29.5.09

Escola "forte" é escola boa?


Vamos dar uma rápida olhada ao mundo ao nosso redor.

1) o vestibular, eterna desculpa para o ensino decoreba massificante, aos poucos perde relevância na nossa sociedade. (Clique aqui para ler uma notícia sobre este tema)

2) Quem não tem um diploma da USP, UNICAMP ou das Federais não está mais condenado a ser um profissional de segunda categoria. Muito pelo contrário.

3) Carreiras consagradíssimas deixaram de ser sinônimo de burro na sombra. Hoje em dia médicos vivem rebolando à mercê de convênios, engenheiros são demitidos em massa - com uma canetada, e advogados...é bom nem comentar.

4) Novas profissões surgem do dia para a noite. Inovadoras, irreverentes, fora dos parâmetros. Meu filho mais velho agora quer ser arquiteto sustentável. Há 3 anos eu não saberia do que se trata tal profissão. Meu outro filho que ser "escalador de árvore". Damos risada, mas as pessoas que promovem o arvorismo estão ganhando dinheiro fazendo o quê? Um coleguinha deles quer ser pipoqueiro. Fofo, não? Mas provavelmente não é o que pensa o dono dos quiosques de pipoca gourmet dos shoppings centers.

Esse é o cenário hoje. Um cenário no qual, visivelmente, sobrevive melhor quem é criativo, curioso, pró-ativo, flexível e desprovido de falsas ilusões de status. Assisti a um documentário sobre a empresa "Google" e vi a busca constante que eles fazem por profissionais com este perfil. Para atrair estes jovens, oferecem além de excelentes salários, benefícios que beiram a propina. Explico: segurar pessoas com tal perfil é dificílimo. Eles logo enxergam uma nova oportunidade do outro lado da cerca e não tem o medo das gerações passadas de ir atrás.

E como nós, pais e mães, preparamos nossos filhos para este futuro? Matriculando-os em escolas "fortes". Escolas que mandam ver no ensino apostilado. Que despejam uma quantidade enorme de matéria em cima da meninada e salve-se quem puder nas semanas de prova. Escolas que precisam contratar professores que dão showzinho pra manter a meninada atenta. Escolas que se prendem a índices de aprovação no vestibular pra atrair matrículas. (E que agora não sabem o que fazer diante dos resultados do Enem.)

Isso é preparar nossos filhos para o futuro? Claro que não! E a verdade é que, na maioria das cidades, não temos nem opção para fugir de tal formato. E, sem alternativa, acabamos pagando uma fortuna para instituições incapazes de explorar um centésimo do enorme potencial de nossos garotos e garotas. E dá-lhe apostilas e "control c" e "control v" na Wikipédia.

Como diz a propaganda, a vida é muito mais do que isso. Mas, por incrível que pareça, nós - pais, mães e educadores - somos os últimos a perceber.

26.5.09

Mãe nenhuma merece.



Mãe e filho se encontram na cozinha. "Mãe, estou pensando em entrar para a política. Vou me filiar a um partido."

"Entra pro PCC, filho."

O rapaz acha graça. "Mãe, você se confundiu...PCC é sigla de bandido."

"Bom, se é para você virar um, prefiro que seja bandido assumido. Estes, pelo menos, são íntegros, fiés aos princípios deles. Quando vão te assaltar, colocam uma arma na tua cabeça e dizem: 'isto é um assalto.' É honesto, concorda? Você nunca vai ver um bandido dando tapinha nas tuas costas, te chamando de 'meu querido' e segurando criancinha no colo antes de levar o teu dinheiro. Quem faz isso, para mim, é dez vezes mais safado."

"Mãe, nem todo político é assim."

"É verdade...mas uma vez eleitos, não sei o que acontece. Todos passam a aceitar uma negociata daqui, uma mordomiazinha dali, uma passagenzinha aérea acolá. Sabe aquela piada da água de Campinas? Pois eu acho que tem alguma coisa na água das câmaras, dos congressos e dos plenários. Deviam mandar analisar aquele copinho que sempre aparece sobre a mesa quando algum político está fazendo discurso. Pensando bem, melhor não...iam acabar botando a culpa de toda safadeza no pobre do mordomo."

