25.9.08

Meu ouvido não é penico!


Já que está na moda, eu também vou lançar uma campanha. Chama-se "Meu ouvido não é penico!" O motivo é nobre e tenho certeza que contarei com sua ilustre adesão. Não aguento mais político falando asneira em horário eleitoral. Tomam um tempo precioso da nossa novelinha nos obrigando a ouvir um monte de contos da carochinha, que sabemos, não serão colocados em prática nem se eles tivessem 20 anos de mandato. Que dirá em 4.

Acompanhe o raciocínio da campanha: quando se trata de um produto, a publicidade é considerada documento e - tudo o que é prometido em anúncios - precisa ser cumprido. Se o produto não entregar o que promete na propaganda viola as leis do consumidor e pode até ser tirado do mercado, dentre outras sanções.

A campanha "Meu ouvido não é penico" quer que se aplique o mesmo raciocínio da propaganda de produto na propaganda eleitoral. Prometeu, tem que cumprir. Afinal de contas eles não estão querendo nos convencer a "comprar" um político ou um partido? Portanto, se diz que vai criar escola tempo integral para todas as crianças, tem que cumprir. Se diz que vai legalizar bairros que são clandestinos desde o descobrimento do Brasil, tem que cumprir. Se diz que vai dar remédios, metrô de superfície, gnomos da boa sorte para todas as famílias, tem que cumprir. 

A campanha quer que se aprove uma "Lei de Responsabilidade Verbal". Isto é, se prometeu na campanha e depois de eleito não cumpriu, na próxima eleição, o candidato ou o partido terá que usar parte do tempo disponível no horário eleitoral para mostrar ao eleitor todas as promessas não entregues. É uma sanção justa e faria com que os nobres candidatos pensassem melhor antes de falar asneira. Já pensou, metade do tempo do horário eleitoral dedicado a mostrar o que ele não fez na gestão passada? É a vingança do eleitor. Uma proteção que deveríamos ter por lei! 

Passe para a frente a campanha "Meu ouvido não é penico" e vamos mostrar pra essa turma que o horário eleitoral deveria ser usado com sabedoria e respeito. Ninguém pode entrar na nossa casa e ofender nossa inteligência impunemente. Vamos defender o nosso direito de "comprar" um político e receber exatamente o que foi prometido na propaganda. Entre para esta luta! 

Lei de Responsabilidade Verbal já!

23.9.08

Maratonas Matinais



O despertador toca às 6 da manhã. O maldito nunca falha (seria ainda mais maldito se falhasse). Saio da cama toda amassada e visto qualquer coisa. Acordo os meninos que resmungam e se enfiam debaixo do edredon. Coloco os uniformes ao lado deles e chamo-os mais uma vez. "Vamos, meninos, coloquem o uniforme, está na hora". Desço para preparar o café e as lancheiras. Quinze minutos se passam e estranho o silêncio. Subo. Meninos ainda debaixo do edredon. "Vocês ainda não levantaram?! Vamos, coloquem o uniforme". Desço novamente quando percebo que eles começaram a sair do coma. Continuo a preparação de lanches e sucos. Desce o primeiro e se senta no sofá. "Vem tomar café, filho". Desce o segundo com o tênis na mão "Filho, calce o tênis". O terceiro não aparece, subo novamente. Ele está dormindo sem camisa, com a calça do uniforme enfiada em uma perna. Acordo-o e levo-o para o banheiro. Ele pergunta muito bravo: "Mãe, hoje é amanhã?". Acho graça e respondo: "Sim, hoje é amanhã." A fúria toma conta dele: "Eu não entendo...eu durmo e já chega o amanhã. É muito rápido!" Começa a chorar.

Ajudo-o a segurar o bereguelo na hora do xixi. Semi acordado, o tiro sai pra qualquer lado, menos pra dentro do vaso. Terminamos de colocar o uniforme e desço com ele no colo. O maior continua no sofá e o do meio, sentado na mesa olhando para a xícara vazia. O tênis ainda no colo.

"Você não vai tomar café?" pergunto.
"Hoje tem o quê?"
"Tem o que tem na mesa".
"Ah..."

Sento o caçula na mesa, preparo-lhe um leite e termino as lancheiras. Volto para a mesa. O do meio continua olhando para a xícara vazia, com tênis no colo. O caçula está tomando leite. E o mais velho dorme no sofá.

"Vamos, gente. Peguem as mochilas que já estamos de saída. Vocês já escovaram os dentes? Filho, calce o tênis."

