28.10.07

Educar é ensinar a superar limites

06/11/2006

Educar é ensinar a superar limites

Por Rosely Sayão

Uma mulher entrou no elevador com a filha de mais ou menos quatro anos. Assim que entraram, a garota se apressou para apertar o botão e a mãe logo informou qual era o número. A garotinha, que era uma graça, respondeu imediatamente:

- Eu já “sabo”, mãe.
- Não é “sabo”, filha, é sei.
- Mãe! Eu “sabo” que é eu sei.

Esta é uma boa oportunidade para falar a respeito de uma importante limitação das crianças em relação às regras. Assim que elas descobrem uma regra, seja por conclusão própria ou por aprendizado – elas ficam aprisionadas nas tais regras,

Com a idade que tem a garota do diálogo, ela está descobrindo o funcionamento das regras, de todos os tipos. O problema é que, quando descobre ou aprende, ela passa a universalizar o uso, como ela fez com o verbo saber. Se correr resulta em eu corro, se beber em eu bebo e fazer em eu faço, claro que saber só pode resultar em eu “sabo”!

O que eu quero dizer é que o maior problema na educação de crianças e jovens talvez não seja o de colocar limites a eles e sim o oposto. Talvez nossa maior tarefa seja exatamente a de ajudar os mais novos a superarem os limites que têm.

Não será fácil para essa mãe convencer a filha de que ela deve falar “eu sei” e não “eu sabo”. E sabem por quê? Porque a garota está fixada em uma regra. A menina não tem culpa se os verbos da nossa língua não têm, todos, conjugação regular, certo?

Pois assim é com o comportamento. Quando uma criança aprende, por exemplo, que morder produz um efeito que ela busca, ela descobre uma regra. Daí em diante, ela irá morder sempre que a situação que enfrentar for semelhante à primeira em que mordeu e que conseguiu o resultado que queria. O comportamento dela não significa, portanto, falta de limites e sim excesso de limite! O que ela precisa é aprender a superar tal limite e esse aprendizado é demorado, na maioria das vezes.

Modificar nossa compreensão a respeito dessa questão é bem importante porque assim pode mudar também nossa atitude frente às crianças e aos jovens. Quando pensamos que eles se comportam de determinadas maneiras por falta de limites ficamos enfadados, desanimados e até impotentes. Mas, se pensarmos que o que provoca tais comportamentos é, na verdade, um excesso de limites e que eles precisam de nós para conseguir superá-los, nossa atitude pode se tornar mais potente e a nossa prática educativa mais generosa.

Por falar nisso: generosidade é virtude essencial para quem educa, não é?

Tirado do blog da Rosely

Pais dão limites demais e respeitam pouco

São Paulo, quinta-feira, 05 de dezembro de 2002

s.o.s. família rosely sayão

Pais dão limites demais e respeitam pouco

Discutir a educação é sempre muito estimulante, já que é principalmente por ela que preparamos o futuro. Mas, vira e mexe, volta aquela velha história de que nossas crianças e jovens não têm limites, e parece que esse é nosso maior -se não único- problema na educação. Ora, se faz tempo que ouvimos essa frase e as coisas continuam na mesma, é sinal de que precisamos problematizar a questão e olhar de uma outra ótica. Afinal, qual educador -pai ou professor- não quer praticar uma educação que dê melhores frutos? Todos querem e, se dar limites fosse algo simples, não teríamos tantos problemas.

Importante é lembrar que, para impor limites, é preciso exercer autoridade. Desde o início do mundo moderno, vivemos uma crise de autoridade, e não foi a escola -muito menos a família- que a originou. Ao contrário: pais e professores arcam com o fato. Assumir a autoridade sendo mãe, pai ou professor, portanto, não tem sido nada fácil. Mas é possível.

Colocada essa questão, podemos começar a pensar os limites de outra forma. Será que nossas crianças não têm limites em demasia, ao contrário do chavão que vem sendo exaustivamente repetido? Vejamos as crianças com menos de sete anos, que vivem a primeira parte da infância. Nessa idade, tudo o que a criança precisaria é de tempo, espaço e liberdade para construir sua identidade, reconhecer-se e aprender a respeitar-se, conviver com outras crianças com respeito e aprender a proteger-se do meio, a cuidar-se. E o que temos oferecido a elas? Limites, limites e mais limites.