"Pô, mãe...você não confia na educação que me deu, não?"

"Claro que não! Hoje em dia você conhece algum pai ou mãe que confia na educação que dá para os filhos? Acorda, filho...está todo mundo perdido. Essa sua frase fazia efeito no tempo dos meus avós."

Filho muda o tom: "Confessa...você bem que gostaria de ter um filho prefeito, ou senador. Quem sabe até presidente da república?"

"Sabe que você até me deu uma idéia? Acho que a gente podia começar colocando uma placa na frente da nossa casa."

"Não disse? Vote no meu filhão!"

"Não, pensei em: boquete a 50 reais."

Filho engasga com o sanduíche: "TÁ LOUCA, MÃE! QUE É ISSO, PIROU?"

"Não, anjo, mas já que é para eu ser chamada de puta por 180 milhões de pessoas, melhor aproveitar a fama para faturar algum. Avisa teu pai que agora só pagando."

25.5.09

Reflexões para a semana começar bem.


Uma cidade alemã que baniu o automóvel. O fim da infância. E cabelos brancos: assumir ou não assumir? Três assuntos nada a ver, mas que tem tudo a ver com risoteiras, tricoteiras e curiosos. Cliquem nos links abaixo e vamos começar a semana com muito o que pensar.

Comunidade alemã decide ter uma vida sem automóveis e vira referência. (Enviada pela Sílvia Tabarelli, do Silkelita.)

Luta pela infância, por Rosely Sayão. (Enviada pela Hegli, do Educação Ambiental Contemporânea.)

Cabelos brancos - matéria do Mais Você discutindo o ato de pintar os cabelos, com a Sílvia Tabarelli (ó ela aqui traveis!), exibindo orgulhosa sua linda cabeleira grisalha. Todo mês, quando me lambuso de henna pra cobrir os grisalhos, penso nela com uma pitada de inveja.

21.5.09

"Respeitem o meu risoto!"


"Você parou de trabalhar? O que você tem feito?". As fatídicas perguntas voltaram a lhe assombrar enquanto cortava cebola para fazer um risoto.

No alto dos seus 40 anos, trazia na bagagem faculdade, mestrado, ex-empregos em empresas boas e outras nem tanto, alguns anos de vida no exterior, uma extensa lista de namorados gregos, troianos e baianos e uma centena de livros, lidos nas madrugadas de insônia.

Hoje estava em casa, fazendo o que nunca imaginou fazer: cuidando da casa, do marido, dos filhos e, principalmente, de si própria.

Estava feliz. Como nunca esteve. Era uma satisfação diferente. Conhecia muito bem a excitação do mercado de trabalho. Mas agora, apesar de raramente estar desocupada, havia atingido um estado de calma relativa, que ela via como uma grande conquista para quem passou a maior parte da vida correndo atrás sabe-se lá do quê.

Muita gente não entendia tal mudança, inclusive ela mesma. Mas no fundo sentia que estava engajada em um projeto verdadeiramente grandioso. Pela primeira vez, acreditava estar fazendo algo significativo para si própria e para o futuro do planeta. Tinha muito orgulho de suas escolhas.

Enxugou uma lágrima e pensou: "Quer saber? Respeitem o meu risoto! Só eu sei o quanto tive que batalhar para chegar aqui." E caiu na risada. Era choro de cebola.

15.5.09

Crianças adiantadas na escola - parte 2


Precisamos ficar atentos. A mudança de 8 para 9 anos escolares está causando certa confusão e muita ansiedade entre os pais. Para entender, precisamos recapitular:

Como era: educação infantil (até 5 anos), pré-primário (6 anos) e fundamental (a partir dos 7 anos).

Como ficou: o pré-primário virou 1º ano. As crianças agora entram no fundamental com 6 anos.

Mudou muita coisa? Não deveria. Supostamente, o conteúdo do novo primeiro ano deveria ser o do pré-primário. Afinal, a nomenclatura mudou, mas o amadurecimento neurológico e emocional das crianças, não. Então, porque tanta confusão?

