24.11.09

Bullying, pesadelo nas escolas.



Bullying, pesadelo nas escolas.


Digite bullying no google (com e sem y) e terá uma surpresa. São milhões de páginas. O que mostra que este tipo de agressão há muito deixou de ser uma praga restrita aos enlatados da TV americana.

O bullying hoje é um fenômeno mundial e, muito provavelmente, acontece numa escola bem perto de você.

Foi tema bastante debatido no Congresso de Moralidade Infantil e anexo aqui uma matéria muito boa sobre o tema, com depoimentos de algumas das pesquisadoras que apresentaram trabalho no Congresso.

Como mãe, assisti às apresentações sobre bullying com atenção. Queria entender melhor o fenômeno e assim, aprender a lidar com ele. Um dos meus filhos já foi vítima de abuso físico e psicológico na escola - todos prontamente contornados e resolvidos pela direção, mas que me deixarem permanentemente atenta ao problema.

O que aprendi e que me ajudou muito no caso do meu filho:

1. Está provado, estatísticamente, que os agressores escolhem vítimas que não contam, isto é, as silenciosas. Portanto, converse sempre com o seu filho e estimule-o a contar a você, ao professor ou à coordenação toda e qualquer agressão sofrida. Muitas crianças acham que "se contar, piora". E é exatamente isso que os agressores querem que elas acreditem. Fique atenta.

2. Não estimule seu filho a sempre "deixar pra lá". Ele não é obrigado a levar na esportiva quando é apelidado de algo perjorativo, quando um colega coloca propositalmente o pé para que ele tropece ou quando um professor faz chacota dele em público.

Coloque-se no lugar da criança e imagine alguém chamando você de rolha de poço na frente de suas amigas. Ou fazendo-a se sentir diminuída por usar uma bolsa genérica. Humilha, fere e ofende. Por que, na mesma situação, seu filho teria que deixar pra lá? Ninguém é obrigado a conviver pacificamente com repetidas "brincadeiras" de mau gosto.

3. Fique atenta aos relatos de agressão. Se forem sérios ou repetitivos, procure imediatamente a escola. Exija uma atuação pronta e efetiva dos educadores na solução do problema. Muitas vezes, somos levadas a crer que o fato não é tão sério. Observando e ouvindo seu filho, você saberá melhor do que ninguém qual a gravidade do problema.

E se o problema continuar, tome uma atitude: mude seu filho de escola, faça um B.O (agressão é crime, ainda mais ao menor), vá para a justiça. Converse com Deus e o mundo. Só não deixe que o problema se prolongue.

4. Hoje o ciberbullying é uma triste realidade. Fique atenta aos orkuts, msn, mensagem de celular etc. Alunos usam o ambiente livre da internet pra "zoar" com a vítima. Quando ocorrer, boca no trombone, exija a intervenção da escola, dos pais e, se necessário, da polícia.

5. O bullying precisa de platéia pra acontecer. Preste atenção aos relatos do seu filho sobre os colegas. Pode ser que ele seja da turma dos agressores ou seja da platéia, isto é, dos que assistem passivamente a este tipo de comportamento. Não seja complacente com chacotas, apelidos maldosos e comentários humilhantes vindos do seu filho, para com colegas e professores. Deixe claro que este tipo de comportamento é inaceitável em casa, na escola e na vida. E que ele não só pode, como deve, se posicionar contra toda e qualquer agressão aos colegas, mesmo que para isso, perca algumas "amizades".

Deixe claro também que ele não precisa gostar ou ser amigo de todos. Mas o fato de não gostarmos de alguém ou não concordarmos com algumas das suas atitudes, não nos dá direito de agredi-lo ou humilhá-lo.

6. O mais triste que aprendi: para haver o bullying é preciso que a vítima se enxergue da mesma forma que o agressor a vê. É muito cruel! A vítima geralmente se sente inferior por ser diferente dos demais (baixinho, pobre, gordo etc) e tem uma enorme dificuldade em superar suas diferenças e se inserir no grupo. Por isso, por mais que os pais digam: "reaja, bata de volta, não deixe que façam isso com você", ela não consegue e precisa de ajuda, muitas vezes profissional, para fortalecer sua auto-estima e se sentir merecedora de mais respeito.

