30.8.10

Esse não é o meu filho.



Esse não é o meu filho.

O menino de 7 anos entrega pra mãe o bilhete da professora. Os olhinhos repletos de medo e lágrimas.

A mãe, empregada doméstica que estudou só até o ginásio, pára de fazer a sopa para ler: "Mãe, seu filho é desatento, apático, desmotivado e irmão de autista. Favor encaminá-lo a um especialista."

A mãe senta-se na mesinha da cozinha. Agora é ela quem está engasgada e com vontade de chorar. Olha para o menino assustado. Chama-o para perto de si.

"Amanhã, vou na escola falar com sua professora. Vou dizer para ela que vamos rasgar esse bilhete porque ela errou de criança. Eu não conheço este menino que ela escreveu aqui. Este não é o meu filho. A única coisa que ela acertou foi sobre seu irmão. Mas sobre você...tá tudo errado. Vou falar para ela prestar mais atenção e ver que você não é nada disso."

O menino dá uma risada gostosa: "Jura, mãe? Você vai falar pra ela que não sou eu?! Rá, rá...nós vamos mostrar pra ela, né, mãe!"

"Claro que vamos. Apático, desatento...nã, não. Eu não conheço essa criança. Amanhã, você senta bonitinho na sala de aula e mostra para ela que esse menino não é você. Agora, come sua sopa."

Abraçou o menino, tirou o cabelo da sua testa e depois de lhe servir um prato de sopa quentinha, foi espremer limão para fazer limonada.


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MANIFESTAMOS PELO ATIVISMO ANÔNIMO E INCANSÁVEL DAS MÃES. MÃES QUE BRIGAM POR UMA ESCOLA MELHOR, MAIS HUMANA E SIGNIFICATIVA; PÚBLICA OU PRIVADA.

Manifesto pelas Mães. www.grupocria.com.br

24.8.10

Amamentar não é um ato de amor - parte 2.



Na semana da amamentação, que aconteceu no início de agosto, o texto "Amamentar não é um ato de amor", voltou a ser tema de algumas discussões na rede.

Agradeço a todas a mães, como a Pérola - do Mamãe Antenada, a sensibilidade com que colocaram novamente em debate a ligação entre amamentar e amar.

Amamentar é um ato de amor? Claro que é. Assim como muitos outros. Ninar, acalentar, consolar, dar um banho gostoso, fazer shantala, preparar uma comidinha caseira, tocar, proteger...todos são atos de amor. Mas nenhum deles tem hoje a mesma dimensão que a amamentação ocupa na mente e no coração das mães da nossa sociedade.

Por isso mesmo, a Vera Pileggi Vinha, minha mãe, quando estava nos últimos anos de uma vida dedicada ao estímulo ao aleitamento, foi contra usar este apelo como tema das campanhas pró-amamentação.

Por quê? Porque ela identificou que este apelo tinha dois efeitos devastadores: enchia de ansiedade as mulheres inexperientes de uma sociedade cada vez mais distante da naturalidade de se dar o peito. E torturava as mães que, por algum motivo, não conseguiam amamentar.

Sua última cruzada foi colocar-se na contramão deste tipo de apelo e afirmar que amor pode ser dado de inúmeras formas. Pais, avós, mães adotivas transbordam amor, sem que jorre sequer uma gota de leite de seus peitos. Garantir uma maternidade mais "amorosa" para quem é bem sucedida em amamentar era, no ponto de vista dela, injusto e cruel com as demais.

Seu objetivo era acalmar as mães e mostrar aos especialistas e comunicadores que não se aleita com tranquilidade quando se carrega no peito o peso de amar a mais ou a menos seu filhote.

Amamentar é optar pelo melhor alimento, dizia ela. Amar é outra história. E misturar as coisas é complicar o que a natureza fez simples.