Porque agora, os pais entendem que as crianças que estão no último ano da educação infantil, devem receber o conteúdo do pré-primário. Isto é, eles esperam que a escola inicie o processo de alfabetização e de contagem de números, para que eles não fiquem "atrasados" no fundamental. O problema é que estas crianças estão com apenas 5 anos (muitas vezes 4). Elas são ainda imaturas para tal conteúdo.

Essa expectativa (e a confusão da nova nomenclatura) tem levado muitos educadores e escolas a adiantar os conteúdos, gerando todos os problemas citados no texto anterior (clique aqui para ler).

Então, o que devemos fazer?

1. Entender que o novo primeiro ano, nada mais é do que o pré-primário. Nenhuma criança precisa estar alfabetizada ou fazendo cálculos matemáticos para frequentá-lo ou para "acompanhá-lo". Também não devemos ter a expectativa de que nossos filhos concluam este ano lendo, escrevendo e contando. Muito pelo contrário. Neste ano deve ser feita uma aproximação maior da criança com o universo da escrita, da leitura, dos cálculos (e muitos outros universos!). Mas de forma lúdica, brincalhona e sem haver a cobrança de que ela termine o ano dominando tais conteúdos. Hoje em dia, muitas crianças concluem este ano lendo e escrevendo, mas isso não é um requisito. Se o seu filhote ainda não chegou lá, acalme-se. ELE É NORMAL! E perfeitamente apto para ir para o segundo ano.

2. Entender que é apenas no 2º ano (aos 7 anos) que começa oficialmente o processo de aprendizado dos conteúdos do ensino fundamental. E seu filhote terá um ano todo para consolidar tais aprendizados (e mais o 3º ano que é quando se encerra este ciclo). Sem pressa, nem correria. Sei que algumas escolas estão exigindo que as crianças estejam totalmente alfabetizadas (alfabéticas, no educacionês) para entrar nessa série. E oferecem reforço para as que não chegaram lá. Algumas até exigem que as crianças estejam escrevendo com letra cursiva para entrar no segundo ano. E dá-lhe caligrafia quando existe tanta, mas tanta coisa mais importante para eles estarem descobrindo! Diante de tudo isso, ficamos mesmos perdidos, sem saber se a escola que não exige nada disso é fraca ou se nosso filho, que não acompanha essas exigências, tem problema.

Nem um nem outro. Seu filho é absolutamente normal e terá 9 anos para receber todo o conteúdo do fundamental. As escolas que se mantém firmes em respeitar as etapas naturais do desenvolvimento infantil são ótimas escolas. E você, que escolheu respeitar o amadurecimento do seu filho, não é relapso, nem superprotetor. É atento e lúcido.

12.5.09

Crianças adiantadas na escola - parte 1.


Sou do tempo em que crianças adiantadas eram sinônimo de crianças inteligentes. Os pais e avós enchiam a boca para falar que o pequeno estava à frente dos amiguinhos da mesma idade. Hoje se sabe que este salto tem seu preço. E quem paga é a própria criança (e os pais por tabela).

Para entender melhor precisamos refletir um pouco no papel da escola. A escola não é apenas um local para aprender a ler e a calcular. Na escola a criança aprende a sociabilizar, negociar, dominar e ser dominado, brincar, competir com iguais, ganhar e perder. Aprende que precisa se virar sozinha em algumas situações. Que pode apresentar soluções criativas, investigar, descobrir por si própria o conhecimento. Na escola a criança aprimora a concentração, a organização, o jogo de cintura. Enfim, o aprendizado vai muito, muito além do formal.

Quando uma criança é colocada numa classe acima de sua idade, mesmo que poucos meses acima, precisamos sempre nos lembrar de que ela não terá apenas que "acompanhar" o português, a matemática e as outras disciplinas. Ela terá também que acompanhar todo esse aprendizado social e comportamental que inevitavelmente faz parte do pacote. E a pergunta é: ela está pronta para isso? Vale a pena submeter uma criatura de 5 anos à rotina de uma turma com crianças de 6 e até 7 anos?