E não se iluda. A imensa maioria das escolas ainda não sabe como lidar com o problema. Bullying não se resolve com bronca, castigo ou sanções. É necessário um sério comprometimento da instituição com o desenvolvimento moral das crianças e com a resolução de conflitos. É necessário que o respeito seja moeda corrente entre alunos, professores, diretores e funcionários.

Esse assunto dá pano pra manga. Retornaremos a ele em breve.

18.11.09

Mãetorista


Mãetorista

Acordou irritada. Teria que levar o mais velho para a aula de guitarra. Depois fazer o almoço e buscar os menores na escola. Dar almoço e levá-los pra natação. Voltaria no final do dia. Cansada, suada, carregando mochilas de roupas molhadas e uma tonelada de impaciência.

No dia seguinte, era capoeira e inglês. E no outro guitarra de novo. Não sobrava mais tempo pra nada. E o pouco que sobrava, só conseguia cochilar desmaiada no sofá. Nem a novelinha conseguia mais assistir.

Resolveu dar um basta na vida de mãetorista. Ligou pra cunhada especialista em logística infantil. A dica era objetiva: peça ajuda aos outros pais. Ofereça. E trace roteiros para otimizar suas saídas.

Na primeira tentativa de "dividir" roteiros, a recepção dos outros pais foi fria. "Ah, eu tenho mesmo que vir pra esses lados, não preciso de revezar." A cunhada deu força, não desista, consulte outros. Achou uma mãe que suspirou aliviada diante da proposta. O acordo foi feito e com isso, ganhou 3 dias livres na parte da manhã.

Faltava dar um jeito nas atividades. Resolveu radicalizar: "desmatriculou" a filharada de tudo. Eles estranharam. Mas não reclamaram muito. Aparentemente, estavam tão cansados como a mãe e reagiram com criatividade à novidade do tempo livre. Inventaram jogos como jogar bolas de tênis do outro lado do muro e pulá-lo para buscá-las. Ou pingue-pongue individual, que a mãe quase filmou e colocou no Youtube. Passaram a passear de bicicleta, cozinhar juntos, frequentar mais o parque, receber amigos. E de vez em quando, uma matinê no cinema.

No novo ano, decidiu que era hora de retomar algumas atividades. Com muito critério: apenas uma para cada um. E pensando antes de tudo na logística. O mais velho entrou no inglês. Numa escola próxima, para poder ir de carona com o pai e voltar de ônibus. O do meio insistiu no futebol e foi matriculado na mesma escola que o filho da vizinha. Assim elas se revezam. E o caçula fica em casa brincando.

O restante do tempo é pra brincar, estudar (doce ilusão de mãe) e aproveitar o maior tesouro do homem moderno: o tempo.

E o marido nisso tudo? Comemora o sumiço de tanques e mais tanques de gasolina na fatura do cartão, a diminuição dos boletos de pagamento de cursos, filhos menos estressados e indo melhor na escola. E, sem dúvida, a mulher mais leve, bem humorada e bonita ressusurgida das cinzas do volante do carro.

11.11.09

Identidade de mãe



Identidade de mãe.

A primeira mãe segura o microfone e conta que trabalha fora por opção. Adora o que faz, mas reconhece que é muito difícil conciliar vida própria, profissional, maternidade e casamento. Vive correndo de um lado pra outro, gostaria de ter mais tempo com os filhos e todas as queixas comuns da maioria das mulheres que trabalham fora. Mas afirma que jamais ficaria em casa. Teme perder sua identidade, mesmo achando que muitas vezes a não a encontra em meio à tanta loucura e cansaço. A casa a sufocaria e não abriria mão da carreira que lutou tanto pra conquistar.

A segunda mulher olha para a câmera e conta que optou por ficar em casa. É mãe tempo integral. Ainda tem dúvidas da sua opção, mas enquanto as crianças são pequenas, sente que é dever seu estar presente. Considera-se num período de doação. Por enquanto, nada é mais importante na sua vida que sua família. E é para ela que vive e se dedica. Quando pensa nas amigas enlouquecidas, muitas tomando anti-depressivos, com filhos em criados em creches ou por babás, acha que fez a escolha certa. Não quer aquela vida. Mas tem dúvidas se a vida que vive é exatamente a que quer.