Elas não têm espaço para explorar o mundo, o tempo é tomado por atividades programadas pelos adultos, elas nem sequer têm a liberdade de fazer do que gostam pelo tempo que querem. Não conseguem ficar quietas e sozinhas, brincando só com o pensamento e a imaginação. Sempre há um adulto mediando a relação da criança com o meio, com suas tentativas -muitas vezes desastradas- de alcançar a autonomia. Assim, é compreensível que ela reaja negativamente quando se defronta com um limite vital, imposto por pais ou professores. Afinal, não respeitamos essa etapa da infância, em que o mais importante na vida é brincar, mas queremos que a criança respeite os limites da vida mesmo assim. Mas será possível que seja diferente já que essa é a nossa vida? É possível e talvez seja da escola de educação infantil a maior responsabilidade.

Como se estruturou essa escola? Da mesma maneira que a escola de ensino fundamental: em turmas de mesma idade, com organização seriada -maternal, jardim etc.-, com atividades programadas o tempo todo. O que varia de escola para escola são as brincadeiras, a forma de os professores se relacionarem com as crianças e colocarem os limites, por exemplo. Mas crianças de menos de sete anos precisam de uma vida bem diferente.
Há uma escola aqui em São Paulo, a Tearte, dirigida por uma grande educadora -a Thereza Pagani, chamada de "Therezita" ou de "Tê" pelas crianças- que se propõe a respeitar a criança dessa idade e permitir que ela se organize do seu próprio jeito, sem impor limites desnecessários. Dessa maneira, os limites inevitáveis são aceitos mais facilmente.

As crianças, de zero a sete, brincam à vontade num espaço livre repleto de estímulos e riscos também, é claro. Não são separadas por idade, não há classes, não há atividade obrigatória, muito menos rotina estabelecida com rigidez. Os professores -sempre há pelo menos um homem na função- acompanham as conquistas que a criança faz nesse espaço e a convidam para atividades. Resultado? Crianças tranquilas -com vivacidade, mas sem excitação-, que convivem em harmonia, se respeitam e respeitam os outros e o ambiente.
"Therezita", aos 71 anos, dirige essa escola há 30. É respeitada porque impõe os limites necessários. Não é maravilhoso saber que essa prática educativa existe, é possível e dá certo? A criança que passa por um processo desses na primeira infância recebe uma formação que irá sustentá-la pelo resto da vida porque teve o que precisava na hora certa.

ROSELY SAYÃO é psicóloga, consultora em educação e autora de "Sexo é Sexo" (ed. Companhia das Letras); e- mail: roselys@uol.com.br

25.10.07

Neura neles!


Americano é famoso por neurotizar tudo. Pode reparar. Coisas que eram simples e comuns por centenas de anos, de repente, viram um bicho de sete cabeças porque lá nos EUA é um bicho de sete cabeças. O politicamente correto é um exemplo. Outro dia alguém me disse que não se pode falar que é “desempregado”. O certo é “excluído do mercado de trabalho”. E meu filho acha muito chato o novo Tom e Jerry, que não são mais inimigos. “O outro era bem mais legal, mãe.” Milenarmente, gato persegue rato. Ponto. Quem será que foi o gênio que resolveu dar o bom exemplo? Qualquer criança percebe que fica esdrúxulo.

A lista de neuras importadas dava o conteúdo de um site, mas neste texto me concentro em uma: alguém conhece a revista “Men’s Health”? Quem leu o texto "Mulheres Superpoderosas" criticando a disparidade entre revistas femininas e masculinas, vai adorar saber que agora há uma revista made in USA, publicada pela Abril, cheia de neuras e fobias para o “macho” moderno. A capa deste mês ensina a “eliminar pneuzinhos”! AMEI! Neura neles! Ensina também a turbinar a dieta e ainda responde por que eles são malucos por seios (matéria totalmente “dãr”, como diria meu filho). Inclui ainda o “guia definitivo para eles ficarem mais atraentes” e “germes, pau neles”. Fala sério, não é totalmente Cláudia?

Sinceramente, me deu medo. Prefiro nossos homens latinos mais para Shreks do que para estas coisinhas americanas cheias de espelhos e manias anti-germes. Eu, hein! Afinal de contas, os Shreks se apaixonam pelas Fionas - divertidas, deliciosas e totalmente ogras. Se um dia você sair com um mocinho e no revisteiro tiver a tal da Men’s Health – fuja (ou tome um banho de Lysoform). De neura, já bastam as nossas.

16.10.07

“Não precisa se preocupar”




Nunca fui fã de celular. Sei que isso soa jurássico, “mais uma daquelas que detestam tecnologia e louvam o LP.” Não é nada disso. Acho chato, inconveniente e difícil de usar. Esse negócio de ter que ficar apertando botãozinho e dar carga é um porre. Mas enfim, me rendi quando tive filhos. Quer dizer, fui rendida. Minha irmã um belo dia apareceu com um Baby (lembra dele?) e disse que uma mãe que se preza jamais poderia ficar sem um celular.

