31.10.10

Salvando o Debate




Salvando o Debate

Candidato Serra; "A minha primeira pergunta vai para a candidata Dilma e é sobre as propostas dela para a educação."

Candidata Dilma: "Se eleita, vou fazer a transposição das nossas crianças para um país com excelentes escolas públicas, a Finlândia. Vou fazer isso abrindo uma grande passagem no oceano Atlântico."

Candidato Serra: "Isso não funcionaria, além de ser caro e anti-ecológico. No meu governo, eu farei melhor. Transformarei todos os nossos brasileirinhos em Finlandeses, através de um grande programa de colocação de ar condicionado nas escolas, da quebra da patente de descolorantes capilares e da distribuição de lentes de contato azul."

Candidata Dilma: "O candidato demonstra que não conhece os desejos do brasileiro. Brasileiro não quer parar de suar, ter cabelo louro e olho azul. Brasileiro quer ser Hexa! No meu governo farei a gestão participativa da Seleção Brasileira e todos os brasileiros poderão ser técnicos. Direto do boteco, qualquer um poderá opinar, escalar e até suspender jogadores mal educados."

Candidato Serra: "Bem se vê que a senhora não entende nada de futebol. Muito menos dos desejos dos brasileiros. O maior desejo do brasileiro é peito e bunda. Pois no meu governo criarei o silicone genérico, para que toda brasileira possa fazer rebolation sem fazer feio."

Candidata Dilma: "Quero deixar claro que sou contra essas intervenções que desvalorizam a mulher e a transformam em objeto. As mulheres de hoje não precisam de rebolation para serem valorizadas. Precisam é de mais galãs na novela das oito. Vocês repararam como os galãs estão em extinção? Eu farei um projeto de preservação dos galãs, inclusive com reprodução em cativeiro, através do apoio voluntário de qualquer brasileira, com ou sem rebolation, que queira participar!"

Candidato Serra: "Novamente a senhora apela para o populismo chulo. Novela, galã, isso é coisa do passado. O Brasil precisa se modernizar. O meu governo terá um programa de embelezamento geral da população através do Vale-Salão de Beleza, similar ao Vale-Alimentação que criei quando fui ministro. Também farei o Vale-Daslu para fomentar o mercado de luxo. E o Vale-Desodorante que será distribuído junto com o Vale-Transporte."

Candidata Dilma: "É tanto vale que nem sei mais qual era o assunto que estávamos discutindo. Eu vou simplificar. Reunirei tudo num grande programa chamado Vale Tudo."

...

Qualquer coisa e, sem dúvida, o espetáculo das eleições desse ano teria sido menos constrangedor. Qualquer coisa.



22.10.10

Sutis diferenças.


Sutis diferenças.

Na casa da praia, o filho de 3 anos se aproxima meio de esgueio com o vidro de Berotec na mão. “Bebi isso.”

A mãe surta. O filho explica que achou na mala e bebeu. Ela liga pro pediatra, que manda fazê-lo vomitar e correr para o hospital. Recomenda água com sal pra provocar vômito.

A mãe prefere meter o dedo na guela e virar o moleque de ponta cabeça. O vômito vem rápido. Mais rápido ainda eles chegam ao pronto-socorro. Marido, mulher e 3 filhos.

O médico faz cara de surpreso. Já apareceram vários bebedores por ali. De Berotec era o primeiro. Tira os batimentos cardíacos, coça o queixo, observa. Como tinham feito vomitar, achava que o melhor era observar. Manda-os de volta pra casa com a missão de controlar os batimentos cardíacos do menino. Se subir até 140 ou 150 deveriam voltar ao hospital.

O marido sai do PS aliviado. “Vamos pra praia?”

A mãe olha espantada. O marido explica que observar pode ser em qualquer lugar. Na praia, pelo menos ia ser mais divertido.

No banco de trás, a mãe tira a pulsação do menino 3 vezes até chegar em Itamambuca. Os batimentos começavam a subir.

Eles se instalam num canto calmo. Os meninos correm pro mar. Ela senta tensa. O pai procura uma cerveja e aconselha: “Relaxa, ele tá bem. Olha como brinca. Não vai acontecer nada.”

A mãe levanta pra pegar os batimentos. 130, 136, 140, 148... “vão bora pro hospital.”

O marido a acalma. “Não precisa...disso aí não passa. O batimento subiu porque ele está se movimentando. E você deve estar contando errado. Fica fria. Trouxe amendoim?”

A mãe não sabe o que faz. Tira o pulso do menino de novo. 148...148...148...140...135...128...120...

Ela senta na cadeira aliviada. Dá um gole na cerveja do marido. No guarda sol ao lado uns surfistas acendem um baseado.

Tem vontade de ir lá dar uns conselhos praqueles mocinhos: "Usem sempre camisinha."

15.10.10

Tarefas e provas abusivas. Seu filho é vítima?



Tarefas e provas abusivas. Seu filho é vítima?