Concluo com 2 exemplos que vivenciei nos últimos anos:

A primeira mãe, psicóloga, sem parentes na cidade, chegou na minha casa arrasada. Seu bico rachou de uma maneira tão dolorida que tanto o pediatra como as conselheiras do Projeto Casulo, de São José dos Campos (excelente grupo de estímulo ao aleitamento) recomendaram que ela parasse de amamentar por uns dias, até o bico cicatrizar. Quando ela voltou a amamentar, cerca de 2 semanas depois, o bebê passou a recusar seu peito. Quando ela me procurou, estava ferida na alma. Se sentia rejeitada, impedida de dar-lhe amor, culpando-se por não ter conseguido aguentar a dor e manter o bebê no peito naquelas duas semanas. Cada tentativa de dar o peito virava um embate, com o bebê e a mãe nervosos, irritados e ambos chorando muito. Torturada, a mãe questionava o desenvolvimento afetivo, a questão da oralidade, da troca amorosa etc. A situação emocional evoluiu a um ponto que o ginecologista prescreveu-lhe antidepressivos. E o bebê acabou completamente desmamado aos 2 meses.

A segunda mãe, empregada doméstica, tem a sorte de carregar o DNA baiano de ir levando a vida da forma com que ela se apresenta. Seu bebê convulsionou no berçário e acabou ficando internado em observação também por 2 semanas, sendo alimentado com mamadeira. Mesmo assim, essa mãe conseguiu amamentar seu filho até 1 ano. Fiquei curiosa e quis saber como ela fez para introduzir o aleitamento, sozinha em casa, 15 dias depois do parto. "Ué, se ele não mamasse ia morrer de fome. No começo ele não queria. Mas eu insisti, insisti, até ele pegar. Chorava, eu punha no peito...não tinha dinheiro pra comprar leite, não! Uma hora ele entendeu e pegou." E ri, tranquila.

E vocês, queridos leitores e fãs do aleitamento, também entenderam?

Sugestão de leitura:

Debate sobre a amamentação no grupo Cria


"Manifestamos pelo direito de amamentar a cria, sem ser pressionada por profissionais da saúde mal formados ou parentes bem intencionados, a substituir por mamadeira, o alimento que só o seu peito pode dar." Assine!
www.grupocria.com.br

18.8.10

Escola emburrece.


Escola emburrece.

O uso das marcas da Coca-Cola, McDonald's e Objetivo nas apostilas de uma escola cara de São Paulo, acendeu recentemente o discurso sobre o estímulo ao consumismo na sala de aula.

Segundo a matéria da Folha Online, os educadores envolvidos foram logo sacando o argumento padrão nº 1 contra pais que questionam: "não se pode criar um filho numa redoma". Como se estudar numa escola cara, recheada de tênis de marcas, aipodes, aifones, aimeubolso e aiminhasantapaciência, fosse mantê-los numa bolha anticonsumo. Querer que, ao menos no material didático, marcas não fiquem desfilando na frente das crianças é ser superprotetor? Me poupem.

Mas vamos voltar para o conteúdo da apostila. Vou ser sincera: não me preocupei tanto com o apelo consumista que, obviamente, está presente de forma vergonhosa na atividade. O que me chocou foi a pobreza do exercício! Os pais pagam mil reais por mês e a escola tem a cara de pau de dar um exercício daquele nível gráfico e intelectual para as crianças?!

Lamentável, em todos os sentidos. Se o objetivo era estimular as associações, apostiladores, olhem ao redor: o mundo é muito mais que ligar o logo da Coca a uma latinha!

E, o pior, é pra educação infantil! Estamos pagando pra que nossos filhos pequeninos sentem-se em uma cadeira, abram uma apostila e relacionem lanchonete com McDonalds! É tão pouco, tão limitante! Melhor, muito melhor é deixá-los num parque, livres pra associar céu nublado com chuva. Chuva com enxurrada. Enxurrada com barquinhos de papel. Barquinhos de papel com jornal. Jornal com leitura. Leitura com aprendizado. E aprendizado com afaste Ó Senhor o cérebro do meu filho das apostilas que ele não lhes pertence!

Meus parabéns pra mãe que questionou a escola! Temos mesmo que questionar. Questionar muito e não engolir o argumento da redoma. Na bolha vive quem acha que um exercício daquele nível é educação de qualidade.

10.8.10

Meu pai quer plantar árvores.


Meu pai quer plantar árvores.

Meu pai tem 74 anos e aposentou-se recentemente. Poderia, com louvor, calçar o chinelo e esperar na sombra o bondão passar.

Mas quem o conhece sabe que isso dificilmente aconteceria. Este homem que passou a vida toda na urbanidade, resolveu plantar árvores. Não uma ou duas. Hectares de árvores.

