espontâneamente, palavras soltas em jornais, embalagens, fachadas de loja e está muito mais interessado. Comparado ao que ele sabia no início do ano, é uma evolução imensa! Estou muito feliz e tranquila com as conquistas do meu pimpolho. Mesmo sabendo que na mesma sala já tem criança escrevendo em cursiva e lendo livrinhos. Sei que logo, logo, inevitavelmente, Juju chegará lá. E nem ele, nem nós, vamos sofrer durante a jornada.

9.11.10

Estão fumando droga na casa do vovô.


Estão fumando droga na casa do vovô.

As crianças entram na sala aos berros:

"Mãe! Achamos droga na casa do vovô!"

A mãe, que descansa no sofá, abre só um dos olhos. O suficiente para ver um baseado na palma da mão de um deles.

"Droga, mãe! Droga! Alguém tá fumando droga na casa do vovô!"

A mãe dispara com aparente calma:

"Isso parece droga, mas não é. É o cigarro caipira da fantasia da tia Lola. Sabe a festa caipira da chácara? Ela vai fantasiada e todo caipira tem um cigarrinho destes na orelha."

As crianças olham incrédulas pra mãe. De repente, disparam atrás da tia Lola.

"Tia Lola, tia Lola, achamos droga na casa do vovô! Droga, tia Lola! Alguém tá fumando droga aqui!"

Na frente do computador, tia Lola segura a respiração diante da mãozinha gorducha que acena com um baseado. Atrás deles vem sua irmã, a mãe das crianças, repetindo a explicação da festa caipira. Uma sobrancelha erguida e a história se confirma.

As crianças entregam o cigarrinho pra tia e se afastam mudas. Aparentemente, frustradíssimas pelo insucesso da descoberta.

Mais tarde, as irmãs se encontram na varanda.

"Você acha que eles acreditaram?"

"Só se tiverem herdado a retardice da mãe deles...fala sério! Olha, eu não tenho nada com a sua vida. Você é maior, responsável e blá, blá, blá..., mas vê se na próxima arruma uma desculpa melhor. Fantasia de caipira, na minha idade?! Tá me achando com cara de Dona Marisa?"

E as duas quase caem da varanda de tanto rir.