18.12.09

Mais um texto republicado sobre o Natal.



Preciso rever meu Natal quando:


...começo a achar que a vida eterna, prometida pelo Cristo, é o tempo que vou levar para pagar as compras de Natal.

...torço por uma reforma que elimine dezembro do calendário.

...os amigos secretos viram inimigos declarados depois de abrirem os presentes.

...dou vinho para o vigia da rua, esquecendo que ele é crente.

...o entregador da Veja, que nunca me viu, me acorda domingo às 7 da manhã para pegar a caixinha.

...meu filho comenta que a árvore do vizinho dá de 10 a zero na nossa.

...meu filho comenta que com estas luzinhas mixurucas nós nunca vamos ganhar o concurso de decoração natalina do condomínio.

...o assunto na hora da ceia é se Chester é uma ave natural ou se deram hormônio para o bichinho.

...a bebida fica a cargo do cunhado e ele traz um vinho garrafa azul horroroso que veio na cesta da firma.

...começo a achar que quando Jesus falou em sofrimento, ele se referia a encontrar uma vaga para estacionar.

...meu filho pergunta se, ao invés de cartinha, pode colocar sua lista de presentes no Orkut do Papai Noel.

...a empregada faz um vale para pagar a prestação da tv de plasma (que eu não tenho).

...a fantasia do Papai Noel fica apertada no meu irmão. No meu cunhado. E no meu marido.

...meu filho pergunta quem está tomando conta da fábrica de brinquedos agora que o Papai Noel está trabalhando no shopping center.

...meu filho me pergunta como Papai Noel não morreu congelado na manjedoura e se Belém é a capital do Polo Norte.

...esqueço da lembrancinha do porteiro e ele esquece o restante do ano de colocar o jornal na minha porta.

...o colega que levou máquina fotográfica na festa de final de ano da firma é demitido por justa causa.

...o presente mais barato da lista do meu filho, só poderá ser comprado se eu entrar na lista dos 10 mais ricos da Forbes.

...meu marido ameaça entrar com um pedido de impeachment se aparecer mais um cheque-pré no canhoto do cheque.

...depois de peregrinar por lojas, shoppings, calçadões e supermercados, fico na dúvida se estamos comemorando o nascimento ou o calvário do Senhor.

...meu filho pergunta porque o Papai Noel é branco em um Shopping e negro em outro.

...me lembro que o motivo de toda esta loucura é celebrar o nascimento do Homem que, há 2000 anos, introduziu o conceito de vida simples no ocidente.

14.12.09

O assunto é maternidade.

O blog "Escreva Lola escreva" lança a terceira edição do concurso de blogueiras. O tema deste ano é "Maternidade". A seleção final inclui 25 textos que trazem diferentes visões sobre o assunto. Algumas engraçadas, outras emocionantes, mas todas imperdíveis.

Clique aqui para entrar e boa leitura!

9.12.09

Vamos salvar o Natal - texto republicado



Vamos salvar o Natal.

A primeira coisa seria minimizar o Papai Noel da Coca-Cola. Esse velhinho obeso, gastador, que nos estimula a comprar, comprar e comprar e que está, desde o final de novembro, molhado de suor, em TODOS os shoppings centers. Desculpe, bom velhinho, mas você ficou over. Não tem mais nada a ver com os tempos que vivemos. Acabou a magia.

O que vai salvar o Natal, é voltarmos ao principal sentido da festa no mundo ocidental: celebrarmos o nascimento do Cristo. Não o Jesus religioso, que morreu pelos pecadores e que faria você parar de ler este texto bem aqui. Não é desse Jesus que falo. Temos que resgatar o Jesus revolucionário. O ecologista. O maluco beleza que, há 2000 anos, abalou as estruturas da Roma perdulária e cheia de vícios, com suas idéias de vida simples. De amor ao próximo. De comunhão com a natureza.

Temos que resgatar o barbudo que disse que somos todos uma só família. Todos habitantes do mesmo planeta Terra. Eu, você que está me lendo, o feirante, o doutor, o agricultor, o catador de papel. E que as diferenças impostas pela sociedade são cruéis e fonte da maioria dos nossos problemas.