A mim chegam as mais diferentes histórias, todas com problemas parecidos. Houve a mãe que insistiu (e muito) com a escola para que a filha de 5 anos fosse matriculada diretamente no 1º ano, sem passar pelo infantil IV. A escola foi contra, mas ela argumentava que a filha era muito madura, que só brincava com os grandes e que já se interessava muito por letras e números. "Ela quer aprender, ela vive me perguntando que letra é essa ou aquela." A escola acabou cedendo e a menina, aos 5 anos, foi para o 1º ano. Encontrei a mãe 6 meses depois e a conversa foi muito diferente. A garota estava apresentando múltiplos problemas. Estava ansiosa, se sentindo incapaz, se recusando a fazer determinadas atividades. Às vezes chorava porque não conseguia fazer coisas que os amiguinhos faziam.

Os pais falharam em reconhecer que todo aquele interesse inicial da pequena era fruto dela estar muito bem encaixada na turma anterior. Ela estava feliz, curiosa, descobrindo o mundo, interessada em aprender, fazendo trocas com crianças no mesmo estágio que ela. Era uma criança saudavelmente estimulada. Quando foi adiantada, o estímulo virou cobrança. Não por parte da escola, mas por parte dela mesma. Sentia-se frustrada por não conseguir fazer determinadas coisas que os colegas faziam com facilidade. Claro! Eles passaram pelo ano que a ela foi negado. E um ano faz uma diferença brutal na vida de uma criança. Para concluir, a mãe acabou por tirar a criança da escola (que ainda levou a culpa).

Sei de muitos outros casos, como o de crianças adiantadas que para acompanhar a turma precisam de aulas de reforço, num claro desperdício de tempo e energia (além da tortura que deve ser para a pobre da criança). Ou carecem do acompanhamento de psicopedagogas.

Acontece também dos próprios educadores adiantarem os pequenos. Vivo na pele esta realidade: meu mais velho é nascido em agosto e a primeira escola que frequentou o colocou na turma dos nascidos no primeiro semestre. Nunca questionei, afinal a diferença era de um ou dois meses e fomos levando, contornando os probleminhas que apareciam, sem associá-los com a imaturidade do meu filho. Agora no 6º ano (antiga 5ª série) os problemas se agravaram. Ele acompanha a matéria com uma facilidade incrível (não herdou isso dos genes da mãe). Mas no restante, apanha de uma forma que dá pena. Não consegue se organizar, esquece material, anota errado a tarefa, vive às turras com um ou outro colega, fica ansioso, tímido, enfim...visivelmente, ele sente muita falta do apoio individualizado da professora primária. Ele sofre e nós pais sofremos junto, porque o dia-a-dia acaba sendo desgastante. Um aninho, um aninho que ele estivesse atrás e seríamos todos muito mais felizes.

Já com meu segundo, "mais expertos", detectamos logo no início do primeiro ano que ele ainda era pequeno para tudo aquilo. Os sinais vieram logo: "Mãe, não tem brinquedo na sala. Mãe, eu queria ficar mais tempo no parque. Mãe, a gente só fica escrevendo na folhinha." Levei o caso para a coordenadora que me aconselhou a voltá-lo para o infantil. A professora foi contra, disse que ele estava se adaptando. Ele também se recusava a voltar um ano. Entre a cruz e a espada (eta decisãozinha difícil!) eu e meu marido optamos por voltá-lo e, para que não se sentisse humilhado, mudamos também o período. Foi um início difícil, mas logo ele estava totalmente adaptado e feliz. Hoje ele está no terceiro ano e é um garoto muito alegre e tranqüilo, que aprende com facilidade, faz a tarefa sem dramas e convive muito bem com seus colegas. Para ele é ótimo e para nós pais é um sossego. Uma coisa a menos para corrermos atrás.

Olhando meus dois filhos, aconselho qualquer um que me procurar: não adiante seu filho. Muito pelo contrário. Se for o caso, volte-o um ano sem medo de ser feliz.

