29.10.09

Minha composteira mambembe.



Já que o assunto é lixo, encerro a semana com compostagem doméstica.

Tenho uma amiga querida, que mora em Los Angeles, que hoje é Pro em compostagem. Ela sempre me estimulou a fazer compostagem, afirmando que é muito fácil e não toma tempo. Me enviou até um livro "Easy Composting" com dicas ótimas para quem está começando.

O primeiro problema que enfrentei foi a escolha da composteira. Na internet há milhares de modelos e o livro ensina outras tantas. Eu tinha três requisitos: gastar pouco ou quase nada, ser simples de lidar e não ser muito aberta para não juntar bicho perto de casa.

Resolvi a questão reaproveitando um tambor de metal, sem boca e sem fundo (tomei o cuidado de pegar um tambor que não armazenou produtos tóxicos).

Coloquei o tambor diretamente sobre a grama e nele deposito minhas sobras de frutas, verduras, talos, cascas de ovo, pó de café, etc. Depois cubro com folhas secas, serragem ou mesmo com o jornal que fica embaixo do galinheiro.

Deveria mexer diariamente, mas mexo uma vez por semana, fazendo assim: ergo o tambor e cai tudo na grama. Daí pego uma pá e jogo tudo de volta. Cansa. Mas imagino que estou a caminho de ter bíceps de Madonna e mando ripa na pá de pedreiro.

A composteira precisa ser tampada. Para evitar chuva e bichos. A tampa da minha é uma cobertura de piscininha de criança, também reaproveitada.

Hoje minha composteira mambembe está trabalhando a pleno vapor, compostando, inclusive, sobras da cozinha de algumas vizinhas.

Com redução, reciclagem e compostagem, a quantidade de lixo que colocamos na rua para o lixeiro recolher foi drasticamente reduzida.

Tão drasticamente que, em Los Angeles, a Prefeitura está promovendo cursos de compostagem doméstica e subsidia a compra da composteira. Minha amiga já está no nível minhocário.

Bom feriado de finados. E se for viajar para um local sem coleta seletiva, separe seu lixo e traga de volta num cantinho do carro. Não custa nada e, enquanto tivermos as prefeituras que temos, é o que nos resta a fazer.

Semana que vem a gente volta a tricotar.

26.10.09

Lei de Responsabilidade Ambiental


Lei de Responsabilidade Ambiental.

Em julho, visitei Ribeirão Preto, SP e fiquei chocada com a quantidade de lixo nas ruas. Papelão, sacos plásticos, folhetos de propaganda, pets, latas, caixotes quebrados e até um sofá velho vi jogados no calçamento e nas praças do jardim Mosteiro e da Av. Treze de Maio. Isso sem falar na completa falta de regras para placas e autidóres (mobiliário urbano). A minha querida cidade natal é uma das mais poluídas visualmente que conheço.

Semana passada passei em frente à escola João Cursino de São José dos Campos, SP e fiquei chocada com a quantidade de lixo na calçada e no lado de DENTRO dos portões da escola.

Neste final de semana, visitei o bairro do Capricórnio, em Caraguatatuba, litoral norte de SP e fiquei prá lá de chocada com a quantidade de lixo nas ruas. Lixo de consumo e entulho de obras. As simpáticas vielas de areia deste bairro estão tomadas por sujeira. E no mercadinho local há um cartaz alertando para o surto de escorpiões e aranhas. O preço que pagamos pela porquice é alto. Que me perdoem os porcos.

Caminhei pela praia de Massaguaçu até a Lagoa Azul e pude constatar que a sujeira é generalizada. A Lagoa fica em área de preservação e lá não há nenhuma lixeira ou presença do poder público. Resultado: a quantidade de lixo jogada por todo lado é assustadora. Latinhas, pets, emaranhados de linhas de pesca, chinelos, bitucas, cadeiras de praia quebradas, tampas de protetor solar, fraldas, sacos plásticos em profusão e abundância. E cocô. Muito cocô flutuando na água marrom daquela que já foi uma linda lagoa azul.