Martim estuda numa escola que passa uma grande quantidade de tarefa todos os dias. O tempo necessário para resolvê-la é, em média, 3 horas diárias. Se ele se dedicar. Se não se dedicar, a mãe reza o terço, coloca as barbas de molho e cancela tudo que tem pra fazer no restante do dia. Além disso, ele tem que ler (a pulso) um livro de cerca de 100 páginas todo mês. E fazer provas periódicas, com capítulos e mais capítulos para estudar, fora as anotações do caderno e os materiais paradidáticos.

Beatriz faz duas provas semanais. E, semestralmente, um provão com 120 perguntas. Ultimamente deu pra não se dedicar muito e este fato levou a coordenadora a classificá-la como "portadora de uma auto-estima alta demais". Segundo o diagnóstico sui generis da profissional, a garota não liga para o desempenho e como isso não interfere na sua vida social, ela não se dedica como deveria.

Martim tem 10 anos e Bia tem 9. São crianças na mais tenra idade sendo submetidas a um volume de informação e cobrança que poucos adultos aceitariam. E, aparentemente, esse tem sido um fato generalizado em muitas escolas.

Esta semana soube de uma instituição de ensino que faz simulados ao sábado, no mais fiel estilo cursinho pré-vestibular. Para crianças a partir de 7 anos! A mãe justifica: é para eles irem se acostumando. Com o massacre da serra elétrica, só pode ser.

Outra passa cópia rotineiramente para que as crianças se acostumem a escrever bastante! Se funcionasse todos os copiadores de livros dos conventos da Idade Média teriam virado Camões.

Gente, pára! Infância só se tem uma. E passa rápido. É absurdo acharem que um menino ou uma menina terá mais vantagem na vida porque passou a infância sendo forçado a se debruçar sobre livros e cadernos. Muito pelo contrário. Essas crianças dão sinais claros de cansaço e desânimo. Se isso já acontece aos 9 anos, imagine aos 20!

Se você desconfia que o volume de tarefa ou de provas da escola do seu filho está excessivo ou é motivo para ele estar cansado, desatento ou desmotivado, procure a escola. Provavelmente eles vão arrumar mil justificativas e talvez seu filho receba um diagnóstico tão criativo como o que deram para a menina Bia. Não engula. Insista. Tarefa não tem que ser excessiva. Nem chata. E criança não precisa de fazer prova toda semana para ser corretamente avaliada. Simulado então, nem pensar! Eu mesma teria que ser amarrada a uma cadeira pra fazer uma prova com 120 perguntas.

A quantidade de tarefa tem que ser adequada à faixa etária. Respeitando sempre o nível de concentração que na infância ainda não está totalmente desenvolvido. As avaliações idem.

Mais que isso é incompentecência educacional e que me perdoem escolas que arrotam pedagogês e que na verdade torturam crianças (e os pais por tabela) com suas práticas obsoletas de moldar a disciplina via uma enorme quantidade de tarefas.

Criança não é burro de carga.

Publiquei há algum tempo um texto mais poético relacionado a esse tema. Caso se interesse em ler, clique aqui.

7.10.10

Que escola você busca para seu filho?



Que escola você busca para seu filho?

Existem escolas onde Eva aprende a ler vendo a uva. Em outras, Eva caça formigas, faz um formigário, observa, registra e quando vê já está lendo e escrevendo.

Existem escolas onde as crianças aprendem arte pintando figuras xerocadas. Noutras, escovas, vassourinhas e rodinhos viram pincéis que, mergulhados em tinta, cobrem o chão, paredes e tudo o mais que a imaginação, e não o tamanho do papel, mandar.

Existem escolas que dividem as turmas em fortes, médios e sem chance. Noutras, alunos, funcionários e educadores são colocados no mesmo espaço, para mostrar que todos são igualmente importantes e que o calor humano é muito mais gostoso que a frieza da competição.

Tem escolas onde as crianças pesquisam a vida do ilustríssimo Fulano de Tal. Noutras, elas também pesquisam sobre o Profeta Gentileza e aprendem que não adianta ser ilustre se não se sabe ser gentil.

Tem escolas que ensinam a andar na linha pontilhada para despertar a disciplina. Outra botam os pequenos pra andar sobre plástico bolha para despertar os sentidos.

Tem escolas monitoradas por câmera e bedéu. Noutras, olhos surreais de Salvador Dali espiam através dos vitrais de estranhas catedrais de papel.

Tem escolas brancas, limpas e imaculadas. E escolas onde os alunos mergulham sem medo na sopa da vida para descobrir que sem amebas, fungos e bactérias não há digestão. Não há gente. Não há Terra. Não há vida.

Tem escolas onde se aprende que o leite vem da vaca. Noutras, estuda-se a vida do homem do campo, do homem da cidade e que um depende do outro para que o leite que sai da teta da vaca chegue na caixinha de achocolatado.

Tem escolas cheias de certezas absolutas. E outras cuja única certeza é seguir experimentando.