Olho para o caçula. O leite derramou e sujou a camiseta. Subo pra pegar outra, mas não tem nenhuma no armário. Encontro uma sem passar na lavanderia. Visto nele assim mesmo. Hoje ele vai pra escola estilo uva-passa.

Retorno pra sala e os outros dois continuam praticamente na mesma posição. Falo irritada: "Você ainda não calçou o tênis?"

"Vou calçá-lo no carro."

Rosno e pego a chave do carro e as lancheiras. O pequeno chora. Quer colo. "Não consigo levar você no colo e as lancheiras". O choro aumenta. Não estou com nenhum saco pra negociar. Coloco as lancheiras no chão, pego-o no colo e peço aos maiores para me ajudarem. "Eu não posso, porque tenho que carregar meu tênis". Olho para ele com tanta fúria que ele dá um jeito de carregar as lancheiras.

Chego na escola. Todos descem. Menos o do meio que continua com o tênis na mão. Entro em surto: "O quê?! Você ainda não calçou esta droga de tênis? Sinto muito mas hoje você vai descalço pra escola."

"Mãe..."

"Nada de mãe...hoje você vai calçar o tênis lá dentro." Saio do carro pronta pra arremessá-lo de meias escola a dentro e ensinar-lhe uma lição.

"Ô Mãe, é que tem um nó apertado. Não consigo desamarrar."

Engulo seco. Não havia mais nada a ser feito a não ser desamarrar o tênis e terminar logo com esta história. A hora em que eles passam para dentro do portão é de imenso júbilo. Consegui!

Se alguém vendesse rojões em porta de escola, ficaria rico.

15.9.08

Poderosas


Quando eu era criança, mulheres casadas eram todas senhoras. Tinham cabelo de senhora, conversa de senhora, roupas de senhora e postura de senhora. Não importava a idade, se tinham 27, 35 ou 50 anos. Parecia que casar com o príncipe encantado e ter filhos automaticamente as colocava numa categoria de pessoas responsáveis, adultas, sérias, sensatas e principalmente, assexuadas. Como diz o Nelson Rodrigues "Como é possível fazer sexo com a Santa Mãe dos meus filhos?"

De repente, surge na minha vida a Rita Lee. Com ela aprendi que era possível casar com o príncipe encantado e mesmo assim ter cabelos vermelhos flamejantes, franjinha, usar roupas descoladas, andar de tênis, fazer coisas bem insensatas e dar, dar muito, na cozinha, na sala ou até dentro da piscina, como na propaganda da Ellus (que você pode assistir abaixo). Santa Rita de Sampa, você ajudou a enterrar muitas futuras senhorinhas. Louvada seja!

Depois veio a Madonna. Com ela aprendi que não só era possível casar, ser poderosa, descolada e dar, dar muito para o príncipe encantado, como também era possível dar, dar muito antes mesmo de encontrar o príncipe. Por que não? Enquanto o dito cujo não aparece, as futuras "não senhorinhas" têm todo o direito de se divertir. (Ah, com ela aprendi também que a noite gay dá de 10 a zero na hetero no quesito diversão.)

Aí veio a Angelina Jolie. Linda, poderosa, correta e tudo o mais o que se diz dela por aí. Pois com ela aprendemos que podemos dar, dar muito antes de encontrar o príncipe, para homens e mulheres, inclusive. E se o príncipe não aparecer, podemos tirá-lo de outra. Mas a melhor da lição que ela deixa a nós, meninas, é que não só existe sexo depois do casamento, como existe sexo depois de termos filhos. Muitos filhos. Uma penca deles.

Quando eu crescer, quero ser igual a elas.

10.9.08

O monstro que mora em mim



Outro dia deixei escapar o monstro. Foi com meu filho caçula. O monstro saiu raivoso, colérico, cruel. A expressão de medo no rostinho dele (essa doeu!) me fez imediatamente acordar e lutar para recolher o monstro. Mas era tarde. O estrago já havia sido feito e foi um episódio muito difícil para nós dois.

Decidi que já era tempo de dar um jeito neste monstro. Ficou óbvio neste dia, que o método que usei até hoje de trancá-lo em um quartinho escuro e secreto, não estava mais funcionando. E não havia mais cadeados que o segurassem. Precisava de outra estratégia. Entendê-lo era um princípio. Que monstro é esse? Por que ele mora em mim? Só eu que o tenho? Por que não o controlo? Perguntas e mais perguntas foram brotando.