E se ele estiver frequentando a classe certa para a idade, mas aparentar apatia e desmotivação, querendo mais do que a escola está dando, não questione a série. Questione a escola. Converse com eles e exija um projeto pedagógico que cubra as diferentes necessidades dos alunos. Isso é o básico que qualquer escola deve oferecer. Se eles precisam adiantar seu filho para que isso ocorra, fuja. Procure uma outra instituição que estimule e acompanhe o ritmo do seu pequeno, mas sempre na turma adequada à idade dele. Mantenha a calma, o discernimento e dará tudo certo.

Clique aqui, caso se interesse em ler a continuação deste texto.

11.5.09

Maridos e presentes.


O primeiro presente foi um desses aparelhos eletrônicos de última geração que fazem o maior sucesso entre os homens e as mulheres mal sabem qual botão que liga. Ela nem se lembra para que servia. Disfarçou o sorriso amarelo, disse que adorou e guardou no criado mudo. Dele.

Alguns dias depois resolveu conversar. Explicou que tinha gostado do presente, que achava até fofa a geringonça, mas aquele era, claramente, um presente mais para ele do que para ela. Pediu que no próximo presente, ele se esforçasse para comprar algo pensando nela e não nele. Não precisava ser caro, nem sofisticado, apenas que fosse especialmente escolhido para a mulher que ele ama.

O mimo veio depois que ele viajou a trabalho para a Europa. Dentro do embrulho havia uma camiseta do Hard Rock Cafe. Ficaram um mês sem conversar. E a faxineira adorou a lembrança.

Achou prudente mudar de tática. Uma semana antes do seu aniversário, disse ao marido o que queria ganhar: "um tênis tipo All Star, bem básico, para eu usar com jeans, ir ao supermercado, levar as crianças na escola...tamanho 36."

Ganhou um tênis básico - para fazer um trekking no Nepal. Era enorme, impermeável superacolchoado, com olho de gato e fibra de carbono. Tamanho 37.

Neste dia das mães, resolveu fazer diferente. Foi à loja e comprou exatamente o que queria. Mandou embrulhar para presente e pagou no crédito. Com o cartão dele. Quando as crianças lhe deram o pacote, exclamou surpresa: "Era o que eu queria! Como vocês adivinharam?" Eles olharam orgulhosos para o pai. Que se sentiu o máximo. E o casamento vai muito bem, obrigada.

8.5.09

Vídeo interessante sobre aquecimento global.

Aproveito esta semana, em que todas as mães estão sendo homenageadas na mídia, nas escolas e em casa, para homenagear a maior de todas as mães. Aquela que nos acolhe sempre de braços abertos, nos dá colo, comida e até o ar que respiramos. A mãe que nunca dá bronca, apenas mostra que todo os nossos atos e escolhas têm consequências (e que consequências!). A mãe eterna e única. A mais linda de todas.
A Terra.

E, como um apelo para cuidarmos melhor dessa nossa mãe querida, publico um comercial que ilustra muito bem as implicações do aquecimento global na vida dos nossos irmãos. Para ser visto por filhos e filhas de todas as idades.

7.5.09

Automóvel, o próximo cigarro - parte 2

Como complemento ao texto sobre a crescente inconveniência dos automóveis, publico um vídeo enviados pela Silvia Schiros sobre cidades que estão sendo planejadas para pedestres e ciclistas e não para os carros. Curiosamente, duas dessas cidades ficam em países desenvolvidos e uma em um país em desenvolvimento, mostrando que tal solução independe do PIB ou do grau de instrução da população. São cidades que concentram esforços para construir ambientes urbanos saudáveis, que promovem a sociabilização, a democracia e a qualidade de vida.

Publico também um linque para um texto da Andrea Vialli, publicado nos blogs do Estadão, afirmando que a crescente queda na imagem dos automóveis já está sendo detectada em pesquisas, preocupando a indústria. E que leis restritivas para a publicidade de veículos estão sendo discutidas, como aconteceu com o cigarro. Clique aqui para ler "O carro será o novo cigarro?"

Ciclovia para cidades que queremos - Parte 1


Ciclovia para cidades que queremos - Parte 2

5.5.09

Automóvel, o próximo cigarro.


Se, há 20 anos, alguém dissesse que os fumantes acabariam impedidos de fumar em praticamente todos os lugares, inclusive escritórios, aviões e botecos, daríamos risada. Naquela época, ninguém, absolutamente ninguém poderia prever a rejeição que o cigarro sofreria em tão curto espaço de tempo.

