31.5.10

Duas mães.


Duas mães.

O filho pequeno se queixou que havia uma regra na classe que o aborrecia muito. Não podia mais trocar lanche com o colega. E morria de vontade de fazê-lo. A mãe explica que se ele era contra uma regra, deveria manifestar sua opinião e tentar mudá-la.

Depois de discutirem estratégias, resolvem escrever um bilhete a ser encaminhado à professora. O pequeno dita, a mãe escreve. Ambos assinam.

O bilhete, chega às mãos da professora, que resolve lê-lo em voz alta para a turma. Percebe que a insatisfação com a tal da regra era generalizada. Faz uma votação e os baixinhos derrubam a proibição por unanimidade. A troca de lanche estava liberada, dentro de novas regras combinadas ali mesmo.

O menino volta para casa exultante. Tinha se manifestado e conseguido uma vitória significativa contra algo que discordava. Mãe e filho comemoram a conquista.




Na outra casa, a menina conta, feliz da vida, que agora podia trocar o lanche. A mãe se aborrece. É daquelas que fazem questão de uma alimentação saudável e tinha plena consciência que a filha, sempre que podia, burlava para descolar uma bolacha recheada, um salgadinho de pacote, um suco de caixinha bem açucarado.

A proibição da troca de lanche tinha sido perfeita para garantir que sua pequena comesse o bolo caseiro, a fruta, o pão integral que ela preparava com carinho. Agora vinha essa novidade!

Quis saber o que houve e a filha conta que um amiguinho levou um bilhete reclamando da regra e a professora mudou-a. A mãe se indigna, só podia ter sido obra de uma mãe adepta da porcaria. Vai atrás do nome da outra mãe e quando descobre não acredita! Logo ela, sua amiga, parceira de convicções e de trocas de receitas de biscoito de aveia!

Pega o telefone e liga para saber os motivos da outra. Elas conversam, cada uma explica seu lado. Chegam a um impasse. Tem que haver democracia, mas bolacha Trakinas, não dá! É caso de corte marcial. Dão risada.



Moral da história: em tempos de pais atuantes, não queira ser professora.

25.5.10

A culpa é da mãe.




A culpa é da mãe.

Quando eles são bebês e choram pedindo colo, a culpa é sua porque acostumou mal.

Quando eles comem errado, a culpa é sua por não ensinar a comer direito.

Quando saem mulambos, a culpa é sua porque não vê como as crianças estão vestidas.

Se saem arrumadinhos demais, a culpa é sua por não deixá-los a vontade.

Se vão mal na escola, a culpa é sua por não acompanhar.

Se xingam, você não bota limite.

Se sentem sono, faltou disciplina.

Se apareceu cárie, você deixou comer porcaria.

Se resfriou, é porque você deixa andar descalço.

Se dão piti, falta pulso.

Se a doença rescindiu, você não cuidou direito.

Se pegou o carro escondido é falta de impôr respeito.

Se engravidou a namorada, é porque você não colocou juizo no feijão.

Aí um dia, por incrível que pareça, eles sobrevivem a nós e crescem. Viram gente grande. Lindos, donos dos próprios narizes, funcionários de bancos, pais e mães de família, autores de novela.

E quando você acha que, finalmente, a vida começa a lhe fazer justiça e a reconhecer sua participação positiva no processo, eles resolvem deitar no divã e fazer análise.

E a culpa, será toda sua.

10.5.10

Maridos e presentes, a saga continua.


Para quem deu risada no ano passado, com o texto sobre presentes de marido para o Dia das Mães (os comentários são mais engraçados ainda), prepare-se pois, eles se superam a cada ano.


A primeira mãe, no seu Santo Dia, ganhou uma faca. Não era uma faca qualquer. Era uma faca artesanal, francesa. Meio faca, meio canivete. Excelente para uma réplica de Ramba chique. Olhou para o marido com cara de interrogação. Quem colecionava facas daquele tipo era ele. Depois de um tempo veio a explicação. Ele tinha se deparado com uma oferta incrível. Mas a loja só vendia o conjunto com 3 unidades. Ele arrumou alguém que comprasse 1 delas. A outra ficou com ele. E a terceira, ele deu pra ela no Dia das Mães.

Ela respirou fundo e aguardou. No Dia dos Pais, comprou-lhe uma panela de pressão. A amiga alertou:

- Ele vai te dar uma panelada na cabeça!