Uma coincidência me fez entender melhor o monstro. Fui ao cinema ver o filme "Piaf". Saí de lá convencida que meu monstro é um Pikachu perto do dela. Você olha para a mulher e consegue enxergar o tamanho do bicho que mora lá dentro. É preciso um furacão de furia e dor para alguém tão pequena e mirrada cantar daquele jeito. Mas um monstro daquele tamanho é duro demais de carregar. A Piaf tentou acalmá-lo com doses cada vez maiores de morfina e heroína. Acabou matando-o e morrendo junto.

Janis Joplin, Billy Holliday, Elis Regina, Rita Lee, Frida Kahlo, Derci Gonçalves, Maria Callas, Fernanda Montenegro, Amy Winehouse, Madona, Cassia Eller, todas elas e muitas, muitas outras são mulheres monstro. Algumas, conseguem lidar melhor com isso. Outras não aguentam o peso. E sucumbem como Nova Orleans diante do Katrina.

Com elas aprendi que ter um monstro pode ser pesado, difícil, quase insuportável, mas é preferível mil vezes viver com ele do que levar uma vida beje de comercial de margarina. Será uma longa jornada, mas eu e ele ainda vamos nos dar bem.

P.S.: A sorte me fez conhecer algumas anônimas tão monstruosas quanto qualquer uma das famosas citadas. Qualquer dia, elas virarão texto.

P.S.2: Coloquei um link para quem quiser conferir ao vivo e a cores a Piaf cantando. Neste vídeo, de 1962, ela já está no final da vida, bem acabadinha (aos 47 anos!), mas quando canta, ainda consegue fazer a platéia comovida aplaudir de pé.

6.9.08

Lição de vida

Meninas, este vídeo me mostrou qual a coisa mais importante que devo ensinar a meus filhos. Desde os tempos do "Tapa na Pantera" eu não dava tanta risada. Espero que vocês também gostem. 

1.9.08

Retornos

















Outro dia, me deu de pensar nos muitos retornos que fazemos na vida. Como o retorno caranguejo que é sair com um ex. Ou o retorno B.O. que é tomar umas e dirigir. Tem também o retorno Yes! Yes! Yes! que é orgasmo múltiplo.

O retorno mais comentado da história é o do filho pródigo. E olha que naquele tempo nem tinha revista Caras. Retorno filho da puta é o que fica depois do pedágio. O retorno de Helena é novela do Manoel Carlos. 

Meu, que foda esse retorno! é voltar pra São Paulo depois do feriadão. O retorno "Começar de novo" é o de Narjara Turreta. O retorno bota pilha no sabre é o de Jedi. E quase ia me esquecendo do retorno mais esperado do ano que é devolução do Imposto de Renda. 
 
O Ombudsmãe retorna. Mais completo, mais interativo, mas ainda sendo pensado. Aguardem os próximos retornos.

Um beijo,

Taís

Vergonha


















Imagine que você trabalha em uma fábrica na qual praticamente toda a produção sai defeituosa. Avaliação após avaliação, o produto que você produz é constantemente bombardeado. Ele não é apto nem para as funções mais básicas para as quais foi fabricado. 

Você vive reclamando do salário, do ambiente de trabalho e é plenamente consciente de que existem formas muito mais eficientes de exercer sua função. Mas nenhuma delas é posta em prática na fábrica onde você atua. Sua auto-estima é baixa, seus colegas vivem reclamando. E, o que é pior, você sabe que existem fábricas produzindo bem melhor e com muito mais alegria que a sua e os produtos deles dão um banho no seu. 

Deu para imaginar o cenário? 

Agora imagine que uma pessoa vem questioná-lo sobre sua satisfação com esta fábrica e VOCÊ RESPONDE QUE ESTÁ SATISFEITO!!!!!!!

Essa foi exatamente a resposta dos professores brasileiros na pesquisa da Veja sobre o índice de satisfação com as escolas públicas. 

Que o pais tenham se considerado satisfeitos, é compreensível. Eles comparam com a escola que tinham (ou que nunca tiveram) e, sem parâmetros melhores, acham que está tudo bem. Agora, os professores, agentes atuantes no processo de formação dos piores alunos do mundo, dizerem que estão satisfeitos é caso de polícia. Desculpem a sinceridade, mas este índice de satisfação, para mim, é um atestado de conivência com um sistema cruel de emburrecimento coletivo. 

O mínimo que se espera de um professor no Brasil é vergonha. Da situação. E na cara.