Com o automóvel acontecerá a mesma coisa. É o cigarro do futuro. A indústria automobilística é poderosa - como a tabagista, as pessoas amam andar de carro - como os fumantes amam dar suas pitadas, mas assim mesmo, um cenário muito parecido com o que promoveu a rejeição ao cigarro está montado. É apenas questão de tempo para que ela aconteça. Vejamos:

O carro vicia. Uma vez que se começa a dirigir, dificilmente se volta a andar a pé, de bicicleta ou de transporte público.

O carro nos torna sedentários. E todos sabemos os inúmeros males que o sedentarismo acarreta. É um problema de saúde pública.

O carro engorda. Estamos vivendo uma epidemia de obesidade. Curiosamente, nunca se dirigiu tanto. Quem deixa de se movimentar acaba acumulando gordura desnecessária. E o acúmulo de gordura é fonte de outros males como diabetes, problemas circulatórios e cardíacos, entre outros.

O carro causa males pulmonares. Todos os anos, milhares de pessoas morrem em consequência de problemas pulmonares causados pela poluição gerada pelo automóvel. Mesmo os mais saudáveis, têm anos de vida roubados pela má qualidade do ar. E, assim como o cigarro, os que mais sofrem são os "fumantes involuntários": crianças, idosos, pedestres e ciclistas.

O carro ajuda a piorar o aquecimento global. A fumaça do automóvel é uma das principais fontes de monóxido de carbono, o gás vilão do aquecimento global.

O carro estressa. Quem mora nos grandes centros sabe que está cada vez mais difícil circular a pé ou atrás do volante sem perder a calma. Vias congestionadas, dificuldade para estacionar, violência no trânsito, ar poluído, barulho, risco de atropelamento. O estresse é fonte de inúmeros distúrbios físicos e sociais.

O carro abre imensas cicatrizes nas cidades. O atual planejamento urbano (se é que temos algum) prioriza o automóvel e não as pessoas. Avenidas cortam bairros e dividem comunidades, rios e córregos são canalizados. Beiras de rios viram marginais feias e sem vida. Erguem-se viadutos sobre praças. As cidades acabam desfiguradas e seus moradores sem referências.

O carro impermeabiliza o solo. Para dar passagem aos carros, milhares quilometros de vias são asfaltadas e calçadas, impermeabilizando-se o solo. Com isso, pioram os problemas das enchentes e da captação natural de água para reabastecer os mananciais.

O carro piora a educação, a saúde e a segurança. Um volume imenso de dinheiro público que poderia ser muito melhor aplicado em benefício da população é desperdiçado anualmente com a construção de pontes, viadutos, túneis e avenidas, sem que, com isso, se resolva o problema do trânsito. É sabido que tais obras também são fontes fartas de desvio de verbas públicas.

O carro inibe o comércio local. Quem dirige prefere comprar em grandes empreendimentos, à beira de grandes vias de passagem e com amplos estacionamentos. Com isso, sufoca-se os negócios que precisam de pedestres para viver, como os mercadinhos de bairro, os cafés, os açougues, as pequenas lojas, floriculturas e etc. Os centros das cidades ficam deteriorados, o comércio de bairro inibido e novos shoppings são erguidos, ajudando a desfigurar ainda mais o ambiente urbano.

O cenário está pronto. Una-se a isso uma população cada vez mais atenta e informada e, em breve, motoristas serão personas non gratas em muitas regiões.

Para a indústria automobilística restará adaptar seus produtos aos novos tempos (ou canalizar todos os seus esforços de marketing para o pobre do terceiro mundo, como fez a indústria tabagista).

Para a indústria de combustíveis, finalmente, investir em pesquisas de novos produtos, menos poluentes e nocivos.

Para os governantes, tirar o foco dos automóveis e investir em ciclovias e transportes urbanos eficientes.

Para nós, rever toda uma forma de viver, mais lenta, mais centrada, mais humana. Não será fácil porque, desta vez, os fumantes somos todos nós.