Temos que resgatar o homem que, ao ver que a comida não dava para todos, dividiu-a. E, ao invés de uns poucos comerem muito, todos comeram um pouco. O homem magro, de modos frugais, que se satisfazia com frutas, grãos, mel, peixe (talvez) e um vinhozinho de vez em quando, porque ninguém é de ferro. E não com leitões, cabritos, tenders, chesters, lombos, picanhas - geralmente, todos juntos na mesma ceia.

Temos que reviver as idéias do sujeito que introduziu o conceito de vida simples no ocidente. E praticou-a todos os dias em que viveu. Aquele homem que vivia apenas com o necessário, pois acreditava que os únicos bens que devemos acumular, são os valores que levamos dentro de nós. Que expulsou os mercadores do templo, pois uma coisa são valores da alma. Outra são os do dinheiro. E feliz é quem consegue diferenciá-los.

Renascer a alegria de um homem que vivia rodeado de amigos, que amava os animais, que viajava, que era carinhoso e benevolente com todos. Principalmente, com aqueles que erravam (isso me dá um alento, que nem te conto!).

Neste Natal, tenho pensado muito nisso. Pensando no aniversariante que, quando estudado livre das amarras e preconceitos da religião, revela-se um grande visionário. Um líder transformador, que parecia antever a encrenca que 2000 anos depois nos enfiaríamos. Em tempos de simplicidade voluntária e consumo consciente, não vejo ninguém melhor para seguirmos.

Que este ano, a gente consiga plantar a sementinha de um Natal verdadeiramente Cristão. Um Natal "menos" em tudo o que é material. E "mais" em alegria, risadas, comunhão com aqueles que amamos, divisão e confraternização. Um Natal com menos sobras. Nas lixeiras, na geladeira e nas parcelas do cartão de crédito. Essa é a minha sugestão. Um Feliz Natal para você e para todos nós!

Publiquei este texto no Natal do ano passado, para participar de uma blogagem coletiva do "Faça a sua parte".

4.12.09

A Educação Infantil e a alfabetização.

A educação Infantil e alfabetização.

Um belo dia, seu chefe lhe informa que você terá que aprender a operar um novo software. Um programa novo, com códigos e linguagens absolutamente desconhecidos por você. Para aprendê-lo, há dois caminhos:

Ser colocado numa sala, para que alguém lhe transmita toda a teoria e a programação, através de aulas, exercícios, livros, trabalhos e provas.

Ou, fazer antes uma aproximação sua ao novo software. Isto é, circular pela empresa para entender os motivos de estarem implementando aquele novo programa. Descobrir por que ele é importante, qual contexto será usado, quais as enormes possibilidades que ele abrirá para você e para a companhia, quais recursos ele oferece, onde você pode pesquisar mais, quem já trabalha com ele, com quem você pode trocar conhecimentos etc. Só então, depois de situado, envolvido e familiarizado, inicia-se o aprendizado formal do software.

Analisemos as duas opções. A primeira é um aprendizado passivo. Você está fechado numa sala recebendo um bocado de teoria, provavelmente entediado, perguntando-se o porque de ter que aprender tudo aquilo, achando que a chefia só inventa, e, louco para sair e tomar um café.

Na segunda opção, você entra na sala com vontade de aprender. Teve a oportunidade de visualizar o amplo horizonte que o novo programa abrirá na sua carreira e está curioso e engajado em explorá-lo. Quer compartilhar com os amigos, conversar sobre ele em casa, pesquisar na internet, comprar livros sobre o assunto.

Na educação infantil, muitas escolas ainda ensinam como a empresa que força o funcionário a aprender algo que ele não sabe para que serve. Ensinam a "ler e escrever" contando com um conhecimento prévio que a criança não possui. Ignoram que o mundo "letrado e numerado" tão familiar aos adultos, é desconhecido aos pequenos. Enfiam-nos na sala e tascam desenhos de letras, caligrafia, cópias e ditados sem que nada disso faça muito sentido na cabecinha deles.