Colocadas frente a frente num programa de TV as duas argumentam. A primeira defende com unhas e dentes sua opção e acha que filho e marido não justificam tamanho sacrifício. Pergunta: "E quando seus filhos crescerem? O que vai ser de você?". A segunda defende-se dizendo que hoje é o momento deles. Que os filhos da outra são criados por terceiros e que isso trará consequências no futuro. O auditório se divide.

A discussão prossegue sem conclusão. A psicóloga do programa intervém. Diz que ambas tem sua razão, que a situação não é 8 ou 80. E blá, blá, blá.

Faltou uma terceira convidada no programa. Uma mulher que não contasse o que faz. Saberíamos apenas que ela é mãe. E que dissesse que a opção que tomou não foi por filho, nem por marido, nem por carreira. Foi por si própria."Escolhi o que era o melhor pra mim. Não foi fácil, ainda é difícil, mas tenho certeza que nada seria melhor pra mim neste momento."..."Não tenho a menor idéia de como estarei daqui há alguns anos, nem como meus filhos ou meu casamento estarão, mas hoje estou bem. Cuidando de mim e, com isso, cuidando melhor deles. Tenho dias de loucura e correria, mas estou no controle da minha vida. E sei que minha identidade está em mim. Não na minha carreira, nem no meu marido e muito menos nos meus filhos. Amo-os imensamente. Mas amo mais a mim mesma. E com isso consigo amá-los ainda mais a cada dia."

Aí o programa se encerraria. A platéia bateria palmas, mas muitos sairiam do estúdio sem entender direito o que aquela mulher misteriosa quis dizer.

9.11.09

A culpa é da vítima.



A culpa é da vítima.

Hoje ligo o computador para descobrir que a Uniban resolveu de uma forma emblemática a agressão à aluna do vestido curto: expulsou-a da universidade.

E assim deu seu veredicto: o culpado é a vítima.

Chamei a decisão de emblemática porque infelizmente é o retrato fiel da forma primitiva com que ainda resolvemos nossos conflitos. Precisamos achar um culpado e puni-lo. Mesmo que este seja a vítima.

É assim com crianças desaparecidas: "Os pais não cuidaram como deviam". Com esposas espancadas: "Ela provocou". Com vítimas de assalto: "Ah, mas quem mandou andar com o vidro do carro aberto". Com vítimas de clonagem de cartões: "O senhor não cuidou direito da sua senha".

Culpar a vítima não é exclusividade de ninguém. Nós pais, sem querer, fazemos isso o tempo todo. Quantos de nós, ao vermos um filho voltar da escola chorando porque o amigo quebrou seu brinquedo, exclamamos acusadores: "Quem mandou levar o brinquedo à escola!". Ou quando o filho apanha: "Você deixou ele te bater?". Ou, quando ele esquece um objeto e alguém pega: "Quem mandou ser esquecido?".

Nessas horas, esquecemos de proporcionar o conforto que toda vítima necessita para se recompor e reagir. Disparamos logo a sentença: "a culpa é sua" e pioramos sua dor.

Fazemos isso porque foi assim que aprendemos. Foi assim que sempre agiram conosco. Não há má intenção. Apenas uma inabilidade herdada e nunca refletida. Mas, esse comportamento vindo de uma reitoria de uma universidade é inaceitável.

Educadores estudam e são treinados para EDUCAR. Inclusive através dos conflitos. E não, para resolvê-los de forma primitiva e automática, como fazem os leigos. Os alunos podem achar que a moça "provocou". A mídia pode fotografar e exibir com orgulho o tal vestido curto. Mas, educadores, da mais alta patente, deveriam saber separar o joio do trigo. Ao invés de usarem o caso como oportunidade de reflexão, crescimento e transformação, preferem punir logo a vítima e assim resolvê-lo rapidamente. Com isso, dão razão aos agressores: "Acabamos com a puta da universidade!"

Um caso lamentável, em todos os aspectos. Onde podemos apontar inúmeros culpados. Menos a vítima.



P.S: A Ceila, do Desabafo de Mãe está promovendo uma discussão sobre o papel dos pais neste triste caso. Para participar clique aqui.