Cheguei à conclusão que, pior do que a população, que não está nem aí, é o poder público que foi eleito pra botar ordem na casa e não faz NADA. Não há trabalho algum de educação (nem mesmo numa escola), não há coleta eficiente, não há fiscalização. Não há nem lixeiras numa área de preservação que RECEBE turistas! E é vendida como um dos cartões postais da cidade.

Precisamos de uma Lei de Responsabilidade Ambiental nos moldes da Lei de Responsabilidade Fiscal. O sujeito é eleito, tem que saber que precisa cuidar com seriedade da preservação ambiental da sua cidade. Tem que promover medidas educativas. Tem que fiscalizar, tem que multar, tem que fazer a despoluição visual, a destinação correta do lixo, preservar os mananciais, construir ciclovias, exigir a recuperação de áreas degradadas, tratar o esgoto, buscar soluções, desenvolver projetos e parcerias etc.

Lei de Responsabilidade Ambiental já. Ou os homens públicos se comprometem verdadeiramente com o meio ambiente ou correm o risco de ir pra cadeia. Porque não é só com dinheiro que se pratica a corrupção. O descaso também corrompe.

Leia mais sobre essa proposta, clicando aqui.

21.10.09

Crianças Foie Gras


Vamos observar dois gansos. Um deles foi criado solto no campo. Não é muito grande, mas é ágil, rápido e tem a saudável musculatura de uma ave que cresceu nadando na lagoa, perseguindo insetos e correndo de um lado para outro com seu bando.

O outro é uma ave bem maior e vistosa. Porém se olharmos de perto percebemos que é meio disforme, estufada, desajeitada. Foi criada na gaiola para virar foie gras. Desde pequeno, seus cuidadores enfiaram-lhe comida goela abaixo para que crescesse rapidamente e virasse um excelente patê. Nunca correu pelo terreiro. Nunca teve oportunidade de explorar um formigueiro. Nunca se divertiu em capturar um peixinho na lagoa. Sua vida sempre foi receber ração e digeri-la rapidamente para conseguir suportar a próxima refeição.

Fiz essa analogia, depois de ouvir um relato de uma amiga sobre dois jovens que conheceu em um curso de inglês. Eles estudam em uma dessas escolas que despejam conteúdo sobre crianças e adolescentes, como se as preparassem para serem moídas. Diariamente eles recebem uma quantidade imensa de informação, que os obriga a dedicar muitas horas do dia sobre apostilas e livros. Semanalmente, fazem provas. A vida deles é sobreviver a elas. Digerem a informação até passar pela prova e depois partem para a próxima carga de informação. Como fazem os gansos foie gras com a comida.

Se analisarmos, muito desse conhecimento virará gordura. Isto é, não servirá para muita coisa na vida adulta. Será, literalmente, deletado. E o que restará disso é um jovem que cresceu sem exercitar os músculos da reflexão, do pensamento, da descoberta. São jovens que foram treinados, desde a mais tenra idade, a receber ao invés de ir atrás. A decorar ao invés de refletir. A sobreviver ao aprendizado ao invés de vivê-lo intensa e alegremente.

Pobres meninos e meninas foie gras. Podem até, um dia, conseguir voar para o sul. Mas terão que se esforçar muito, muito, muito para escapar do moedor.

19.10.09

Para os alfabetizadores, com carinho.

Este texto foi escrito com o objetivo de ser publicado no dia do professor. Para variar, eu acabei me perdendo com as datas e ele sai hoje, atrasado. Espero que as professoras me perdoem por mais essa.



Dona Wilma foi professora da Prefeitura de São Paulo e trabalhou a vida toda nas séries iniciais de alfabetização. Por opção. Ela adorava alfabetizar.

Conheci-a quando já estava aposentada, mas me lembro do carinho e do entusiasmo com que ela conversava sobre seu tempo de ensino. Ela ria quando dizia que seu negócio era sala de aula. Recusou todas as propostas de transferência para um trabalho mais burocrático. E levou muita reprimenda porque se recusava a "soltar" os alunos para participar de reuniões internas. Se queriam conversar, dizia, que fosse em outro horário. Ela tinha uma aula a dar e levava isso a sério.

