31.3.10

Meu filho está pronto?



Meu filho está pronto?

Ontem surpreendi meu filho, de 11 anos, atravessando uma avenida de maneira bem imprudente. Foi uma coincidência daquelas que só Deus explica. Eu passava no local, quando vi alguém correndo na frente dos carros. Descobrir que aquele alguém era meu menino, foi como levar um soco no estômago. "Como assim?! Mas faz 11 anos que a gente te ensina a atravessar a rua com cuidado?! Você sabe como deve ser, você sabe do perigo!"

Passado o susto, veio o "pensativo" (ele nunca me abandona).

Fiquei me questionando se não havíamos dado autonomia a ele cedo demais. Mas atravessar a rua foi algo que nunca imaginei que ele fosse se arriscar. Ensinamos tanto. Recomendamos tanto. Demos exemplo. Somos do tipo que só atravessa na faixa, que espera os carros passarem, que olha para os dois lados. E eu conheço meu garoto. Ele nunca foi imprudente. Achei que, neste assunto, estávamos seguros.

Até ontem.

Hoje acho que nós, pais, nunca estaremos 100% seguros com relação às atitudes dos nossos filhos. Por mais que orientemos, por mais que recomendemos, por mais que eles dêem indícios de que estão prontos, nunca saberemos a hora certa de soltá-los, nem se eles, a partir dali, irão agir como esperamos. Se serão espertos na internet. Se praticarão sexo seguro. Se dirigirão com responsabilidade. Se lidarão de maneira saudável com a abundante oferta de drogas. Se vão se apaixonar por alguém bacana. Se estarão em boa companhia quanto tomarem o primeiro porre.

Decidi que não vou voltar atrás e cassar a autonomia dada ao meu filho. Mas cuidarei para que um monitor da escola o acompanhe na travessia desta avenida perigosa. Por quanto tempo isso será necessário? Não sei. E acho que nunca saberei.

Mas como dizia meu pai, na sabedoria de quem colocou 5 filhos no mundo, "o que não der pra ensinar, deixa que a vida ensina."

Ainda estou aprendendo. Agora é a vez do meu filho.

24.3.10

"Mamãe, quero ser sexy!"


Uma das técnicas mais vis de se expandir o mercado de necessidades surreais, isto é, aquelas que não precisamos mesmo, é adultizar a infância e infantilizar os adultos.

Essa teoria foi exposta por Benjamim Barber no 3º Forum Internacional Criança e Consumo.

Difícil contestar. Crianças infantis consomem menos. Agora, uma menininha "putinha" - com total respeito ao leitor e uma raiva muito grande dos (ir)responsáveis - consome maquiagem, salto alto, cremes, bolsas, parafernálias eletrônicas, acessórios, roupas etc, etc, etc. Os meninos também estão na mira. Tênis de grife, bonés, agasalhos, correntes, aipodes e aifones, videogueimes, academias, brincos, eletrônicos em geral e etc.

E as mensagens de que eles precisam se portar como adultos é passada bem debaixo do nosso nariz. Já parou para assistir a programação infantil? As crianças mostradas se vestem como adultos, se maquiam como adultos, falam e agem como tais. Tem bandas de rock, namoram, são empresários, sacaneiam, são sacaneados, fazem chapinha, tem corpo saradinho, cometem bullying, comem porcaria. Com rarissíssimas excessões, nenhum personagem mostrado na TV, hoje, tem infância. Ninguém brinca. Esqueça o Chaves ou o Sítio do Pica Pau Amarelo.

E pior. Nos programas genéricos, isto é, os que não são específicamente infantis, vemos crianças adultinhas sendo abusadas, como a nova mini Lady Gaga, que dança imitando uma stripper e o SBT exibe como sendo a coisa mais "gracinha" do mundo.

E não é só a TV que está adultizando a meninada. Agora temos turma da Mônica jovem, Luluzinha Teen, salão de beleza para crianças, naiticlubes em bufê infantil, casaisinhos na pré-escola e a lista vai longe. Muito longe. A Cinderela 2 (ou seria a 3) volta com conflitos matrimoniais. E a Barbie sei lá qual, namora um príncipe idiota, que precisa ser defendido por garotas que empunham espadas e dão piruetas de saltinho. Adeus, fantasia!

É a lei do mercado, dizem. E nessa, tal como na Lei Divina, ninguém interfere. Com isso, vamos formando uma geração de adultinhos mirins, que já dão sinais da adultice precoce: corpinho de mocinhos, doenças de mocinhos, gravidez de mocinhos, consumo de mocinhos, conflitos de mocinhos, neuras de mocinhos e tudo isso, sendo gerenciado por algo que não dá para mudar: maturidade de criança.

E os pais nisso tudo? Temos culpa. Se temos. Mas também somos vítimas. Continuando a teoria, Barber coloca que esta geração de adultos está sendo infantilizada. Pais infantis não conseguem dizer "não". Afinal dizer "não" é da competência de seres maduros. Então, mantemos uma humanidade eternamente jovem, obcecada por não envelhecer, por consumir e aproveitar cada minuto como se não houvesse amanhã. É insegura, egocêntrica e egoísta, como qualquer criança.

Estes são os adultos responsáveis por regular seus filhos até que eles consigam se auto-regular.

Entendendo isso, começamos a entender porque a mãe da mini Lady Gaga assiste à filhinha com os olhos marejados de emoção. Pobre menininha. Pobre mamãe. Pobre todos nós.