A resposta veio rápida:

- Ele que tente! Eu tenho uma faca!


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A segunda mãe já tinha ficado a ver navios no seu Dia. Esse ano, resolveu "lembrá-lo".

- O dia das mães é daqui a 2 semanas...já escolheu meu presente?

- O dia das mães é daqui a 1 semana...o que vou ganhar?

Na véspera, foi mais sutil:

- O dia das mães é amanhã...tá lembrado de alguma coisa?

O marido resolve sair com o filho mais velho. Volta 4 horas depois com um tênis poderoso no pé. Tinha um sorrisinho maroto nos lábios.

No dia seguinte, a rainha do lar acorda e fica esperando a homenagem.

Os filhos se aproximam, a abraçam e o marido entrega o presente. Ela abre. Era um brinde do shopping center, trocado com a nota fiscal do tênis que ele comprou pra ele.

A casa caiu. Ainda bem que não era uma faca.

3.5.10

Essa escola me pertence?


A apropriação do espaço escolar.

Outro dia, assisti a uma palestra de um arquiteto sobre a apropriação do espaço público pela população. Ele contava da experiência de Curitiba em revitalizar áreas degradadas, a partir do envolvimento dos moradores. O resumão da ópera é que só há uma ocupação sadia ou a revitalização de uma área, quando os moradores se apropriam do espaço, utilizam e zelam por ele.

O raciocínio é simples. Quando os habitantes se sentem "donos" de uma área, ou seja, quando entendem que aquele espaço também lhes pertence, a relação com a região muda completamente. Diminui a sujeira, o vandalismo, a criminalidade, aumenta a sociabilização, a organização e a qualidade de vida de todo o entorno.

O aprendizado da palestra me fez pensar no espaço escolar. Quantas vezes a escola falha em fazer o aluno se sentir pertencente à aquele espaço? E isso não se aplica apenas às escolas de periferia. São várias as escolas particulares que não estimulam e até dificultam esta relação.

Aqui na minha cidade há uma grande escola que ocupa prédio muito imponente. É cara. Lá alunos e professores são impedidos de afixar qualquer coisa nas paredes para manter o ambiente "clean" (a não ser nas reuniões, quando os mestres são orientados a escolher os melhores (!) trabalhos para exibir aos pais). Prioriza-se a arquitura em detrimento às pessoas. Se fosse um monumento histórico estaria ok, mas estamos falando de uma escola. E quer coisa mais fria e distante do que uma escola com paredes vazias?

Ou portas trancadas? Ou horários limitadores? Ou uma circulação restrita? E ainda, grades, cadeados, pedidos de permissão para tudo, diretoria com imagem de delegacia, coordenação que remete à fiscalização, cantinhos do castigo (leia-se "pensamento"), câmeras, alunos que são vistos como arrumadores de encrenca e não como parte viva e fundamental daquele ambiente. Um clima generalizado de "isso não pode".

Uma escola viva, orgânica, acolhedora, começa com um espaço que pertence a todos os envolvidos no processo educacional. E isso inclui alunos, pais, comunidade, funcionários e educadores.

Aulas fora da sala, pesquisas em bibliotecas, assembléias, alunos circulando, reciclando, fazendo compostagem, praticando esportes, tocando música, organizando uma rádio, jornais e murais, instalações de arte, horta, leitura no páteo, salas de aula com espaço para exibição da produção de todos, prateleiras abertas para livre acesso a livros e ao material didático, decoração temática das paredes, festas e feiras organizadas por todos, espaço para os trabalhos em grupo...enfim, assim como em uma cidade, há um número infinito de ações que podem ser promovidas para favorecer a ocupação.

Dá trabalho? Sim, como tudo na vida. Principalmente no início, mas logo o hábito de ocupar o espaço se forma, as regras se estabelecem e as pessoas aprendem que zelar pelo coletivo é zelar por algo que também é delas. E aí a coisa flui, pois o cuidado com a escola se torna responsabilidade de todos. Porque todos sentem que ela lhes pertence.

É uma grande lição de cidadania. Sem cartilha, sem sermões. Apenas com confiança, liberdade, respeito e amor.

Da próxima vez que visitar a escola do seu filho, observe a ocupação. E pergunte, o que mais podemos fazer para melhorá-la. Sempre há espaço. E ele também é seu.