Uma boa escola de educação infantil não foca seu trabalho na alfabetização. Porque sabe que as crianças pequenas são perfeitamente capazes de aprender letras, números e palavras, mas tem uma enorme dificuldade em uni-los atribuindo significados. Isto é, elas enxergam tijolos, janelas e telhas. Mas não visualizam a sala.

Por isso, a boa escola não perde tempo alfabetizando antes da hora. Porque é um aprendizado sem significado. O foco é dado a coisas mais essenciais para a infância (mas que nem sempre fazem tanto sucesso entre os pais): sociabilização, psicomotricidade, a exploração de sons, cheiros, cheiros, sensações e de tudo o mais que o brincar oferece.

Voltando ao exemplo do software, a boa escola preocupa-se em fazer a aproximação da criança com o mundo da escrita, deixando-a pronta e com vontade de receber o aprendizado formal, que acontecerá no ensino fundamental.

E para que isso não aconteça de forma entediante e impositiva, são desenvolvidas atividades lúdicas, divertidas e fantasiosas envolvendo textos e cálculos. Receitas de culinária, registros de explorações no jardim, a divisão de um bolo de chocolate, cartas endereçadas a super heróis ou ao melhor amigo, contagem dos pontos de jogos, leitura de contos, elaboração de roteiro de teatro, histórias em quadrinhos, brincadeira de escritorinho, visitas a feiras e mercados etc.

Escrevo isso em resposta a uma pergunta muito interessante que me foi enviada recentemente. Diante de um filhote visivelmente mais adiantado que a turma, os pais vivem o dilema de adiantá-lo ou não, pois no ano que vem fará o último ano da educação infantil e temem que ele se desestimule "quando um dos objetivos é escrever as primeiras palavras", coisa que o garoto já faz. E concluem perguntado se devem sacrificá-lo agora para evitar que ele sofra no futuro.

Numa escola cujo foco não seja alfabetizar e sim aproximar as crianças das imensas possibilidades da escrita, não faz diferença que uns sejam mais adiantados que os outros. Pelo contrário. Esse contato entre os desiguais é favorecido e permite uma troca muito rica de conhecimento entre as crianças. Um estimula o outro e todos crescem juntos.

Além disso, supondo que a criança seja mesmo bem mais adiantada que os demais, normalmente, esse adiantamento se dá em apenas uma área. Nas demais, ela é tão pequena como as outras. Ao ser adiantada, que recursos terá com os maiores em situações de conflitos? Conseguirá se impor ao grupo como um igual? Será tão hábil como os maiores nos times de futebol? E quando começarem os jogos sexuais, os namoricos? Não será incentivado precocemente para isso? Para que forçá-lo a atender as exigências de lição de casa, de ficar sentado copiando e realizando exercícios, quando sua maior vontade ainda é brincar?

Só para exemplificar, na sala do meu caçula, que está no último ano do infantil, há um garotinho que sempre se mostrou mais adiantado. Quando eles eram muito pequenos e desenhavam apenas rabiscos, ele já desenhava figuras humanas, com dedos, roupas e dentes. Hoje ele já lê e escreve. Comparado ao meu filho que, aos 6 anos, só escreve o próprio nome, ele estaria muito a frente em termos de domínio da escrita. Mas, nos demais aspectos é um menino idêntico ao meu. De vez em quando, ainda escapa um xixi nas calças, faz manha quando contrariado, é imaturo na resolução de conflitos. Se os pais dele fossem avaliar apenas os aspectos intelectuais, talvez o adiantassem. Mas, conhecendo o menino, tenho certeza que seria um erro em todos os demais aspectos. Ele acompanharia a nova turma intelectualmente. Mas teria que se esforçar além da conta para acompanhá-la emocionalmente.

Meu conselho aos pais que enviaram a pergunta permanece o mesmo do texto "Crianças adiantadas na escola": não adiantem seu filho.