16.3.10

Criança e consumo


Criança e consumo.

Semana passada, participei, em São Paulo, do 3º Forum Internacional Criança e Consumo, organizado pelo Instituto Alana.

Um evento para debater este tema, por si só, já é uma grande conquista. Numa sociedade onde consumir é sinônimo de "progresso" e de "subir na vida", chama atenção o fato de existir um grupo cada vez maior de pessoas levantando a mão para perguntar se tem mesmo que ser assim.

O debate sobre o consumo é polêmico. E se torna mais caloroso ainda sob a ótica da infância. Talvez porque envolva muitos agentes: pais, educadores, publicitários, emissoras de tv, fabricantes, governantes, lojistas, parentes, psicólogos. A lista é longa, somos todos guardiões das próximas gerações. E quando há muita gente para culpar, quase sempre esquecemos de apontar o dedo para o nosso umbigo.

Como mãe e publicitária, conheço bem os dois lados da moeda. O lado de lá bota nos pais toda a responsabilidade por "filtrar" as mensagens que chegam às crianças - "Não gostou, mude de canal." E assim esperam se eximir de qualquer responsabilidade pelo assédio diário a que submetem nossos filhos.

O lado de cá se vê perdido em meio a tantos apelos. Do mercado e dos filhos. Desaprendemos a diferenciar necessidades reais das surreais. Confundimos dar coisas materiais com dar afeto. Um presentinho é sinônimo de carinho. E acabamos acostumando nossos filhos com doses quase diárias de "afeto" feito de plástico ou açúcar.

É possível dizer não? É. Mas é extremamente difícil em tempos de ditadura do consumo. Como disse Frei Betto, um dos convidados do Forum, estamos vivendo em um estado totalitarista, tão opressivo quanto qualquer outro, pois somos oprimidos pela necessidade de consumir. Há países que reverenciam Alá, Jeová, Buda. Nós reverenciamos o Deus Consumo. Nossos templos são os shoppings. O terço é o cartão de crédito. O pastor é a TV. E dizer aos nossos filhos que eles não precisam de celular aos 8 anos, é coisa de hereges. De gente chata e inconsequente ameaçada com a queima de milhares de empregos na fogueira.

Eu não acredito em bruxas. Mas que elas existem, existem. E taí um Fórum que não me deixa mentir.

8.3.10

"- Mãe, por que tem dia da mulher e não tem dia do homem?"


"- Mãe, por que tem dia da mulher e não tem dia do homem?"

Porque comprar batom é bem mais divertido que comprar cueca.

Porque as mulheres são flores e homens nabos. E você já ouviu falar de fazer festa pra nabo?

Porque mulher depila e qualquer ser que faça isso consigo próprio merece ser canonizado.

Porque ser mulher é bem mais divertido do que ser homem. Mulher vai em grupo pro banheiro, usa salto, pinta a unha, faz chapinha e compra na Marisa.

Porque mulher vive numa eterna luta pelos seus direitos e os homens só precisam lutar pelo direito de assistir aos jogos do Brasileirão de graça no canal aberto.

Porque mulher dança e segura a criança. Homem chega em casa cansado demais pra ir ao baile.

Porque quando a mulher não tem quem pegue o carro no mecânico, o filho na escola ou o remédio na farmácia, ela se vira. Quando o homem não tem quem pegue a cerveja na geladeira, ele se casa.

Porque mulher chora com gracinha de filho, final de novela e bronca do chefe. Homem só chora quando o Corinthians perde o campeonato. De tristeza ou de alegria.

Porque quando um homem é ameaçado de morte e sobrevive, ele toma umas pingas. Quando a mulher é ameaçada de morte e sobrevive, ela faz faxina na casa dos 7 anões.

Porque o Batman só consegue voar quando pega carona no avião invisível da Mulher Maravilha.

3.3.10

Mamãe e a perereca.


Mamãe e a perereca.

"- Olha filho, uma perereca! Ali...no cantinho. Que linda, vamos pegá-la? Traz pra mamãe aquele copinho...isso, devagar pra não espantá-la. Devagar...pegamos! Ai que fofa! Que cor é a perereca? Vermelho não, filho. Ela é verde. Não é bonitinha?! Ela sabe nadar, quer ver? Vamos soltá-la na lagoa! Papai, vovô, venham! Nós vamos soltar a perereca no laguinho! Isso, filho...leva até o laguinho e solta. Cuidado pra ela não fugir. Isso, tchau perereca! Pessoal, vamos bater palma pra perereca nadando. Olha...um peixe! Nossa! Que é isso?! O peixe engoliu a perereca! Não nenê, não chora! O quê? Não...a mamãe não consegue pegar o peixe e abrir a barriga dele. Papai, faz alguma coisa. Não...explicar o ciclo da vida não vale. O menino nunca mais vai comer peixe. Ai, Senhor, e pensar que a bichinha estava vivinha, até eu capturá-la. Vocês estão rindo do quê? Não estão vendo que eu e o nenê estamos sofrendo com essa situação? O que?!...a perereca tá sofrendo mais ainda?!! Eu te odeio. Vai levar milênios pra você chegar perto desta outra perereca. Vamos pra piscina, filho, que o papai tá de castigo. Isso mesmo, papai bobo. Não chora, viu..."