Não me lembro, nas nossas conversas, de ouvi-la falar mal dos pais, do sistema, das condições, dos colegas, do que fosse. O assunto era sempre os alunos. Mesmo depois de aposentada, sua maior preocupação eram eles. Contava como se empenhava em fazer aquelas criaturas tão pequenas se sentirem capazes e confiantes diante do imenso desafio que é a alfabetização. Sempre os elogiava e demonstrava orgulho por suas conquistas. Tinha um jeito todo especial de lidar com os mais desatentos, negligenciados ou com dificuldades em aprender. Sentava-os perto dela, penteava seus cabelos, dizia como eles eram queridos, como eram inteligentes e o quanto era bom tê-los como alunos. A estes dedicava um acompanhamento especial.

Se orgulhava em contar que nunca, na sua trajetória, um aluno seu terminou o ano sem saber ler e escrever.

Com Dona Wilma aprendi que educar é, antes de tudo, respeitar e acreditar no outro. Mesmo que este outro seja um ser mal saído das fraldas ou um arrogante jovem de boné. Ela nunca enxergou num ser humano um caso perdido.

Meus filhos tiveram a sorte de ter em suas vidas, professores que também souberam misturar amor às letras e aos números. Admiro-os imensamente, pois sei que não é fácil. Educar é um longo percurso, cheio de desafios e conduzir uma criança com segurança por ele requer conhecimento, determinação e paixão pela profissão. A estas pessoas maravilhosas meu eterno obrigada! Em tudo o que eles venham a ser ou fazer, haverá sempre uma parte de vocês os acompanhando.

14.10.09

Vamos falar de caligrafia.



Já escrevei que sou contra os exercícios sistematizados de caligrafia. Já fui bem mais, de ir à escola questionar o procedimento e etc. Hoje convivo melhor com eles. E até entendo - pero no mucho - onde se quer chegar.

Mas, caligrafia ainda é algo polêmico. Tem mãe que se aborrece com os bilhetes da professora pedindo mais capricho na letra. Tem outras que acham que a escola não ensina a ter a letra bonita, como antigamente, e que deveriam dar mais exercícios de caligrafia.

Para chegarmos a uma conclusão, precisamos compreender a função da escrita.

Por que escrevemos? Para nos comunicar. A principal função da escrita é passar uma informação a outro. Ou para nós mesmos. E, como todo tipo de comunicação, quanto mais clara, mais fácil é compreender a mensagem. Por exemplo, é muito chato escutar uma rádio com chiados. Ou ver TV com fantasmas. Com a escrita, funciona da mesma forma.

Porém, poucos se dão conta que a "clareza" na comunicação escrita não é obtida apenas com a letra bonitinha. Para um texto transmitir com eficiência a mensagem do autor, é preciso ser legível, ter boa ortografia, gramática, coerência (começo, meio e fim) etc.

Na minha experiência como professora universitária de redação publicitária, cansei de pegar textos escritos com "letrinha de professora" que eram impossíveis de serem lidos, pois não uniam lé com cré. E já peguei "garranchos" capazes de entregar preciosidades de criatividade e raciocínio. Qual dos dois "ruídos" é mais fácil de ser ajustado: a letra ruim ou a pobreza de raciocínio? O primeiro, obviamente. Letra ruim dá-se um jeito. Ainda mais em tempos que se tecla mais do que se escreve a mão. Já o raciocínio ruim é uma falha de formação dificílima de ser corrigida na idade adulta. E que compromete gravemente o desempenho desta pessoa em inúmeras áreas.

Vamos agora retornar à infância e à sala de aula. O que é mais fácil de ser ensinado: como desenhar uma letra bonita ou como pensar? Tará! Você acaba de descobrir porque perde-se TANTO tempo fazendo crianças preencherem linhas e linhas infinitas de caligrafia. Porque ensinar a pensar dá trabalho! E exige muito mais do professor. Tem que se estimular a leitura, tem que analisar coerência do texto, tem que investir em idas e vindas de contação de histórias, tem que ouvir, tem que refazer, tem que corrigir, tem que estimular. Muito mais fácil mandar copiar "preciso ter a letra caprichada" 150 vezes no caderno de caligrafia. Muito mais fácil pegar um caderno e corrigir com uma única anotação: "Que texto legal. Mas precisa melhorar a letra.". Muito mais fácil exigir capricho do que exigir interpretação, coerência e raciocínio.