Depois do Baby “evolui” para um outro que, um belo dia, caiu no mar de Barra do Sahy. Hoje deve estar na bolsinha de mão da Pequena Sereia. Minha grande amiga Sílvia, testemunha do ocorrido, logo me resgatou do mundo pré-ringtones me dando um celular que ela tinha aposentado. O aparelho está em excelente estado e é bem mais moderno que o meu glub glub, mas apanhei como uma coitada pra usá-lo. Não conseguia ler mensagens, não conseguia aumentar e diminuir volume, enfim, socorro!

Aos poucos fui sendo domada e entendendo os humores do aparelho. Já domino o basicão: atendo, ligo (quase nunca...tá sempre sem crédito) e mando mensagens. Me sinto a Bill Gates. Mas semana passada, senti na pele o que é ser mãe com celular. Estava na loucura de entregar dois projetos, correndo pela cidade, quando o aparelho toca. Geralmente, eu não ouço (não me pergunte por que), mas dessa vez, atendi. Era a minha babá: “Olha, não precisa se preocupar”...gelei...”mas o Fábio foi atropelado”. “COMO ASSIM NÃO PRECISA SE PREOCUPAR?!” “Ele está bem, não bateu a cabeça nem nada, mas riscou todo o carro da moça e ela veio trazê-lo aqui.” Corri pra casa. Encontro o meu menino de 7 anos, com cara de quem está com medo de bronca. Ele me explica que estava pedalando pelo condomínio e, por qualquer motivo, não olhava para frente. Foi ao encontro de um carro que passava. “Devagarinho, viu, mãe,” Inspeciono o corpo todo dele. Apenas um arranhão na cintura, onde pegou o guidão. Abraço, apertado. Não sei o que dizer. Se é para parar de andar de bicicleta, se é para olhar para frente, ou usar capacete.

Dia seguinte, na correria de sempre e mal refeita do susto, toca o celular novamente. “Oi Taís, olha não precisa se preocupar...” começo a chorar “...mas o Encrenca mordeu o Lucca. Não é grave. Mas tá saindo muito sangue. É melhor você vir logo pra cá”. Corro pra casa e encontro o meu mais velho com a cara inchada de chorar, a panturrilha cheia de furos e um grande hematoma. Já havia sido socorrido e medicado pelo dono do Encrenca, um cachorrinho daquelas versões chiques do pequinês.

Agora descobri como minha mãe sobreviveu a uma maternidade com 5 filhos. Ela não tinha celular. Acabo de desligar o meu.

3.10.07

Filhos, o retorno.




De todas as tarefas árduas da vida, incluindo lidar com pedreiro, discutir a relação e planejar o próximo corte de cabelo, a mais difícil, disparada na liderança do campeonato, é educar uma criança.

Antigamente as regras eram mais claras e acredito que tudo era mais fácil. Não podia desobedecer o adulto, tinha que respeitar os mais velhos e aprontou, apanhou. O modelo funcionava? Tem gente que diz que sim e que os métodos modernos de educação são pura frescura estraga criança. Eu assumo que, mais fácil, era. Esse negócio de diálogo e negociações às vezes cansa demais. E nem sempre funciona tão de imediato como uma bela porrada no meio da testa. Mas o fato de ser mais fácil de aplicar, não quer dizer que o método da vovó funcionasse tão bem assim. Quem prega uma volta aos velhos tempos, ignora a legião de adultos absolutamente malucos, desajustados e desestruturados que habita o planeta e circula como gente “normal”. Não precisamos ir longe. Basta olhar de perto a nossa própria família para ver a quantidade de adultos doidos que nos rodeia (incluo aqui os autores de blog). São tios, tias, primos e avós queridos, adoráveis, divertidos, mas se olharmos no detalhe, loucos de pedra.

Então, a gente busca outro formato, tentando errar um grão de areia a menos (mais do que isso, acho pura ilusão). Buscando estruturar melhor nossos filhos, humilhá-los menos, valorizá-los, fortalecê-los etc. etc. etc. Mas que é difícil, é. Hoje acordei ainda sob os efeitos do vendaval educacional que varreu minha casa ontem. Prometi ao meu filho não contar a ninguém o que houve. Mas foi caso pra uma bela surra ou um castigo daqueles. Optamos por resolver de outra forma. Ele terá que corrigir o que fez de errado. E isso levará muito tempo. Haja paciência! Paciência de ter que esperar e de ter que aguentar a choradeira de quem está sofrendo por ter que abrir mão de seus próprios planos pra ter que ressarcir a pessoa a quem lesou.

Dá pena. Mas seguimos semi-firmes na opção educacional que fizemos. Só o tempo dirá se fizemos a escolha certa. Se eu tivesse que dar um conselho a alguém hoje, eu diria “Use camisinha!”