Eu sei que escola quero para meus filhos. E você?

P.S: escrevi este texto em homenagem à Feira do Conhecimento da Escola Moppe, de São José dos Campos. Quem visitou sabe que não há exagero nas minhas palavras. Nem jabá para que eu as publique. A Feira deste ano foi muito grande, dinâmica e peço desculpas aos espaços que não couberam neste texto. A todos os educadores, profissionais e diretores da escola, meu emocionado agradecimento por acreditarem que é possível fazer um ensino diferente.

4.10.10

Princesas.



Princesas.

Era uma vez, Dilma e Marina, duas princesinhas que viviam sob a proteção do senhor seu pai, o Rei Lula. Um dia, a princesa Dilma foi reclamar com o Papi que a princesa Marina estava embaçando a construção do lago no jardim do palácio.

- Pô, Papi...só porque vai afundar umas árvores e incomodar uns bagres...manda ela largar de ser chata, Papi!

O Papi, que nunca escondeu quem era sua favorita, deu a maior bronca na Marina, que magoou, botou meia dúzia de saias até o joelho na trouxinha e abandonou o palácio.

Depois disso o Papi chamou Dilma e disse com sua voz grossa de rei:

- Dilminha, venha cá minha filha. Eu estou ficando velho e preciso de alguém pra cuidar do reino, no meu lugar. Minha escolhida é você.

Dilma deu pulinhos de alegria, mas como era uma mocinha séria, logo perguntou:

- Mas, Papi...quem vai cuidar da nossa casa? O palácio não pode ficar abandonado!

- Chama Erenice, a criada.

Dilma ficou feliz com o sábio conselho de seu pai. Erenice, a criada, era seu braço direito e fazia tudo do jeitinho que a patroa gostava.

Agora Dilma podia sair tranquila em campanha pelo reino. Antes de partir, um último real conselho:

- Filha, procura aquele feiticeiro japa que deu jeito na Marta. Ele vai te deixar uma belezura!

A magia do feiticeiro era poderosa. Dilma ficou irreconhecível. E durante a campanha o Papi teve de esclarecer:

- Companheiros, essa é a princesa que indico para ficar no meu lugar. Como assim "quem é ela?". É a Dilminha, pô! A preferida do meu castelo. A única com culhão pra botar ordem nesta p....de reino.

O Rei Lula era famoso por falar a linguagem do povo, para horror de uma ou outra súdita cansadinha.

E quando tudo parecia um céu vermelho e estrelado para princesa repaginada, eis que Marina ressurge das cinzas do desmatamento da floresta amazônica.

-Marina! Não acredito que você vai me trair.

- Quem me traiu foi você, Papi! E eu também tenho direito à sucessão do reino!

Dilma começou a chorar, mas o Papi a acalmou.

- Filha, quem liga pra meia dúzia de bagres? Se acalme, princesa, que este reino está dominado. O povão tá tudo comigo. Até pagodeiro eu consigo eleger pra senador.

E prosseguiram em campanha, certos da vitória que já era festejada por companheiros de todo o reino.

O que eles não sabiam, era que no palácio as coisas não iam tão pianinho como Dilma gostava. Erenice tinha um filho, um menino mimado e ganancioso, que logo montou um esquema de propina para o fornecimento de salsichas, cachaça e farinha para a cozinha real.

O esquema estava indo muito bem, obrigado. Até que um alcaguete contou pra imprensa, que viu aí a deixa pra puxar o tapete persa da real princesa.

Os súditos que liam uma tal revista Veja ficaram muito desapontados. Principalmente os que estavam fora do esquema. E o muxoxo foi geral.

A pobre princesinha esperneou tanto que quase estragou o novo penteado:

- Pessoal, mas o que eu tenho a ver com o filho da criada?!

E o papi emendou:

- Erenice pisou na bola. Podia ter sido a funcionária do mês, com foto na cozinha e tudo. A imprensa também pisou na bola. Afinal, como dizia minha pobre mãezinha analfabeta: roupa suja se lava na casa civil. E não em capa de jornal.

Os dias foram passando, a eleição se aproximando. Os súditos foram às urnas e, para surpresa de todos, tinha mais gente preocupada com os bagres e com os trambiques do filho da criada do que supunham os marqueteiros reais.

O final dessa história é que Dilminha não se elegeu no primeiro turno. Agora vai ter que derreter a maquiagem em cima de palanque por mais um mês, numa disputa corpo a corpo com outro inimigo do palácio, o Sr. Burns, patrão do Homer Simpson.

Nesta altura, o papi senta-se no trono e avalia: uma criada e uma amante de árvores atrapalharam o caminho estrelado de minha escolhida. Uma esposa de olho roxo derruba meu candidato favorito ao senado. Quer saber, quem manda eu me meter com a mulherada. Na próxima eleicão, eu só quero príncipes! Alguém aí liga pro Aécio que eu preciso trocar uma idéia com aquele rapaz.