No momento, procura terras para começar sua plantação de Guanandi. Uma árvore de lei, considerada em extinção, protegida desde os primórdios pela Coroa portuguesa e que leva uns 18 anos pra dar algum retorno ao plantador.

"Pai, tem certeza? É nisso mesmo que você quer se meter?"

"Filha, certeza absoluta." Ele responde com o entusiasmo de um surfista que descobriu uma praia deserta de ondas perfeitas. "Eu me vejo caminhando por entre as alamedas de árvores. Quero encher pastos e pastos com Guanandi. E vou colocar um pouco de Acácias também, pra ter flores, abelhas e produzir mel."

Quando escuto o carinho com que meu pai fala de suas árvores, só me ocorre que ser filha desse homem é um privilégio. E um constante aprendizado.

Vá em frente, pai. Plante seus guanandis. Encha os pastos carecas do sul de Minas com sua alegria de viver, que essa, meu velho, não tem preço e a colheita é imediata.

P.S.: Ia publicar esse texto no Dia dos Pais, mas se o fizesse no prazo, meu pai duvidaria da autoria.

3.8.10

Desinibidos e desavisados - a exposição adolescente na rede.

Desinibidos e desavisados - a exposição adolescente na rede.

A avó me conta, com um riso meio constrangido, que o neto está fazendo sexo virtual. A namorada pede que ele tire a roupa diante da uébicam e diz que está toda "molhadinha".

O neto tem 14 anos e a namorada 13. E os pais não sabem direito o que fazer, além de instalar filtros no computador.

Não ia publicar este texto. Achei invasivo demais. Incômodo. De uma intimidade que não me pertence. Até que li, domingo passado, a matéria do Estadão sobre a preocupante onda de exposição adolescente na internet. E depois saiu matéria no Fantástico.



É um assunto que ainda vai dar muito o que falar. Porque é grave e o fenômeno só cresce.

Entendo a curiosidade dos adolescentes. Já fui uma e também tive vontade de tirar fotos nuas. Necessidade de me sentir sexy. Mas era num tempo em que nossas fotos, no máximo acabavam numa caixa de sapato no guarda roupa. Há uma cena hilária no filme "Doidas Demais", em que a Goldie Hawn e a Susan Sarandon, já senhoras, encontram uma caixa de polaróides cheias das fotos dos pênis de todos os astros do rock com quem transaram nos tempos em que eram jovens tietes profissionais.

Mas como tudo nessa década, a leveza se foi.

Na internet, essa necessidade de auto-afirmação sensual vira um espetáculo público, visto por milhares de pessoas. E nossos filhos, que entram cada vez mais cedo na categoria "adolescente", não entendem as consequências disso.

Sou mãe de 3 meninos, um deles, com idade próxima à do neto da avó constrangida. Tenho pensado muito no problema. E começo a achar que entregar um computador na mão de um menor, é como entregar um carro. Só com muita supervisão. Eles até sabem operar. Mas não tem noção da responsabilidade.

E como "maiores responsáveis" temos que ir além. A mãe do garoto, não leva o caso adiante, porque o garoto esgoela e diz que prefere morrer a passar essa vergonha.

Imagino se a vergonha de ter a mãe se "metendo" na história é maior ou menor que ter que contar para os pais que sua jovem namoradinha engravidou. Ou de ter a sala de aula toda rindo do seu pipi tortinho.

Se eu fosse a mãe do menino, além de botar limites, tirar o computador do quarto e fazer marcação cerrada, tocaria a campainha da casa da garota e contaria aos pais dela o que está acontecendo. Precisamos agir em bloco. Se o problema persistisse, levaria o caso a uma delegacia. Os menores de idade não podem se responsabilizar por seus atos. Mas pai e mãe são maiores e responsáveis legais pelos filhos. Perante a justiça e perante a vida.

Acho que o assunto também deve entrar para a pauta das escolas. Em casa temos o peso da moralidade excessiva (pelo menos é o que nossos filhos acham). Um educador teria um acesso mais fácil ao grupo. É tema para um rico debate em sala de aula. Com jovem falando para jovem.

Já começo a ter saudade do tempo em que me preocupava com a gordura trans no biscoito recheado.