Não é a série que vocês devem questionar e sim os procedimentos da escola. Alfabetizar crianças tão pequenas, dar ditado, evitar a troca entre elas, é muito, muito pouco! Seu filho, definitivamente, merece mais. Mas não será adiantando-o um ano que ele obterá aquilo que precisa para se desenvolver na sua plenitude.

Conversem com a escola para que, no novo ano, eles tenham um olhar cuidadoso para que ele não se entedie e peça que eles desenvolvam outras atividades além da escrita. Mais lúdicas, mais brincalhonas. Mais infantis.

E mantenham-se firmes. Sem ansiedade. Logo ele estará mais crescido, lidando com diversos conteúdos e as diferenças não serão mais tão acentuadas. A infância passa rápido. Defendam a do seu filhote com unhas e dentes! O restante virá naturalmente, no tempo e na idade certa.


Obs: Este texto contou com a consultoria da Telma Vinha, docente da Faculdade de Educação da Unicamp, autora do livro "O Educador e a Moralidade Infantil", co-autora do livro "Quando a escola é democrática", minha irmã queridíssima e responsável por muitos dos palpites que dou por aqui.


1.12.09

Escolas se omitem sobre o bullying.


Escolas se omitem sobre o bullying.

Um dos principais agentes do combate ao bullying é a escola. Contudo, ainda são poucas as escolas que sabem como lidar com o problema.

Uma das grandes dificuldades está em identificar o problema. Diante de um caso de agressão, muitos professores acham que "é coisa da idade", "no meu tempo a gente também fazia isso" e relevam.

Outro problema comum é culpar a vítima. É comum dizer que a vítima do bullying "provoca" a agressão com seu comportamento "estranho" e "arredio". E responsabilizam-na por não se integrar ao grupo.

Omissão também é um grande fator. Muitos professores sabem do problema e deixam pra lá. Botam a culpa da agressividade dos alunos na gordura trans, no Silvester Stalone, no pai traficante e, candidamente, lavam as mãos.

Falta de confiança é outro problema que impede que a vítima conte a um professor o que está acontecendo. Estudos com vítimas de bullying apontam um receio muito grande da vítima em contar, tanto por medo das agressões piorarem, como por achar que nada será feito.

Muitas vezes a escola se omite diante do ciberbullying. Por não ser praticado dentro dos muros da escola, os educadores ignoram as agressões feitas por celular, internet, comunidades tipo orkut etc. É o bom e velho "te pego lá fora", só que o lá fora agora é a web.

Publico aqui um vídeo que retrata bem a gravidade do problema. É em inglês, mas supercompreensível até por quem não fala nientes da língua.




Depois de identificado o bullying, outros problemas surgem.

É comum tentarem resolver o problema com bronca, sanções e suspensões. Nada disso funciona e, muitas vezes, a situação piora. Obviamente que os autores devem ser responsabilizados pelos seus atos, mas junto a isso, é preciso haver um trabalho sistemático na escola sobre resolução de conflitos, respeito às diferenças, conscientização sobre o bullying e suas consequências. E isso não deve ser feito em forma de sermão. Filmes, peças de teatro, jornais, assembléias e relatos verdadeiros ajudam a trabalhar o tema de uma forma não autoritária e muito mais eficiente.

Falta espaço aos indignados. Muitos alunos sabem das agressões a um colega, discordam dela, mas se calam. É preciso que a escola encontre mecanismos de fortalecer e valorizar os indignados, estimulando-os a agir em defesa da vítima e criando canais para que eles se manifestem (um mural, blog, assembléias, teatro, relações de confiança etc).

Sempre lembrando que os primeiros a saberem das agressões são os colegas. Principalmente, as agressões em comunidades da web. Conscientizá-los, criar espaços para denúncias, ouvi-los e respeitá-los é uma forma eficiente de tomar conhecimento rápido das agressões e agir prontamente, antes que causem maiores danos às vítimas e ao ambiente escolar.

Este comercial sueco é muito bom e mostra como os colegas podem se manifestar para combater o bullying.



E vamos ficando por aqui. Bjs!