Então devemos desencanar de cobrar letra legível? Não. Mas temos que manter o foco: a escrita serve para comunicar. A letra do seu filho está comunicando? Os outros leitores estão conseguindo entender o que ele quer transmitir? Sim, então desencane. Faça como eu e arrume outra neura. Não, ninguém entende o que ele escreve, aí sim é hora de investir no ajuste fino da letra. Como?

Nunca, jamais, em hipótese alguma dizendo que a letra é feia. Letra feia não é crime. E a feiura é subjetiva. Pergunte à mamãe coruja. Se a letra de uma criança precisa ficar mais legível, pais e professores devem dizer isso a ela, sem grandes dramas. "Fulano, não estou conseguindo ler o que você escreve. Precisamos fazer uns exercícios para tornar sua letra mais fácil de entender." Ponto final. Dá-se os exercícios de caligrafia- para a criança que precisa deles - e, somado a isso, estimula-se esta criança a desenvolver atividades que precisam ser lidas por outras pessoas, como anotações de receitas culinárias, a escrita dos bilhetes na agenda, dos textos coletivos, o preenchimento de um cheque, uma matéria num jornalzinho de classe ou mural.

Outra coisa que ajuda (e muito!), são os exercícios de coordenação motora. E estes devem começar bem antes do aprendizado da escrita: amassar argila, fazer uma bijuteria, recortar, colar, costurar, descascar uma fruta, abrir uma lata, brincar de se pendurar, escovar os dentes, mexer um brigadeiro na panela, etc.

O mundo que vivemos não pede mais calígrafos. Pede seres pensantes, autônomos e criativos. E não é desenhando milhas e milhas de letras e fazendo quilômetros de cópias que se chega lá.

6.10.09

Essa escola existe.


Ontem visitei uma escola diferente.
Onde as crianças estudam a luz e aprendem a acender as estrelas.

Ontem, descobri que é o Sol o ratinho que come a Lua.
E que, para virarmos super-heróis, só precisamos ser humanos.

Ontem, meninos me mostraram retratos urbanos escondidos
na pobreza das favelas e nos muros do condomínio.

Vi crianças correrem atrás de foguetes, como se estes fossem balões.
E observei um carro que não solta fumaça para rodar pelo chão.

Nesta escola, canos tocam música e o piso é macio,
sente-se o doce da musse e o perfume do alecrim.

Ontem, perdi 50kg com o verdadeiro regime da lua.
Plantei margaridas e aprendi que não é no supermercado que brota a vida.

Ontem, uma minicidade me transformou em gigante voyer.
E vi um prédio de palitos começar a se erguer.

Enxerguei coisas do tempo da vovó. Do meu tempo e do que virá.
E me emocionei muito com o que vi.

Ontem, visitei uma escola diferente.
Que não tem professores, apenas sonhadores.

E saí de lá, como a maioria dos seus alunos.
Feliz.

2.10.09

"Pensativos" e um vídeo divertido para o final de semana.

Esta semana, recebi dois textos que me deram muito o que pensar. Um é um relato muito sincero e humano da Hegli, sobre sua experiência como professora em uma escola pública estadual. Essa instituição tão falada, tão temida e tão desconhecida por todos nós. A Hegli arregaçou as mangas e neste texto conta como está sendo a experiência e como ela está mudando sua vida. Clique aqui ler "Prefiro ser uma metamorfose ambulante" .

O segundo texto é para ler com calma e preparada para levar um soco. Pelo menos foi o que senti. Um choque de realidade. Enviado pela Silvia Schiros, este texto narra um episódio de bullying sofrido por uma menina, em um colégio de elite de São Paulo. A partir deste episódio, Eliane Brum, a autora, questiona várias coisas, como filhos criados por babás (as chamadas crianças terceirizadas), a opção por colégios particulares, os valores da nossa sociedade e a cruel e devastadora desigualdade que vivemos. Clique aqui para ler "Entre os muros da outra escola".

E, para relaxar depois de tantos pensativos, um video divertido e bem apropriado a um tema que tem estado na nossa pauta: pais, papis e papitos.