6.11.09

As mães de "Orgulho e Preconceito".


Se você é fã da escritora inglesa Jane Austen e caiu aqui em busca da visão de um especialista, fuja! Mude rapidamente de blog. Sou uma leitora amadora e escrevo porque estou participando de uma roda de leitura sobre o livro "Orgulho e Preconceito", promovida pela Vanessa, do Fio de Ariadne.

Aderi ao desafio, porque já tinha lido este livro, adorado e achei interessante relê-lo e discuti-lo numa nova fase da minha vida.

Gosto muito do texto da Jane Austen. Acho-a delicadamente irônica. Ela consegue descrever com sutileza e bom humor os costumes da sociedade inglesa do início do século 19, construindo frases impagáveis, com um humor inteligente e nada escrachado.

A primeira coisa que me chama atenção quando leio livros ou vejo filmes sobre os ingleses de outrora é que ninguém trabalha. Incrível como eles conseguem levar a vida jogando baralho, escrevendo cartas, lendo livros e viajando. Ninguém de respeito pega no batente. Alguém pode me explicar de onde vinha a renda dessa gente? Só podia ser das colônias. Não tenho outra explicação.

Mas são as mães, as personagens que mais me atraem. Incrível como, cerca de 200 anos após terem sido criadas, elas se mantém super atuais. O mundo mudou, a mulher mudou, as relações mudaram. Mas mãe é mãe. E continuam todas, muito parecidas. Seja nas novelas da Jane Austen, do Manoel Carlos ou na casa da sua sogra. Veja se concorda:

Mãe casamenteira - A Sra. Bennet é desesperada para casar as filhas. Para isso as atira sobre qualquer bom partido que pinte no pedaço. Quem não conhece uma mãe assim?

Eu conheci duas que preciso registrar para a posteridade.

A primeira foi na recepção do ginecologista. A mulher, felicíssima, contava a todos os presentes que suspeitava que a filha adolescente estivesse grávida de um super astro da música sertaneja, com o qual foi para a cama após um show. Detalhe: o sujeito é casado e tem filhas na idade da menina. Esta está mais para os roteiristas do Pânico do que para Jane Austen.

A segunda mãe é minha preferida: ao constatar que a sobrinha "rodada" havia se casado muitíssimo bem e a filha "certinha" de 30 e poucos anos estava "encalhadíssima", a mãe solta a seguinte pérola: "Você já viu como as galinhas sempre arrumam bons maridos? Por isso, eu falo pra minha filha...você precisa dar mais! Esse é o seu problema."

A mãe controladora. Lady Catherine tem personalidade forte. É orgulhosa, autoritária e controla a vida de todo mundo. Dá conselhos e palpites o tempo todo, desde a criação dos filhos dos outros, até como fazer uma mala. É uma criatura de nariz empinado e com opinião formada sobre tudo. Acha sua filha, uma débil criatura, superior a todas as solteiras disponíveis e planeja para ela um casamento com um homem à altura. Perto da mãe controladora ninguém solta pum. Nem respira. Quem nunca trombou com uma matrona assim?

Mãe genro é genro, com ou sem alça. Esta é a Sra. Lucas. Quando soube que a filha desencalhou, respirou aliviada. Que importa que o genro é o ser mais chato e mala sem alça sobre a face da Terra? Ele tem uma renda, estabilidade, a filha terá casa, comida, mas terá que lavar roupa. Ninguém é perfeito. Pior sina seria a pobrezinha aguentar um futuro de solidão. Essas mães são do tipo Erasmo Carlos: antes mal acompanhada do que só. Conheço muitas assim. Fecham negócio com o rapaz trabalhador. Sem sal, sem tempero e, muitas vezes, azedo. Pelo menos ele fará companhia nas tardes de domingo pra assistir o Faustão.

Essas são as mães. Tem as solteiras e estas inspirariam um texto a parte. São divertidíssimas. Os maridos então, surreais. Tudo o que eles querem é sobreviver ao matrimônio. Aconteceu há 200 anos. Mas podia ser hoje. Assim caminha a humanidade. E viva senso e a sensibilidade da Jane Austen.

Bom final de semana!